O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 23 de Agosto de 2015

A. Cuidado com um Cristianismo «à la carte»

  1. Fechamos hoje um ciclo de cinco domingos em que fomos meditando o capítulo sexto do Evangelho de S. João. É um capítulo que começa em festa e acaba em drama. Como bem recordamos, este longo capítulo inicia-se em clima de euforia diante do milagre de Jesus. O chamado milagre da multiplicação dos pães deixa a multidão em euforia. A explicação do referido milagre deixa muitos dos discípulos em sobressalto. No início, queriam fazer de Jesus rei; agora, querem abandoná-Lo.

Por aqui se vê como este inteiro capítulo é uma preciosa lição de pastoral e de vivência cristã. Ele ajuda-nos a fazer frente a uma espécie de Cristianismo «à la carte», que está muito em voga. Não falta, com efeito, quem aplauda o que lhe agrada e conteste o que o incomoda. Aliás, o próprio Jesus já tinha denunciado que muitos O procuravam não por causa do milagre, mas por causa de lhes ter matado a fome (cf. Jo 6, 26). Ficavam-se pelo significante, sem atender ao significado.

 

  1. É preciso estar alerta e ter cuidado com o desejo de um mero «Cristianismo de satisfação». O objectivo da mensagem de Cristo não é a satisfação, mas a conversão. Ele convida-nos a fazer a vontade de Deus e não a exigir que Deus faça a nossa vontade. Há dois mil anos, muitos aplaudiram Jesus quando Ele lhes deu o pão, mas afastaram-se de Jesus quando Ele lhes explicou o significado daquele pão.

Atenção, pois, ao nosso senso e à nossa lógica. A nossa lógica pode ser muito diferente da lógica de Cristo. De facto, dizer «a Minha Carne é verdadeira comida e o Meu Sangue é verdadeira bebida»(Jo 6, 61) parece não ter lógica. Só que um discípulo é chamado a fazer sua a lógica de Cristo. Quem acompanha Cristo vê que tem lógica que Ele Se apresente como Pão da vida. Todo Ele é oferta, todo Ele é entrega, todo Ele é dádiva.

 

B. Será que queremos um Cristianismo (verdadeiramente) cristão?

 

3. Nós, hoje, somos chamados a reproduzir as palavras e os comportamentos de Cristo. E, por isso, temos de estar preparados para as mesmas reacções que Cristo enfrentou. Temos de estar preparados para o aplauso e para a contestação. Temos de estar preparados para a discussão e para a rejeição. O discípulo não existe para disputar um qualquer «campeonato da popularidade». Não estamos na vida para ver quem é o mais popular. O importante não é a popularidade, mas a fidelidade.

O que Jesus nos mostra é que não nos devemos deslumbrar com o aplauso nem deprimir com a contestação. Se adulteramos a mensagem para evitar a contestação e obter o aplauso, não estamos a ser fiéis. Se o desiderato de Jesus fosse ser aplaudido, é natural que, perante a contestação, recuasse no Seu discurso. Mas não. Pelo contrário, até os Doze mais próximos são postos à vontade: «Também vós quereis ir embora?»(Jo 6, 67).

 

  1. Isto significa que Jesus, que veio para todos, não Se importa de ficar só. O que Ele não troca é a verdade pelos aplausos. Será que, vinte séculos depois, aprendemos a lição? Será que estamos dispostos a pensar pela cabeça de Jesus? Aliás, nós somos membros de um corpo de que Ele é a cabeça (cf. 1Cor 12). E é suposto que seja a cabeça a comandar o resto do corpo; não é o resto do corpo que há-de comandar a cabeça.

Eis a opção que está, permanentemente, à nossa frente. Afinal, queremos um Cristianismo (verdadeiramente) cristão ou contentamo-nos com um Cristianismo diluído nas opiniões da época e dos interesses de cada momento? No fundo, a Liturgia deste 21º Domingo do Tempo Comum fala-nos de opções, da importância das opções. Tal como viver, crer também é optar. Os textos da Eucaristia recordam-nos que a nossa existência pode ser desgastada por valores efémeros e estéreis. E alertam-nos que a mesma existência pode ser investida naqueles valores que nos conduzem à vida definitiva e à realização plena. Cada pessoa tem de fazer, em cada dia, a sua opção. Somos aquilo que escolhemos.

 

C. A Igreja não é cabeça de Cristo, Cristo é que é a cabeça da Igreja

 

5. Na Primeira Leitura, Josué convida as tribos de Israel, reunidas em Siquém, a escolherem entre «servir o Senhor» e servir entidades vistas como deuses. O Povo assume que quer «servir o Senhor». A história da libertação do Egipto mostra como só Deus é capaz de proporcionar ao seu Povo a vida, a liberdade, o bem-estar e a paz. Por sua vez, o Evangelho coloca à nossa frente dois grupos de discípulos, com opções distintas diante da proposta de Jesus. Um grupo está preso pela lógica do mundo e prensado pelos bens materiais, pelo poder e pela ambição. O outro grupo mostra-se disponível para seguir Jesus, sabendo que só Jesus tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68).

Na Segunda Leitura, S. Paulo diz que a opção por Cristo tem consequências também na vida em família. Para o seguidor de Jesus, a família tem de ser como que a primeira Igreja, a Igreja doméstica, o lugar onde se manifestam os valores do Evangelho de Jesus. Com a sua união, com a sua comunhão de vida, com o seu amor, a família cristã é chamada a ser sinal — e poderoso reflexo — da união de Cristo com a Sua Igreja. Esta união de Cristo com a Igreja assenta numa base muito clara e muito sólida. É Cristo que conduz a Igreja, não é a Igreja que conduz Cristo. Cristo é a cabeça da Igreja, não é a Igreja que é a cabeça de Cristo.

 

  1. O primeiro grupo de discípulos configura uma Igreja que se arroga na presunção de se sobrepor a Cristo. Hoje, esta presunção mantém-se: pela contestação da verdade, pela distorção da mensagem e pela dissidência. Também hoje são muitos os que se afastam (cf. Jo 6, 66). O problema é que pode acontecer que muitos se afastem mantendo-se dentro. Ou seja, mantêm-se dentro da Igreja, mas afastam-se de Jesus. Fará algum sentido estar na Igreja sem estar com Jesus? É preciso perceber que a Igreja é o corpo de Jesus. Sem Jesus, a Igreja é um corpo decapitado, um corpo sem cabeça.

Cuidado, pois, muito cuidado com esta dissidência interna. Não podemos desfigurar Jesus Cristo. Ser cristão tem de ser apenas — e sempre — para seguir Jesus Cristo, para viver segundo Jesus Cristo. Um Cristianismo sem pão não sobrevive. Uma Igreja sem Eucaristia desfalece. Não se pode ser cristão sem Eucaristia. Não se pode ser cristão sem participar na celebração da Eucaristia e sem se mobilizar para a vivência da Eucaristia.

 

D. Nunca em contramão com Cristo

 

7. Os discípulos que contestam Jesus são a imagem de um Cristianismo que só olha para o imediato. Jesus desafia-os a ver mais longe. O que, agora, parece não ter sentido surgirá, um dia, carregado de sentido. Mas é preciso ir mais além da carne, do imediato. É fundamental olhar a vida — e a fé — de acordo com os critérios do Espírito (cf. Jo 6, 63). É no Espírito que entenderemos que a Carne de Cristo é alimento para a nossa carne. A nossa carne desfalece sem a Carne de Cristo. Só a Carne de Cristo fortalece. Assim sendo, precisamos de uns novos olhos, dos olhos da fé. São eles que nos fazem ver o invisível.

A adesão a Jesus não pode ser superficial, tem de ser total. Tem de envolver a totalidade da pessoa e a totalidade da vida. Ninguém é obrigado a ser cristão. Mas quem decide ser cristão é obrigado a viver segundo Cristo. Isto é elementar, mas, frequentemente, é esquecido. Jesus não força ninguém e não impede ninguém de sair. O que Ele exige é verdade, transparência e coerência.

 

  1. Quem diz que segue Jesus não pode ter uma vida que contrarie Jesus. Um cristão em contramão com Cristo é a maior negação de Cristo. É por isso que Ele nos põe completamente à vontade: «Também vós quereis ir embora?»(Jo 6, 67). O tom parece de provocação, mas é uma questão de verdade. Do que se trata, afinal, é bem simples: quem quiser vir é bem-vindo, mas que venha para ser cristão a sério, a tempo inteiro.

Jesus não trabalha para a estatística. Ele quer chegar a todos, mas não a qualquer preço. E, para Jesus, é melhor o afastamento do que uma adesão equivoca, do que uma adesão a meias. É bom ter igrejas cheias, mas o decisivo é que as igrejas estejam cheias com gente cheia: com gente cheia de Deus, cheia de Evangelho, cheia de inquietação, cheia de vontade para a missão.

 

E. Jesus joga sempre limpo

 

9. Jesus não amortece as exigências. Jesus corre riscos. Ele antes quer perder seguidores do que alterar o caminho. É por isso que Ele não muda uma letra do Seu discurso nem altera um passo do Seu percurso.

Jesus joga limpo. Cada um de nós sabe com o que conta. Há que decidir. As alternativas são apenas duas: sim ou não, aceitação ou rejeição. O que não pode é haver um sim, com mas, talvez ou porém. Temos de ser claros com Jesus como Jesus é claro connosco.

 

  1. Simão despertou: «Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna»(Jo 6, 68). Ele percebeu que só Jesus é a vida, a verdade e o amor. Só Jesus é definitivo Só Jesus é felicidade e caminho felicitante.

Só em Jesus nos superamos. Só em Jesus crescemos. Não pode haver hesitações. Sigamos sempre Jesus!

publicado por Theosfera às 07:16

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