O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

A. Significado do número 40

  1. O tempo de Deus chegou e chegou para ficar. A Quaresma, preparando-nos para a celebração anual da Páscoa, já acontece depois da Páscoa, já acontece em tempo de Páscoa. Vivemos a Quaresma porque estamos em Páscoa desde há dois mil anos. É, portanto, num clima pascal que iniciamos a Quaresma. E que pode haver de mais pascal do que o apelo à conversão que atravessa já este Primeiro Domingo? A conversão «pascaliza-nos», permitindo-nos mudar na vida e ajudando-nos a mudar de vida.

A esta luz, entende-se que, inicialmente, a preparação da Páscoa durasse apenas três dias. Naquela altura, os cristãos viviam tão entranhadamente a vida cristã — a que nem faltava o martírio —, que não havia necessidade de um tempo especial para responder ao apelo à conversão. Nessa altura, não havia muita preparação porque havia muita vivência. Os cristãos tinham uma consciência aguda de que a sua vida era pascal. Por isso, a penitência era contínua. Não havia necessidade de um jejum especial porque a prática do jejum era habitual.

 

  1. Nem a iminência da morte amortecia a eminência da fé. Curiosamente, se não havia formalmente 40 dias de preparação para a Páscoa, já havia 50 dias de celebração da Páscoa, até ao Pentecostes. Foi por volta do ano 350 que os cristãos entenderam que três dias de preparação era pouco para uma festa tão grande. Decidiram, então, optar por 40 dias.

O número 40 é muito significativo na Sagrada Escritura. Está sempre ligado à preparação de algo importante. Por exemplo, o dilúvio — que foi como que a preparação de uma nova humanidade, purificada pelas águas — durou 40 dias e 40 noites (cf. Gén 7, 4). Foi ao longo de 40 anos que o povo eleito caminhou pelo deserto rumo à terra prometida (cf. Deut 2, 7; 8, 4). Foi também de 40 dias o prazo fixado para a destruição de Nínive (cf. Jn 3, 4). O profeta Elias caminhou 40 dias e 40 noites para chegar ao monte de Deus, o Horeb (cf. 1Rs 19, 8). Moisés jejuou 40 dias e 40 noites (cf. Deut 9, 9). E, como sabemos, foi também esta a duração do jejum de Jesus (cf. Mt 4, 2).

 

B. A Quaresma é um tempo de preparação

 

3. Curiosamente, São Marcos não diz que Jesus jejuou. Limita-se a informar que esteve 40 dias no deserto a ser tentado, no meio de feras e anjos (cf. Mc 1, 13). Foi esta a Sua preparação para a missão. Após a prisão de João, Jesus parte para a Galileia e começa a anunciar o Evangelho de Deus (cf. Mc 1, 14).

Eis-nos perante sinais da chegada de um tempo novo: a prisão de João como que assinala o encerramento do tempo antigo. Também não é por acaso que Jesus parte para a Galileia, iniciando aí a Sua missão. A Galileia é o local por excelência do anúncio das novidades. Não esqueçamos que a novidade maior que Jesus transmitiu aos Seus discípulos (a Ressurreição) foi comunicada precisamente aqui, na Galileia (cf. Mc 16, 7.14).

 

  1. É por isso que a Quaresma é, essencialmente, um tempo de renovação. Ou, melhor, é um tempo de preparação para a renovação pascal. É por isso que na Quaresma se ultima a preparação para o Sacramento da Vida Nova (o Baptismo), que se celebra na Vigília Pascal. E é por isso que na Quaresma se celebra o Sacramento que renova em nós a graça recebida no Baptismo.

Trata-se do Sacramento da Reconciliação. O objectivo é (como se depreende da própria palavra) que nos voltemos a conciliar com a vida oferecida no Baptismo. No Baptismo, recebemos uma vida nova: deixámos de ser Adão e passámos a ser Cristo. O problema é que, como notamos por experiência própria, nem sempre vivemos «baptismalmente». No balanceamento da nossa existência, por vezes recuamos e trocamos Cristo por Adão. Daí que necessitemos de recuperar o que vamos perdendo.


 

C. A Confissão é uma cura, não uma tortura

 

  1. Mas se o pecado é grande, a graça que vence o pecado é muito maior. Se o assédio do pecado é contínuo, a presença da graça é ainda mais constante. Não existe, portanto, uma simetria entre graça e pecado. Como bem notou S. Paulo, «onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5, 20).

A Confissão é, para usar uma expressão da Liturgia, uma «segunda tábua de salvação depois do Baptismo». Com muita propriedade, os escritores cristãos antigos chamavam-lhe «Baptismo laborioso». A Confissão devolve a graça que o Baptismo nos oferece e que o pecado obscurece. Não há, pois, que ter medo da Confissão.

 

  1. Quem diz que não peca está a dizer que não se conhece. Se até «o justo cai sete vezes ao dia» (Prov 24, 16), quem somos nós para não cairmos? Acontece que a santidade não consiste só em não cair. A santidade consiste também — e bastante — em levantarmo-nos depois de cair. É Jesus quem, na Confissão, nos estende a Sua mão (cf. Mt 14, 31). É Jesus quem, na Confissão, nos toca e nos levanta (cf. Mc 1, 31).

Ele está em condições únicas para nos curar do pecado, pois até Ele foi tentado (cf. Mc 1, 13). Só em Jesus conseguiremos não cair na tentação. Só em Jesus seremos capazes de nos erguer se pela tentação nos deixarmos abater. Nunca nos esqueçamos. A Confissão é uma cura, não uma tortura. É por tal motivo que, enquanto tempo penitencial, a Quaresma é habitada por uma persistente alegria: pela alegria de quem se sente curado, libertado, amado e salvo.

 

 

D. Mais espiritualidade gera maior solidariedade

 

  1. A Confissão abre-nos a Deus e, em Deus, ao nosso irmão. É que quem se fecha a Deus, também se fecha aos outros. O amor a Deus e o amor ao próximo foram por Cristo unidos de tal forma que quem ama a Deus tem de amar o seu irmão (cf. 1Jo 4, 21).

Há, pois, uma imensa sabedoria na proposta quaresmal. A mudança no mundo tem de começar pela transformação de cada pessoa que há no mundo. Se nós não mudarmos, como poderemos esperar que o mundo mude?

 

  1. Os dois maiores eixos do tempo quaresmal são a espiritualidade e a solidariedade. Não é possível seguir Jesus sem O acompanhar no Seu silêncio no deserto (cf. Mc 1, 12). Desde logo, porque só na medida em que O acompanharmos no silêncio, estaremos em condições de acolher a Sua palavra. Sabemos que não é fácil criar silêncio no barulhento mundo de hoje. Vivemos cercados por toneladas de ruído: de ruído sonoro e de ruído visual. Mas se o silêncio não nos procura, temos de ser nós a procurar o silêncio. Fazer silêncio é muito mais do que estar calado. É criar uma predisposição para a escuta: para a escuta de Deus, para a escuta do outro, para a escuta da vida.

A solidariedade ajudar-nos-á a fortalecer a nossa relação com o próximo a partir de Deus. Aqui se compendia, aliás, todo o ensinamento de Jesus. Ele fala-nos de Deus como Pai e, nessa medida, apresenta-nos cada ser humano como Irmão. É por tudo isto que a Quaresma é um precioso auxílio para escovar a poeira do egoísmo que nos infecta.

 

 

E. Como jejuar?

 

  1. Juntamente com a partilha, a oração e o jejum compõem o tripé do itinerário quaresmal. O jejum, ao despojar-nos da satisfação do nosso apetite, despoja-nos de nós e habilita-nos para uma vida centrada em Deus e no próximo. Não fazemos nós jejum por razões egoístas? Porque é que não havemos de fazer também por razões altruístas? Se nos privamos de alimentos para manter a linha, porque é que não nos privamos de alimento para nos mantermos em linha com Jesus?

O nosso jejum identifica-nos com Jesus, que fez jejum, e com tantos que são obrigados a fazer jejum (cf. Mt 4, 2). Nos que passam fome reencontramos Jesus, que também sentiu fome (cf. Mt 4, 2). Tudo o que fizermos a eles será feito a Ele (cf. Mt 25, 40).

 

  1. Nesta Quaresma, despojemo-nos, então, de alguma carne e do peixe caro. Mas façamos também, de vez em quando, jejum do automóvel desanuviando o ambiente. Façamos igualmente jejum do cigarro, contribuindo para a nossa saúde e para a saúde dos nossos semelhantes. Façamos jejum de certas imagens e de algumas palavras. Façamos total jejum das intrigas, das insinuações e das calúnias. Façamos total jejum dos juízos precipitados, das acções agressivas e dos sentimentos violentos. Deixemos que a bondade brilhe, que a paz reluza, que a justiça floresça e que o amor vença.

Uma vez mais, o tempo de Deus chegou.Convertamo-nos à Boa Nova!

publicado por Theosfera às 05:15

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