O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sábado, 31 de Agosto de 2019
  1. Continuamos em Novena, condição para que a Festa seja plena. E, neste terceiro dia, eis-nos chegados ao Domingo, dia por excelência da Eucaristia. Em Ano da Missão, nunca é demais realçar que a Eucaristia é geradora da Missão. O Jesus que convida para a Eucaristia é o mesmo que convoca para a Missão. O Jesus que alimenta com o Pão é o mesmo que alenta para a Missão. O «fazei isto em memória de Mim» (1Cor 11, 24) e o «ide por todo o mundo» (Mc 16, 15) são, por isso, indissociáveis.

A Eucaristia está de tal modo ligada à Missão que o final da celebração constitui o início da Missão. Aliás, uma das designações mais conhecidas da celebração tem a mesma proveniência de Missão. Com efeito, a palavra Missa — tal como a palavra Missão — provém do latim mitto, verbo que significa enviar.



  1. É sabido que, em Latim, a celebração termina com «ite, missa est» («ide, a Missa acabou»). Sucede que este «ide» do celebrante retoma o «ide» de Jesus (cf. Mc 16, 15). Trata-se de um envio, não de uma despedida, tanto mais que Jesus teve o cuidado de assegurar a Sua presença no meio dos discípulos até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20).

O «ide», além de uma fórmula de envio, é uma forma de presença. E tal como Jesus está presente na missão dos Seus enviados, a Eucaristia continua presente na vida dos seus participantes. Esta ligação entre Missa e Missão sinaliza que, em boa verdade, nunca deixamos de estar em Eucaristia. À celebração sacramental sucede, assim, a celebração existencial.



  1. Quando termina a Missa, começa a Missão. E a Missão consiste precisamente no testemunho do que vivenciamos na Missa. A Missa é a fonte da Missão para que a Missão seja o espelho da Missa. O Pão que nos alimenta na Missa continua a alimentar-nos na Missão. A Missão é uma extensão — e como que uma explosão — da Missa. A Missa fortalece para que a Missão frutifique.

À semelhança do envio após a Ressurreição, também o envio no final da celebração é marcado pela bênção (cf. Lc 24, 50). Os fiéis recebem a bênção para levarem a bênção; são receptores da bênção para serem portadores de bênçãos. É como abençoados que regressam à vida. Não sentimos todos que a nossa vida está assediada pelo mal e, por isso, carenciada de bem, de bênção?



  1. A Eucaristia celebra o bem maior: o amor. O amor é celebrado no altar para marcar o nosso falar e pautar o nosso agir. É deste modo que o sacrifício do altar se prolonga e estende sobre o mundo. A missão, que sucede à Missa, pretende transformar o mundo de maneira que ele seja cada vez mais impregnado por Cristo. O objectivo é converter a geosfera numa permanente — e caudalosa — cristosfera.

Na missão encontramos o mesmo Cristo que encontramos na Missa. Por conseguinte, nada pode ficar igual depois de termos participado num mistério tão diferente. Se a mudança não se nota por fora é porque (ainda) não nos deixamos transformar por dentro. Não obstante as nossas debilidades, há que não começar a desistir nem desistir de (re)começar.



  1. E como se concretiza a missão? Fundamentalmente, a missão concretiza-se numa dupla acção: em levar e trazer. Efectivamente, levar e trazer é o que faz a missão acontecer. O missionário é o que leva Cristo e é o que traz para Cristo.

É o que leva Cristo às pessoas e é o que traz as pessoas para Cristo. É que, como assinalou o Papa Francisco, «hoje, ainda há muita gente que não conhece Jesus Cristo».



  1. A esta luz, do mandato de Cristo não podemos reter apenas o «ide» nem tão-pouco o «ide por todo mundo». Não basta ir nem sequer chega ir por todo o mundo. É preciso ir por todo o mundo «anunciar o Evangelho».

Missionar é, pois, evangelizar ou, melhor, pan-evangelizar: evangelizar a todos e evangelizar sempre. O Evangelho tem de estar no começo, no meio e no fim de tudo.



  1. A chegada do evangelizador tem de ser a chegada do Evangelho. A missão consiste em ir por todo o mundo para que em todo o mundo seja anunciado o Evangelho de Cristo e o Cristo do Evangelho. Nesta tarefa primordial — levar Cristo e trazer para Cristo —, temos de nos mobilizar todos e de nos mobilizar sempre. A missão não é só para alguns nem para alguns momentos. A missão é para todos e é para sempre.

Foi por isso que o Vaticano II recordou que «a Igreja peregrina é, por natureza, missionária». Não se pode, portanto, ser cristão sem ser missionário. Onde está o cristão, aí tem de estar a missão. O Evangelho não é privilégio de ninguém nem exclusivo de alguns; é dom para cada um e responsabilidade para todos. A esta luz, ninguém se pode sentir demissionário; cada um deve sentir-se responsavelmente missionário. Somos chamados a viver sempre em estado de missão e jamais em estado de demissão.



  1. Para fazer missão, é imperioso crer e é decisivo querer. Crer em Deus é deixá-Lo entrar. Querer Deus é o que nos faz sair. Em Si mesmo, Deus é um mistério de saída. O Pai sai eternamente ao encontro do Filho. O Pai e o Filho saem eternamente ao encontro do Espírito Santo. Nenhuma pessoa divina sobrevive ego-sentada; todas Elas estão umas nas outras, vivendo umas para as outras.

Enquanto imagem de Deus (cf. Gén 1, 26-27), o homem é chamado a sair: não só a sair para o exterior, mas sobretudo a sair de si. Na missão, há que sair e, como é óbvio, há que chegar.



  1. É imperioso, contudo, que a presença do enviado não seja demasiado intensa nem muito ofuscante. O importante é que o Enviante cresça, mesmo que o enviado diminua (cf. Jo 3, 30). O enviado sai para desassossegar os outros, não para desarrumar a fé dos outros.

Não basta, por isso, chegar; é preciso levar. A chegada do apóstolo tem de ser a chegada de Jesus Cristo. A saída não pode ocorrer apenas no início. Sair de um sítio não custa. Sair de nós é (bem) mais difícil. É preciso (re)aprender a sair de nós: em cada dia e a todas as horas.







  1. Só quando a Igreja sai de si é que entra verdadeiramente em si: na sua natureza, na sua identidade, no seu mistério. É por isso que o orante nunca é inactivo. Dir-se-ia que ele é acrescidamente activo: a partir da base, a partir do fundo, a partir de dentro.

Os mais activos foram sempre grandes contemplativos. Aliás, duplamente contemplativos: contemplativos na oração e contemplativos na acção. Todos os membros da Igreja são chamados a ser contempla-activos, isto é, contemplativos e activos, contemplativos na acção e activos na contemplação. Que Nossa Senhora dos Remédios, com o Seu olhar meigo de contemplação, nos acompanhe sempre no nosso campo de missão!

publicado por Theosfera às 08:23

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