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Domingo, 26 de Agosto de 2018

A. Cuidado com um Cristianismo «à la carte»

  1. Fechamos hoje um ciclo de cinco domingos em que fomos meditando o capítulo sexto do Evangelho de São João. É um capítulo que começa em festa e acaba em drama. Como bem sabemos, este longo capítulo inicia-se em clima de euforia diante milagre da multiplicação dos pães. A explicação do referido milagre deixa muitos dos discípulos em sobressalto. No início, queriam fazer de Jesus rei; agora, pretendem abandoná-Lo.

Por aqui se vê como este inteiro capítulo é uma preciosa lição de pastoral e de vivência cristã. Ele ajuda-nos a fazer frente a uma espécie de Cristianismo «à la carte», que está muito em voga. Não falta, com efeito, quem aplauda o que lhe agrada e conteste o que o incomoda. Aliás, o próprio Jesus já tinha denunciado que muitos O procuravam não por causa do milagre, mas por causa de lhes ter matado a fome (cf. Jo 6, 26). Ficavam-se pelo significante, sem atender ao significado.

 

  1. É preciso ter cuidado com o «Cristianismo de satisfação». A mensagem de Cristo não é para nossa satisfação, mas para a nossa conversão. Ele convida-nos a fazer a vontade de Deus e não a exigir que Deus faça a nossa vontade. Há dois mil anos, muitos aplaudiram Jesus quando Ele lhes deu o pão, mas afastaram-se de Jesus quando Ele lhes explicou o significado daquele pão.

Atenção, pois, à nossa lógica. A nossa lógica pode ser muito diferente da lógica de Cristo. De facto, dizer «a Minha Carne é verdadeira comida e o Meu Sangue é verdadeira bebida» (Jo 6, 61) parece não ter lógica. Só que um discípulo é chamado a seguir não a sua lógica, mas a lógica de Cristo.

 

B. Será que queremos um Cristianismo (verdadeiramente) cristão?

 

3. Nós, hoje, somos chamados a reproduzir as palavras e os comportamentos de Cristo. E, por isso, temos, como Cristo, de estar preparados para o aplauso e para a contestação. Temos de estar preparados para a discussão e para a rejeição. O discípulo não existe para disputar um qualquer «campeonato da popularidade». O importante não é a popularidade, mas a fidelidade.

O que Jesus nos mostra é que não nos devemos deslumbrar com o aplauso nem deprimir com a contestação. Se adulteramos a mensagem para evitar a contestação e obter o aplauso, não estamos a ser fiéis. Se Jesus quisesse ser aplaudido, é natural que recuasse no Seu discurso. Mas não. Pelo contrário, até os Doze mais próximos são postos à vontade: «Também vós quereis ir embora?» (Jo 6, 67).

 

  1. Jesus, que veio para dar a vida pela multidão (cf. Mt 20, 28), não tem medo da solidão. O que Ele não troca é a verdade pelos aplausos. Será que, vinte séculos depois, teremos aprendido a lição? Será que estamos dispostos a pensar como Jesus? Aliás, nós somos membros de um corpo de que Ele é a cabeça (cf. 1Cor 12). E é suposto que seja a cabeça a comandar o resto do corpo; não é o resto do corpo que há-de comandar a cabeça.

Eis a opção que está, permanentemente, à nossa frente. Queremos um Cristianismo (verdadeiramente) à medida de Cristo ou contentamo-nos com um Cristianismo (apenas) à nossa maneira? Crer também é optar. Cada um de nós tem de fazer, em cada dia, a sua opção. Afinal, somos aquilo que escolhemos.

 

C. A Igreja não é cabeça de Cristo, Cristo é que é a cabeça da Igreja

 

5. Na Primeira Leitura, Josué convida as tribos de Israel, reunidas em Siquém, a escolherem entre «servir o Senhor» e servir entidades vistas como deuses. O Povo assume que quer «servir o Senhor». A história da libertação do Egipto mostra como só Deus é capaz de proporcionar ao seu Povo a vida, a liberdade, o bem-estar e a paz. Por sua vez, o Evangelho coloca à nossa frente dois grupos de discípulos, com opções distintas. Um grupo está preso pela lógica do mundo e prensado pelos bens materiais, pelo poder e pela ambição. O outro grupo mostra-se disponível para seguir Jesus, sabendo que só Jesus tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68).

Na Segunda Leitura, São Paulo garante que a opção por Cristo tem consequências até na vida familiar. A família tem de ser como que a primeira Igreja, a Igreja doméstica. Com a sua união, com a sua comunhão de vida, com o seu amor, a família cristã é chamada a ser sinal — e poderoso reflexo — da união de Cristo com a Sua Igreja. Esta união de Cristo com a Igreja assenta numa base muito sólida. É Cristo que conduz a Igreja, não é a Igreja que conduz Cristo. Cristo é a cabeça da Igreja, não é a Igreja que é a cabeça de Cristo.

 

  1. O primeiro grupo de discípulos configura uma Igreja que se arroga o direito de se sobrepor a Cristo. Hoje, esta presunção mantém-se: pela contestação da verdade, pela distorção da mensagem e pela dissidência. Também hoje são muitos os que se afastam (cf. Jo 6, 66). O problema é que pode acontecer que muitos se afastem mesmo quando se mantêm dentro. Ou seja, mantêm-se dentro da estrutura da Igreja, mas afastam-se de Jesus. Fará algum sentido estar na Igreja sem estar com Jesus? É preciso perceber que a Igreja é o corpo de Jesus. Sem Jesus, a Igreja é um corpo decapitado, um corpo sem cabeça.

Cuidado, pois, com esta dissidência interna. Não podemos desfigurar Jesus Cristo. Ser cristão tem de ser apenas — e sempre — seguir Jesus Cristo, viver segundo Jesus Cristo. Um Cristianismo sem pão não sobrevive. Uma Igreja sem Eucaristia desfalece. Não se pode ser cristão sem Eucaristia.

 

D. Nunca em contramão com Cristo

 

7. Os discípulos que contestam Jesus são a imagem de um Cristianismo que só olha para o imediato. Jesus desafia-os a ver mais longe. É fundamental olhar a vida — e a fé — de acordo com os critérios do Espírito (cf. Jo 6, 63). É no Espírito que entenderemos que a Carne de Cristo é alimento para a nossa carne. A nossa carne desfalece sem a Carne de Cristo. Só a Carne de Cristo fortalece. Assim sendo, precisamos de novos olhos, dos olhos da fé. São eles que nos fazem ver o invisível.

A adesão a Jesus não pode ser superficial, tem de ser total. Tem de envolver a totalidade da vida. Ninguém é obrigado a ser cristão. Mas quem decide ser cristão é obrigado a viver segundo Cristo. Isto é elementar, mas, frequentemente, é esquecido. Jesus não força ninguém a entrar e não impede ninguém de sair. O que Ele exige é verdade, transparência e coerência.

 

  1. Um cristão em contramão com Cristo é a maior negação de Cristo. É por isso que Ele nos põe completamente à vontade: «Também vós quereis ir embora?» (Jo 6, 67). O tom parece de provocação, mas é uma questão de verdade. Quem quiser vir é bem-vindo, mas que venha para ser cristão a sério, a tempo inteiro.

Jesus não trabalha para a estatística. Ele quer chegar a todos, mas não a qualquer preço. E, para Jesus, é melhor o afastamento do que uma adesão equivoca, do que uma adesão «a meio gás». É bom ter igrejas cheias, mas o decisivo é que as igrejas estejam cheias com gente cheia: com gente cheia de Deus, cheia de Evangelho, cheia de inquietação, cheia de vontade para a missão.

 

E. Jesus joga sempre limpo

 

9. Jesus não muda uma letra do Seu discurso nem altera um passo do Seu percurso. Jesus joga limpo. Cada um de nós sabe com o que conta.

Há que decidir. As alternativas são apenas duas: sim ou não, aceitação ou rejeição. O que não pode é haver um sim, com mas, talvez ou porém. Temos de ser claros com Jesus como Jesus é claro connosco.

 

  1. Simão despertou: «Para quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Ele percebeu que só Jesus é a vida, a verdade e o amor. Só Jesus é definitivo. Só Jesus é felicidade e caminho para a felicidade.

Só em Jesus nos superamos. Só em Jesus cresceremos. Não pode haver hesitações. Sigamos sempre Jesus!

publicado por Theosfera às 05:33

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