O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 20 de Janeiro de 2019

A. Um dia especial depois do Tempo de Natal



  1. Depois do Tempo de Natal, eis-nos chegados a um dia especial. No início do Tempo Comum, recordamos uma vida inteiramente incomum. A 20 de Janeiro, celebramos o nosso Padroeiro. É sempre cedo que, em cada ano, o festejamos em Lamego. Que, ao longo do ano, imitemos o nosso padroeiro diocesano. Que o seu exemplo fecunde e que a sua protecção nos inunde. Que São Sebastião nos acompanhe no serviço da missão.

O seu percurso de vida não é muito conhecido, mas o seu culto está bastante difundido. Praticamente não há terra onde não se encontre uma capela, ermida ou nicho com a sua imagem. E quem não se lembra de, em tempos idos, ouvir invocar São Sebastião para nos livrar da fome, da guerra e da peste?



  1. Foi sobretudo por causa da peste que a sua devoção se espalhou. Quando o seu corpo foi transladado para uma basílica, a peste que devassava Roma desapareceu total e milagrosamente. Daí que, sempre que algum surto de peste surgia, as pessoas se voltassem para a intercessão de São Sebastião. Não admira, pois, que o seu culto tenha chegado ao mundo inteiro.

Por alturas das pestes do século XVI, a sua fama, que já era grande, globalizou-se completamente. As cidades de Milão (em 1575) e de Lisboa (em 1569), acometidas por este flagelo, dele se livraram após repetidos actos de súplica a este grande mártir.


B. Ao serviço do imperador e — ainda mais — de Cristo Senhor



  1. Conta-se que, quando terminou a peste que assolou a capital portuguesa, o rei D. Sebastião mandou erigir um templo em sua honra, sendo a primeira pedra lançada junto ao Tejo, no Terreiro do Paço. Quatro anos depois (1573), o Papa enviou-lhe de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado. Aliás, o próprio monarca chamava-se Sebastião porque nasceu neste 20 de Janeiro, em 1554, dia em que se assinala a morte do santo.

Entretanto, já antes (em 1527), um braço de São Sebastião, chegou ao nosso país. Este braço, conforme refere a Crónica do Padre Amador Rebelo, terá sido furtado em Itália. Foi, depois oferecido, pelo imperador Carlos V, a D. João II, que o mandou depositar no Mosteiro de São Vicente de Fora.



  1. Quem foi, então, São Sebastião, nome que — premonitoriamente — significa venerável, sagrado? Nascido em Narvonne (na actual França), no final do século III, foi com seus pais para Milão. Seguindo o exemplo da mãe, revelou-se piedoso e forte na fé. Ao chegar à maioridade, alistou-se no exército de Diocleciano, que ignorava que Sebastião era cristão.

A prudência e a coragem do jovem militar impressionaram de tal modo o Imperador que o nomeou comandante da sua guarda pessoal. Nesta posição, Sebastião viria a tornar-se o grande defensor dos cristãos detidos em Roma naquele tempo. Visitava com frequência as vítimas do ódio anticristão, e, com palavras de ânimo, consolava os candidatos ao martírio. Secretamente, conseguiu converter muitas pessoas. Até o governador de Roma, Cromácio, e o seu filho Tibúrcio foram convertidos.




C. Não foi fácil matá-lo



  1. Acontece que acabou por ser denunciado, por estar a contrariar a lei romana. Teve, então, que comparecer diante do Imperador. Diocleciano sentiu-se traído e ficou perplexo quando ouviu Sebastião declarar-se cristão. Tentou fazer com que ele renunciasse ao Cristianismo, mas Sebastião defendeu-se com firmeza.

O Imperador, enfurecido com os argumentos, terá ordenado aos seus soldados que o matassem a golpes de flecha. Tal ordem foi imediatamente executada. Num descampado, os soldados despiram-no, amarraram-no a um tronco de árvore e despejaram sobre ele uma chuva de flechas. Depois, tê-lo-ão abandonado para que sangrasse até à morte.



  1. À noite, Irene, esposa do mártir Castulo, foi, com algumas amigas, ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, notaram que ele ainda estava vivo. Desamarraram-no e Irene escondeu-o em sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado algum tempo, já restabelecido, São Sebastião fez questão de retomar a sua missão evangelizadora. Em vez de se esconder, apresentou-se de novo ao Imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos. Diocleciano ignorou olimpicamente as advertências de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos e determinou que fosse espancado até a morte.


D. Invocado contra as pestes



  1. Para impedir que o corpo fosse venerado, atiraram-no para o esgoto público de Roma. Só que uma piedosa mulher — chamada Luciana — sepultou-o nas catacumbas. Tudo isto aconteceu no dia 20 de Janeiro de 287. Mais tarde, em 680, as suas relíquias foram solenemente transportadas para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela época, uma terrível peste devastava Roma, vitimando muitas pessoas. Desapareceu completamente a partir do momento da transladação dos restos mortais deste mártir. Foi assim que ele passou a ser invocado contra a peste, a fome e a guerra.





  1. Muitas têm sido as maravilhas que, através deste santo, Deus tem operado na vida de tantos. São também estas maravilhas que, como diz o profeta, não podemos calar (cf. Is 62, 1). Assim sendo e como preceitua o refrão do Salmo Responsorial, anunciemos a todos os povos as maravilhas do Senhor.

É esta a nossa prioridade, é este o nosso desígnio, é esta a nossa missão. É isso o que faz São João, que nos apresenta a primeira maravilha realizada por Jesus. Não esqueçamos que milagre é o que nos faz maravilhar. O milagre é, todo ele, um acto de maravilhamento. Tal como os discípulos daquele tempo, também nós, discípulos deste tempo, ficamos maravilhados com os gestos de Jesus, com as palavras de Jesus, com a pessoa de Jesus. Será lícito armazenar toda esta maravilha só em nós?


E. Façamos sempre isto: entreguemos a vida por Cristo



  1. Esta maravilha, reportada pelo Evangelho, ocorreu em Caná. Só São João fala desta terra (cf. 4, 46 e 21, 2). Costuma ser identificada como Kefr Kenna, que fica a 7 quilómetros a nordeste de Nazaré, embora as indicações de Flávio Josefo levem a pensar também nas ruínas de Hirbet Qana, que se situa a 14 quilómetros para norte de Nazaré.

Somos igualmente informados de que este episódio se verificou «ao terceiro dia» (Jo 2, 1). Trata-se do «terceiro dia» após o chamamento de Filipe, descrito em Jo 1, 43. Aliás, toda esta semana é paradigmática. Sendo uma semana que precede a primeira Páscoa vivida por Jesus na Sua missão pública (cf. Jo 2, 13), culmina no sinal das bodas, que antecipam a glória da Ressurreição (cf. Jo 2, 11). Com efeito, a Ressurreição também acontece «ao terceiro dia» como o próprio Jesus vaticina (cf. Jo 2, 19). Estas bodas são um sinal das bodas que, em Cristo, Deus realiza com toda a humanidade. O casamento desponta como uma imagem da relação de amor que Deus estabelece com o ser humano.



  1. A nossa vida está sinalizada nas talhas sem vinho (cf. Jo 2, 3). Ou seja, sem Jesus, não somos nada. Pior, sem Jesus, estamos cheios de nada. A primeira a aperceber-se disso é Maria, a Mãe de Jesus. Ela sabe que, sem Jesus, é o vazio, a indigência, a carência. Não é, portanto, em vão que surgem aqui as únicas palavras de Maria em todo o Evangelho de São João. Não são, contudo, palavras circunstanciais, mas palavras profundamente referenciais. Em Caná, como em toda a parte (e sempre), Maria só tem palavras para Jesus e só tem palavras sobre Jesus.

Já em Caná, a presença de Maria é uma presença de intercessão e uma presença de anunciação. Junto de Jesus, Ela intercede: «Não têm vinho» (Jo 2, 3). Isto é, falta o essencial, falta o importante, falta Jesus. É por isso que junto de nós Ela anuncia: «Fazei o que Ele [Jesus] vos disser» (Jo 2, 5). É isto o que importa, é isto o que basta. Só fazendo o que Jesus diz é que a nossa vida será feliz. Não esqueçamos esta (grande) lição que nos vem (também) de São Sebastião. Como ele, façamos sempre isto: entreguemos a nossa vida por Jesus Cristo!

publicado por Theosfera às 05:01

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