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Quarta-feira, 01 de Novembro de 2017

A. Um dia em que se respira felicidade

  1. Que dia belo, este! Tanta coisa bela para celebrar, hoje! Tanta coisa bela para agradecer, hoje! Tanta coisa bela para aprender, hoje! Celebramos, hoje, a santidade. Celebramos, hoje, todos os santos. Os santos, como notou Jacques Maritain, «são os melhores educadores». Porque não se limitaram a apontar. Os santos são os melhores educadores porque viviam o que diziam. Os santos são os melhores educadores porque deixaram de ser para passar a ser: deixaram de ser eles próprios para que Deus fosse neles.

Na sua prolixa variedade, os santos mostram-nos Deus em forma de palavra, em forma de presença, em forma de vida. Quando olhamos para os santos, olhamos para Deus. Os santos são espelhos que deixam ver e convidam a ser. A sua transparência é um convite para a nossa vivência.

 

  1. É por tudo isto que neste dia se respira felicidade. A santidade, com efeito, irradia sempre felicidade. Toda a santidade é feliz e toda a felicidade pode ser santa. O nosso problema, aliás, começa logo nesta espécie de colisão entre o nosso desejo e o nosso caminho. Queremos todos ser felizes, mas andamos por caminhos que não levam à felicidade.

Se estivermos atentos, a vida de muitos santos não foi uma vida feliz para os nossos padrões habituais de felicidade. Será importante, então, olhar para os santos e reparar no modo como eles conseguiram ser felizes.

 

B. Mestres de felicidade, os santos

 

3. Desde logo, salta à vista que a preocupação dos santos não foi a felicidade deles. Os santos começaram por se libertar deles mesmos. Os santos conseguiram libertar-se dessa «teia» torturante que se chama egoísmo. O egoísmo exige tudo e não aceita oferecer nada. É por isso que o egoísta nunca está satisfeito, nunca está saciado. Enfim, é por isso que o egoísta nunca consegue ser feliz.

Nunca como hoje falamos tanto de felicidade. E, paradoxalmente, nunca como hoje teremos ouvido tantas confissões de infelicidade. Mais que uma aspiração, a felicidade tornou-se quase uma obsessão. Tanto a queremos obter que até nos esquecemos de percorrer o caminho para a alcançar.

 

  1. Só seremos felizes quando procurarmos a felicidade onde ela se encontra. Para Jesus, os geradores de felicidade são a pobreza, a compaixão, o empenhamento na justiça, a mansidão, a misericórdia, a paz e a lisura do coração. Ou seja, tudo ao contrário daquilo a que estamos habituados. Mas porque não experimentar? Que cada um comece, então, por querer ser «pobre de espírito» (Mt 5, 3), por chorar com quem chora (cf. Mt 5, 4), por ter «fome e sede de justiça» (Mt 5, 6). Que cada um queira ser manso, misericordioso, construtor da paz e «limpo de coração» (Mt 5, 7-9).

A felicidade não pode ser desligada nem solteirizada. Não é possível ser feliz sem os outros, sobre os outros ou contra os outros. O Mestre tornou bem claro que «há mais felicidade em dar do que em receber» (Act 20, 35). Em suma, é preciso sair de nós para ver a felicidade entrar em nós!

 

C. Também na felicidade, necessitamos de conversão

 

5. Também na felicidade, há uma grande necessidade da conversão. Ainda estamos longe da felicidade oferecida por Deus. É mediante o apelo à conversão que, segundo São Marcos, Jesus começa a Sua missão: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»(Mc 1, 15).

A felicidade passa por um processo de conversão, de transformação e de transfiguração. É no âmbito de tal processo que vamos passando da vida velha à vida nova, do pecado à graça. Quando perceberemos que só há felicidade na santidade?

 

  1. Não é fácil ser santo, mas até nas dificuldades é muito belo ser santo. A santidade é uma prova de resistência e um caminho de persistência. Hoje, celebramos tantos que demonstraram que ser santo é possível, apesar de todas as dificuldades.

Muitos já conseguiram o que nós também podemos alcançar. É que a santidade não é só a meta, há-de ser também o caminho. Aliás, só pode chegar à meta da santidade quem se esforça por percorrer caminhos de santidade.

 

D. Os santos do céu começaram a ser santos na terra

 

7. Desde sempre, houve cristãos que acolheram este desafio. Não admira, por exemplo, que o Livro dos Actos dos Apóstolos chame «santos» aos cristãos que estavam em Lida (cf. Act 9, 32). Ser cristão era ser santo e, como nos primeiros tempos havia perseguições, então ser cristão e ser santo era ser mártir.

Por tal motivo, a Igreja, desde muito cedo, teve um dia para assinalar todos os mártires. Curiosamente, esse dia chegou a ser o dia 13 de Maio. Foi em Roma, depois de o Papa Bonifácio IV ter convertido o panteão do Campo de Marte num templo dedicado à Virgem Santíssima e a todos os mártires. No século VIII, o Papa Gregório III erigiu, na Basílica de S. Pedro, uma capela ao Divino Salvador, a Nossa Senhora, aos Apóstolos e a todos os mártires e confessores. Foi, entretanto, o Papa Gregório IV quem, no século IX, fixou esta festa no dia 1 de Novembro.

 

  1. A festa de Todos os Santos é a festa da santidade, é a festa da santidade viva, é a festa da santidade em vida. Nos santos, não celebramos apenas uma morte santa. Em cada santo, celebramos toda uma vida santa. É vital perceber que, embora celebremos os santos depois da morte, eles foram santos durante a vida. Não é a vida que nos impede de sermos santos. O santo não é extraterrestre. Não é sobre-humano. Os santos do céu começaram a ser santos na terra.

O santo é da nossa terra. Pertence à nossa condição. Tantos são os santos que foram da nossa família. Ser santo é ser verdadeiramente humano, é participar na construção de um mundo melhor. Ser santo é intervir na transformação da humanidade. É não pactuar com a injustiça. É falar com os lábios e testemunhar com a vida. A santidade está ao alcance de todos. É o que há de mais democrático e invasivo.

 

E. Ser santo é felicitar

 

9. A santidade faz de nós irmãos. A santidade não é indiferença; é diferença. Santo não é aquele que se mostra indiferente ao que ocorre à sua volta. A santidade é a surpresa da paz no meio da tempestade. A santidade não é estrepitosa. Muitas vezes, até é silenciosa, mas sempre interveniente, interpelante. A santidade acontece em casa, na estrada, no trabalho.

Os santos não estão apenas no altar nem figuram somente nos andores. Não há só santos de barro. Há muitos santos de carne e osso, às vezes, mais osso que carne. Há muitos santos com fome. Há muitos santos na rua. Há muitos santos de enxada na mão. Há muitos santos com lágrimas no rosto e rugas na face. É neste contexto que Jesus nos dirige várias felicitações que são outras tantas provocações. A felicidade não está onde costumamos pensar que ela esteja. As Bem-Aventuranças são provocações de felicidade.

 

  1. A santidade não é um passeio; é um testemunho exigente. Pode não implicar derramamento de sangue, mas requer imperativamente a oferta da vida. Toda a santidade é feliz e toda a felicidade pode ser santa.

O céu está cheio de santos. Não deixemos que o mundo fique vazio de santos. Cultivemos uma santidade feliz e uma felicidade santa. Não tenhamos medo de ser santos. Ser santo é felicitar e semear felicidade!

publicado por Theosfera às 05:34

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