O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 10 de Dezembro de 2017

A. O «preparador» dos caminhos do Senhor

  1. É essencialmente o Advento um tempo de mensagens e de mensageiros. A preparação para a chegada do Senhor faz-se através de mensagens que anunciam a Sua vinda e que nos despertam para a Sua presença. O Evangelho fala-nos de um grande mensageiro. O Evangelho mobiliza sempre grandes mensageiros.

Curiosamente, este é um tempo em que trocamos muitas mensagens. Que seja sobretudo um tempo em que se divulgue a mais bela mensagem. Não nos limitemos, pois, às «sms» de circunstância. Neste Natal, enviemos a todos uma «sms» especial: «Deus vem até nós; em Cristo, Ele nunca nos deixa sós. Haverá coisa mais bela do que isto: fazer da nossa vida uma morada do próprio Cristo?»

 

  1. João é o «preparador» dos caminhos do Senhor. Ele é o mensageiro que desassossega a nossa vida por inteiro. É uma figura que se tornou popular, mas a sua preocupação nunca foi aos homens agradar. O seu discurso não era populista; a sua integridade, aliás, está bem à vista. Não andava ao sabor da corrente; pelo contrário, a sua palavra incomodava muita gente.

Primando sempre pela coerência, proclamou um «baptismo de penitência» (Mc 1, 4). A sua conduta austera é o exemplo de uma pessoa, toda ela, sincera. Dizia o que fazia e fazia o que dizia. João não veio trazer para a direita o que estaria na esquerda. João veio para trazer para a direita o que, muitas vezes, está torto: a nossa vida. É a nossa vida que Deus quer trilhar. São os caminhos da nossa vida que João vem «endireitar» (cf. Mc 1, 3).

 

B. Jesus vem não para que tudo fique igual, mas para que aconteça a renovação total

 

  1. Vamos continuar na mesma? Vamos resistir à mudança? Vamos continuar a adiar a esperança? Tudo começa a ser novo quando Deus vem para o meio do Seu povo. E, no entanto, muitas são as vezes em que nos sentimos gastos e desgastados, calcados e cansados. Já nem ao futuro damos oportunidade de ser futuro. Nem sequer a esperança parece escapar. A própria esperança apresenta-se recessiva, à beira da falência.

Se esperar é sempre necessário, nas horas difíceis torna-se muito mais urgente. Como notou Vergílio Ferreira, «quando a situação é mais dura, a esperança tem de ser mais forte». O povo diz que «quem espera, desespera». Mas o mesmo povo também reconhece que «quem espera, sempre alcança».

 

  1. Neste Domingo, ouvimos São Pedro anotar que esperamos «novos céus e nova terra» (2Ped 3, 13). Em Cristo, Deus presenteia-nos com a novidade perene, isto é, com a novidade que nunca deixa de ser nova. Em Cristo, Deus vem para renovar todas as coisas e particularmente todas as pessoas (cf. Ap 21, 5). De facto, em Cristo, Deus não vem para que tudo fique igual, mas para que aconteça a renovação total.

A este propósito, ocorre-me uma pequena história. Quando Jesus nasceu, alguém foi ter com um velho mestre para lhe dar a feliz nova: «Olha que o Messias já veio»! Mas o velho mestre nada respondeu. Foi à janela, deitou a cabeça fora, fechou a janela, abanou a cabeça e disse: «Não, ainda não veio». É que ele achava que, quando o Messias viesse, tudo seria diferente, até o ar. E, na verdade, assim é. Jesus veio, Jesus vem, para que tudo seja diferente, para que tudo seja novo.

 

C. Há mais desertos nos corações do que nos solos

 

  1. É por isso que a esperança não é inactiva. A esperança é profundamente activa e activadora. Ter esperança não é ficar quieto, não é aquietar. Pelo contrário, ter esperança é inquietar e deixar-se inquietar. Aliás, São Pedro também irmana a novidade que esperamos com a justiça por que (também) suspiramos (cf. 2Ped 3, 8).

Sem justiça, não haverá novos céus nem nova terra. Sem justiça, nenhuma novidade é boa. Mas para que a justiça possa acontecer, o Justo temos de acolher. Deixemos, pois, que as nuvens «chovam» o Justo (cf. Is 45, 8). A justiça tem de ser acolhida como um dom. Nós sabemos que, como reza o Salmo 72, nos dias do Senhor, a justiça, juntamente com a paz, virá para sempre (cf. Sal 72, 3).

 

  1. A iniciativa é de Deus. É Deus que, em Cristo, nos envia a justiça e a paz. João é a voz que anuncia a chegada desta justiça e desta paz. É neste sentido que João é a voz que urge conversão. Mas é igualmente neste sentido que João surge também como uma voz que «brada no deserto» (Mc 1, 3).

O deserto, aqui, não são tanto os solos áridos. O deserto, aqui, são sobretudo os nossos corações insensíveis e indiferentes. Há mais desertos nos corações do que nos solos. João fala para nós. Mas que atenção damos à sua voz? Hoje, há tantos desertos no mundo, há tantos desertos na vida. João é o homem que fala no deserto e ao deserto. É o homem que não foge das adversidades. É o homem que diz o que tem de ser dito, para que nós façamos o que tem de ser feito.

 

D. Não nos afastemos da esperança porque a esperança (também) não se afasta de nós

 

  1. A nossa missão tem muito de João. Afinal, o Esperado já está ao nosso lado. Como enviou João, também nos envia a cada homem, nosso irmão. Por conseguinte, é para nós que ressoa o que escutámos no divino apelo: «Consolai, consolai o Meu povo. Falai ao coração de Jerusalém» (Is 40,1). É por nós que Deus quer consolar os desconsolados, os que sofrem. É por nós que Ele quer dizer a todos que está a chegar (cf. Is 40, 9).

Deus não intervém à distância. Ele está sempre à nossa beira, ao longo da nossa vida inteira. Deus quer encontrar-nos na paz (cf. 2Ped 3, 14). Só na paz poderemos acolher o Portador da Paz!

 

  1. Para esta missão, é preciso ir com urgência, mas também com paciência. O futuro pertencerá àqueles que acreditarem que a história não acaba hoje. O futuro pertencerá àqueles que, hoje, fizerem tudo para que o amanhã seja melhor. As evidências não ajudam. Mas a esperança é mais importante quando ela de nós parece mais distante.

Não nos afastemos da esperança porque a esperança também não se afasta de nós. A esperança não assegura tudo o queremos, mas mobiliza-nos para construir tudo aquilo que sonhamos. É por isso que, como escreveu notavelmente Charles Péguy, a esperança espanta o próprio Deus.

 

E. São os «novos céus» que farão a «nova terra»

 

  1. Que as crianças «vejam como tudo acontece e acreditem que amanhã será melhor. Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem que amanhã de manhã será melhor. Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça».

Nunca foi fácil a esperança. Hoje sentimos que ela é cada vez mais difícil. Mas é talvez por isso ela é também mais apaixonante. É que enquanto «a fé vê o que é» e «a caridade ama aquilo que é», «a esperança vê o que será e ama o que será». A esperança «não é o que termina»; a esperança «é aquela que sempre recomeça».

 

  1. Os novos céus não podem ser apenas depois. Os novos céus já estão no meio de nós. Os céus já são novos. E a terra? É preciso construir uma nova terra para acolher os novos céus. Os novos céus são uma vida nova, uma vida renovada, uma vida justa, uma vida pacífica e pacificante.

Renovemos a vida na terra a partir de hoje. A esperança não desistiu de nós. Não queiramos nós desistir da esperança. Que a nossa vida renovada seja um permanente Advento para que, nela, possa ocorrer sempre um (e)terno Natal!

publicado por Theosfera às 05:20

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