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Domingo, 19 de Maio de 2019

A. Tanta renovação tem de nos renovar

 



  1. Quem não gosta de novidades? Quem não anda à procura de novidades? Pois este quinto Domingo da Páscoa traz-nos tudo o que é novo: o «canto novo», o «mandamento novo» e um «amor sempre novo»: o amor de Jesus Cristo. A antífona de entrada — extraída do Salmo 98 (1) — nos fala do «canto novo». É assim que Jesus — no Evangelho de São João — (cf. Jo 13, 34) — nos deixa o «mandamento novo». E é assim que aquele que está no trono descrito no Apocalipse garante: «Vou renovar todas as coisas» (Ap 21, 5). Tanta renovação tem de «mexer» connosco. Tanta renovação tem de nos renovar.

Renovar é reconduzir ao que é novo. Renovar é reconduzir tudo a Deus. Todos somos novos na companhia de Deus. Mesmo quando os anos passam, em Deus a juventude não passa. Quem em Deus permanece nunca envelhece. E que canto mais novo que o «mandamento novo»? É um canto que encanta porque não sai apenas dos lábios; é um canto que transborda por toda a vida. Não é verdade que quem mais ama é quem mais canta?



  1. Nós amamos — e devemos amar cada vez mais — o Cristo que morreu e o Cristo que ressuscitou. É por isso que O cantamos, é por isso que não deixamos de O cantar. O Papa São João Paulo II teve o cuidado de lembrar que «nós somos o povo da Páscoa e o Aleluia é a nossa canção».

O Aleluia não é para recitar; o Aleluia é para cantar porque é cantando que melhor louvamos. O cântico que chega aos lábios vem da alma e invade a vida. Por tal motivo, Santo Agostinho fez um veemente apelo: «Cantai com a voz, cantai com o coração, cantai com os lábios, cantai com a vida». Cantemos, pois, com a voz o que cantamos com o coração, com os lábios e com a vida.


B. Do canto novo ao mandamento novo



  1. Este canto nunca deixa de ser novo porque celebra uma vida que nunca deixa de ser nova. Uma vez que somos novos, temos de cantar o canto novo. Já Santo Agostinho notava que «é próprio do homem novo cantar o canto novo». Quem aprende a amar a vida nova (acrescentava o Bispo de Hipona) «aprende também a cantar o canto novo». É, pois, pelo

«canto novo que devemos reconhecer o que é a vida nova». O melhor canto é uma vida renovada, uma vida limpa, uma vida pura. Daí que Santo Agostinho recomende: «Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar. Vós sereis o maior louvor, se viverdes santamente».

É para aqui que tudo converge: para a santidade de vida. O canto será belo se a vida for santa. E a vida santa, cantada pelos lábios, é aquela que está entranhada — e totalmente ubiquada — no mandamento novo do amor. É este o mandamento que faz de nós pessoas novas. Jesus chamou-lhe novo porque sabia que era um mandamento que nunca haveria de envelhecer: «Dou-vos um “mandamento novo”: amai-vos uns aos outros; como Eu vos amei, amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34).



  1. Não se trata, por conseguinte, de amar os outros com o nosso amor. O nosso amor é frágil, oscilante e, muitas vezes, com prazo de validade. Tanto amamos como deixamos de amar. Tanto amamos como passamos a odiar. O que Jesus nos propõe é que amemos os outros com o «Seu» amor: «Como “Eu” vos amei, amai-vos uns aos outros» (Jo 13, 34.

Este programa devia ser afixado em todos os departamentos governamentais, em todas as câmaras municipais, em todas as habitações e também em todas as igrejas. Sim, porque também nas igrejas há carência de amor. Ou, então, há um amor que ainda é muito «nosso»; há um amor que ainda sabe pouco a Cristo e ao Seu amor.


C. Temos de pôr Cristo no nosso amor



  1. Temos de pôr Cristo no nosso amor e de pôr o nosso amor em Cristo. Só assim seremos credíveis. O próprio Jesus tornou bem claro que é pelo amor que nos reconhecerão: «O sinal pelo qual vos reconhecerão como Meus discípulos é o amor que tiverdes uns pelos outros» (Jo 13, 35).

Eis o que falta. Eis o que urge. Somos uma sociedade — e fazemos parte de uma igreja — que muito cantam o amor. Mas também somos uma sociedade — e fazemos parte de uma igreja — que, apesar de muito cantar o amor, pouco vivem o amor.



  1. Para amar como Jesus ama, é fundamental aprender a conjugar mais o verbo «dar» do que o verbo «possuir»; é fundamental aprender a conjugar mais o verbo «suportar» do que o verbo «vingar; é fundamental aprender a conjugar mais o verbo «recomeçar» do que o verbo «separar».

Com alguma ironia, mas com uma enorme dose de pertinência, o cardeal Sean O’Malley, anota que o homem actual como que esqueceu os mandamentos. O único a que presta alguma atenção é ao «Não fumarás». E mesmo esse não o cumpre como deveria cumprir.


D. Nem sempre o poder é amoroso, mas o amor será sempre poderoso



  1. O amor que melhor conhecemos é o «amor do poder»; em contrapartida, o que mais desleixamos é o «poder do amor». Mas o que Jesus espera de nós é mesmo o amor. Para Jesus, tudo — até o poder — tem de estar submetido ao amor.

O amor é tão comovente que se vê mais nos olhos que choram do que nos lábios que (sor)riem. Daí que a Bíblia assegure que as lágrimas geradas pelo amor só serão enxugadas por Deus (cf. Ap 21, 4).



  1. Nos começos da Igreja, notava-se um grande entusiasmo à volta do Mandamento Novo. Tertuliano até nos dá conta de que os outros, olhando para os cristãos, exclamavam: «Vede como eles se amam!» Ou seja, «vede como eles fazem o que dizem». E o certo é que, se a lei do amor fosse mais observada, as outras leis quase poderiam ser dispensadas. Já dizia Disraeli: «Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis».

Por conseguinte, percebe-se que Deus seja mais acessível ao coração que ama do que à mente que (apenas) pensa. O amor é o que maior honra tributa a Deus, que é amor (cf. 1Jo 4, 8.16). O poder consegue muito, mas só o amor é capaz de tudo. Nem sempre o poder é amoroso, mas o amor será sempre poderoso. Afinal e como reconhecia Paul Ricoeur, Deus é «Todo-Poderoso» porque é «Todo-Amoroso».


E. Um pouco de amor nunca é pouco



  1. A Igreja, não sendo uma democracia, deva ser mais — e nunca menos — que uma democracia. O que nela há-de prevalecer não é o «amor do poder», mas o «poder do amor». O amor do poder tem esmagado a vida de muita gente; Só o poder do amor transformará a vida de toda a gente.

Jesus é o mestre maior do amor incondicional e do amor total. Para Jesus, o amor é para todos e é para sempre. Uns merecem-no; os que o não merecem precisam dele até para ver se se habituam a ele. Percebe-se, assim, que até pelos inimigos tenhamos de dar a vida. Ao dar a vida, os inimigos deixam de o ser: todos passam a ser amigos. Para Jesus, todos são amigos. Nem sempre o amor é acolhido. Mas, mesmo quando não é acolhido, o amor há-de ser continuamente oferecido.



  1. Nunca esqueçamos que o Cristianismo é, geneticamente «a religião do amor». Os cristãos da primeira hora eram conhecidos pelo compromisso para com o «mandamento novo do amor». Que os cristãos desta nossa hora não subestimem um mandamento que nunca deixa de ser novo.

Levemos a todos o Deus do amor. E depositemos em cada um uma porção do amor de Deus. Um pouco de amor nunca é pouco. Um pouco de amor é sempre muito. Porque, em Deus, o amor já é tudo. E para sempre!

publicado por Theosfera às 05:09

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