O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Faz hoje sete anos que Bento XVI deixou um apelo à Igreja que peregrina em Portugal. Fê-lo em tons de urgência: «É preciso mudar!». E não se esqueceu de concretizar o âmbito da mudança: a mentalidade e o estilo de organização.

 

Não podemos, pois, continuar na mesma. Há muito a fazer, muito a crescer, muito a rever, muito a alterar. Isto é bom, estimulante. Ninguém pode ficar de fora nem sentir-se à margem já que — adverte o Santo Padre — «todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja».

 

Impõe-se, neste sentido, envolver a totalidade dos membros, fortalecendo os que já estão integrados e indo ao encontro dos que ainda se sentem afastados.

 

A Igreja não pode temer a mudança. Esta encontra-se constitutivamente articulada com o princípio da identidade. A Igreja é divina e é humana. Por paradoxal que possa parecer, é necessário que ela mude para que, nela, resplandeça o que não muda.

 

Na Igreja, não muda a mensagem, mas tem de mudar a linguagem. Não muda o conteúdo, mas tem de mudar a forma. Não muda a prioridade, mas tem de mudar o método. Não muda a disponibilidade, mas tem de mudar a atitude. Neste caso, tem de aumentar a procura, a inquietação.

 

Com efeito, não há fé que não envolva uma procura (saudavelmente) inquietante. Lourdes Pintasilgo percebeu o essencial ao escrever: «A fé é a paz da permanente inquietação».

 

A incessante busca de Deus tem de provocar um incremento da busca do ser humano. Temos de acolher os que estão dentro e temos de ir ao encontro dos que estão fora. Também para eles Cristo veio. Também para eles Cristo não cessa de vir.

 

A Igreja tem de estar onde está Cristo. Cristo está todo em Deus e todo no Homem. É por isso que Cristo seduz, que Cristo atrai. E é por isso também que, como nos dá conta Martín Velasco, alguns ligam a novidade a Cristo e o envelhecimento à Igreja. Ou seja, enquanto Cristo Se renova na vida, a Igreja parece que envelhece no mundo.

 

Algo está mal quando a Igreja se distancia de Cristo. Acima de tudo, porque a identidade da Igreja é Cristo. Para S. Paulo e como nos lembrou Heinrich Schlier, a Igreja é Cristo no Seu (novo) corpo. Se as pessoas têm necessidade de procurar Cristo fora da Igreja é porque alguma coisa não está bem.

 

Urge, portanto, que a Igreja esteja sempre onde esteve/está Cristo: em Deus e no Homem. A espiritualidade e a caridade têm de despontar como a prioridade decisiva, inadiável.

 

Para isso, a Igreja deste novo tempo tem de ser, como alvitrava Ruiz de la Peña, mais orante, mais missionária e mais fraterna. Ou seja, tem de ser mais atenta, mais serva e mais pobre.

 

Jesus Cristo, além de falar de Deus, empenhou-Se em presencializar Deus. Sucede que, como advertia Karl Rahner, ainda somos uma Igreja terrivelmente deficitária em espiritualidade.

 

E tudo se ressente a partir deste défice inicial. Porque nos abrimos pouco à profundidade de Deus, abrimo-nos pouco também à profundidade do mundo. É preciso que a Igreja erga mais a voz para defender os explorados e para assumir a causa dos esquecidos. Precisamos de uma Igreja ao lado dos pobres, dos injustiçados.

 

Deus emerge dos escombros desta sociedade que clama por justiça. É aí que, como observou Fernando Urbina, podemos acolher «a grande voz silenciosa de Deus, esse rumor imenso de que fala S. João da Cruz».

 

Muitas vezes, é preciso sujar as mãos para manter limpo o coração.

publicado por Theosfera às 00:05

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