O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 04 de Março de 2018

A. A Páscoa e o Baptismo

 

  1. Neste Terceiro Domingo da Quaresma, os catecúmenos começam a fazer os chamados «escrutínios» em ordem ao Baptismo, na Vigília Pascal. A este propósito, é bom não esquecer que o tempo da Quaresma, na medida em que está orientado para a celebração da Páscoa, está igualmente ligado à celebração do Baptismo.

O Baptismo é um sacramento pascal e a Páscoa — pode dizer-se — é um acontecimento baptismal. De facto, no Baptismo existe uma «páscoa», isto é, uma passagem («peshah»). Na Páscoa, Cristo passa da morte à vida. No Baptismo, também nós passamos da morte [que é o pecado] à vida [que é graça].

 

  1. Como se depreende da própria palavra, com os «escrutínios» pretende-se conferir as disposições dos que se preparam para o Baptismo. É neste sentido que, ao longo de três domingos, a comunidade ajuda os catecúmenos a «escrutinar» a sua debilidade e, ao mesmo tempo, a sua disponibilidade para receber a vida nova de Cristo.

Estes escrutínios são feitos aos que são baptizados na idade adulta e às crianças em idade escolar, que ainda não estão baptizadas.

 

B. Jesus é o novo templo para o novo culto

3. Percebe-se, portanto, que a liturgia deste Domingo nos apresente Jesus como a vida nova: Jesus é a vida nova figurada no templo novo. Todos os templos caem e o Templo de Jerusalém também caiu pelo ano 70. Só o novo templo Jesus permanece. O templo material é, pois, uma evocação do templo espiritual que é Jesus e que devemos ser nós em Jesus (cf. 1Cor 3, 17). O novo templo inaugura um novo culto que não está dependente de um lugar. O novo culto não tem de ser prestado em Garizim ou em Jerusalém, mas «em espírito e verdade» (Jo 4, 23).

Jesus inaugura um culto que pode ser prestado em qualquer lugar. Jesus é o novo templo e o novo culto. Jesus é o novo templo para o novo culto.

 

  1. Isto não significa que Jesus não respeite o tempo material. Pelo contrário, até fica seriamente incomodado com a falta de respeito que existe dentro do Templo de Jerusalém. O zelo pela Casa de Deus devorava-O (cf. Jo 2, 17). Daí que não permita que se transforme a Casa de Deus numa casa de comércio (cf. Jo 2, 16). É por isso que não hesita em fazer um chicote de cordas para expulsar os vendedores e os cambistas, derrubando mesas e espalhando trocos pelo chão (cf. Jo 2, 15).

Não se trata de um acto de violência, mas de zelo. Não se diz que Jesus tenha atingido alguma pessoa. O que Ele atinge são as coisas e os comportamentos das pessoas.


 

C. O novo templo é indestrutível

 

  1. Este episódio aparece na «secção introdutória» do Evangelho de São João (cf. Jo 1,19-3,36). O Templo de Jerusalém tinha sido construído por Herodes. A construção iniciou-se em 19 a.C. e ficou praticamente concluída no ano 9 d.C., embora os trabalhos só tivessem sido dados por finalizados em 63 d.C..

Uma vez que o Templo estava a ser construído há 46 anos (cf. Jo 2, 20), então, fazendo as contas, este episódio ocorreu no ano 27 d.C.. Por coincidência, estávamos a poucos dias da Páscoa judaica, uma época em que grandes multidões se concentravam em Jerusalém. Só para termos uma ideia da mobilização que esta festa desencadeava, refira-se que Jerusalém — que teria à volta de 55.000 habitantes — chegava a atrair cerca de 125.000 peregrinos por altura da Páscoa.

 

  1. No Templo sacrificavam-se à volta de 18.000 cordeiros, destinados à celebração pascal. Daí que o comércio relacionado com o Templo tivesse um aumento exponencial. Três semanas antes da Páscoa, começava a emissão de licenças para a instalação dos postos comerciais. O dinheiro arrecadado com a emissão dessas licenças revertia para o Sumo Sacerdote. Vendiam-se os animais para os sacrifícios e vários outros produtos destinados à liturgia do Templo. Havia, também, as tendas para os cambistas trocarem as moedas romanas correntes por moedas judaicas. É que os tributos dos fiéis para o Templo eram pagos em moeda judaica, pois não era permitido que moedas com a efígie de imperadores pagãos conspurcassem o tesouro do Templo.

Este comércio constituía uma mais-valia para a cidade e sustentava a nobreza sacerdotal, o clero e os empregados do Templo. Não admira, pois, que os chefes judaicos ficassem indignados com a atitude de Jesus, que os desafia a destruir aquele templo, garantindo que Ele, em três dias, o reedificaria (cf. Jo 2, 19). Só que Jesus não Se referia ao templo de pedra (cf. Jo 2, 20), mas ao templo do Seu corpo (cf. Jo 2, 21). No fundo, Jesus desafia quem O questiona a eliminá-Lo, assegurando que, três dias depois, haveria de ressurgir. Jesus é indestrutível. Nada — nem ninguém — O poderá destruir.


 

D. Deus é a prioridade, o homem é a urgência

 

  1. É, sem dúvida, notável que Jesus Se apresente como um novo templo. O Templo representava, para os judeus, a residência de Deus no meio do Seu Povo. A partir de agora, o lugar onde Deus reside é Jesus. Jesus é o lugar de encontro entre o homem e Deus. É Jesus quem nos traz Deus, é Jesus quem nos leva até Deus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o Seu amor.

Tenhamos presente que contemplar significa, na sua raiz, estar no templo. Assim sendo, contemplar é estar no novo — e definitivo — templo que é Jesus.

 

  1. Ao longo da história, Deus foi preparando o Seu povo para acolher a Sua proposta de vida. Já no Antigo Testamento, Deus aparece como libertador (cf. Êx 20, 2). Os Seus mandamentos são propostas de liberdade que reclamam respostas em liberdade. São imperativos que dizem respeito às duas dimensões fundamentais da nossa existência: a nossa relação com Deus e a nossa relação com os irmãos.

Os Mandamentos ajudam-nos a vencer a escravidão do egoísmo, da auto-suficiência, da injustiça, do comodismo, das paixões e de todas as formas de exploração. Os Mandamentos apontam Deus como a prioridade e a pessoa humana como uma urgência. Deus é o centro e, como realçou São João Paulo II, o homem é o caminho. Amando a Deus, já estaremos a amar o homem. Amando cada homem, já estaremos a amar a Deus.


 

E. A Ressurreição não apaga a Cruz

 

  1. Na Segunda Leitura, São Paulo propõe-nos uma conversão à lógica de Deus, que é a lógica da Cruz. Na Cruz, tudo se desfaz e tudo se refaz. Desfaz-se uma lógica meramente proporcional, que leva a compensar quem faz bem e a castigar quem faz mal. Na Cruz, Deus ensina-nos a nunca fazermos o mal: nem a quem nos faz bem [o que seria inconcebível, mas acontece] nem a quem nos faz mal.

Deus envia o Seu Filho para dar a vida por todos, bons e maus. Isto é considerado loucura («moría) e até demência («manía»), como nos vai dizer, mais tarde, São Justino.

 

  1. A lógica de Deus é a lógica do amor incondicional, do amor desmedido. Muitos acharão que tudo isto é louco, mas é esta loucura que nos salva. Daí que alguns, em tempos, apregoassem: «Por Cristo me tornei louco para que menos tolo seja o mundo»!

Esta loucura é mais sábia que toda a sabedoria e esta fraqueza é mais forte que toda a força (cf. 1Cor 1, 25). É por isso que, ao celebrar a Ressurreição, o nosso símbolo continua a ser — loucamente! — a Cruz. A Ressurreição não apaga a Cruz; dá sentido à Cruz. Aquele que volta à vida é o mesmo que deu a vida. A Cruz está sempre a ensinar-nos que é quando mais damos que mais temos. A Cruz está sempre a mostrar-nos que venceremos sempre se dermos tudo, se nos dermos inteiramente!

publicado por Theosfera às 05:38

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