O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 19 de Agosto de 2014

1. É com indisfarçável melancolia que nós, os mais adiantados em idade, recordamos as chamadas férias grandes.

Perdido nas memórias mas alojado na alma, este era um tempo em que tempo havia.

 

2. Era o tempo em que o tempo sobrava, em que o tempo parecia nunca faltar.

Era o tempo em que o tempo não nos tinha. Nós é que tínhamos tempo. Para tudo. Ou quase tudo.

 

3. Era um tempo em que não se pensava em viagens. O dinheiro escasseava e as oportunidades não abundavam.

A preocupação não era ocupar o tempo. Era sobretudo sentir o tempo. Saborear o tempo. Digerir o tempo.

 

4. Nas férias, o tempo parecia desistir de passar. Dir-se-ia que também repousava.

Não voava, como hoje. Dávamos conta de cada segundo. Os minutos eram tão mastigados que até pareciam esticar as horas.

 

5. Era o tempo em que se sentia não apenas a chuva e o vento, mas até a mais leve brisa se fazia ouvir.

Alguma coisa se fazia, é certo. Nas aldeias, andávamos pelos campos. Ajudávamos os pais na apanha da batata e na colheita da fruta. As noites, longas e tórridas, eram ocupadas com diálogos tecidos de memórias e regados com amizade.

 

6. E quando nada mais havia para fazer, lia-se, via-se e olhava-se: a paisagem, o horizonte, a serra, tudo e nada, o céu e o infinito.

Dirão alguns que seria um tempo aborrecido. E que mal há nisso? Não será saudável haver também um tempo para nos aborrecermos? Não deverá haver também um lugar para o tédio?

 

7. Eu sei que, para as novas gerações, isto parece surreal. Três eram os meses que passávamos praticamente no mesmo lugar, a conviver com as mesmas pessoas. Como era possível?

Não havia internet e poucos eram os que possuíam telefone. A chegada do carteiro era o maior sinal de notícias de alguém distante…

 

8. Coisas de um passado que não volta. Não voltará? De facto, Óscar Wilde dizia que «o principal encanto do passado é que já passou».

Só que há elementos que, por muito que nos custem, podem alterar o figurino da vida que, actualmente, levamos.

 

9. Jeff Rubin deixa-nos uma curiosa descrição do que pode ser a nossa existência a breve prazo. Basta que pensemos, por exemplo, no fim do petróleo.

Será que já imaginamos um mundo onde esta fonte de energia escasseie? Não é preciso puxar muito pela imaginação. Desde logo, as viagens ficarão muito mais caras. E, se o petróleo se esgotar completamente, algumas viagens poderão mesmo tornar-se impossíveis.

 

10. A economia local e a importância dos vizinhos voltarão a adquirir uma nova centralidade.

Segundo Jeff Rubin, «em breve, os nossos alimentos virão de um campo muito mais perto de casa e as coisas que compramos provavelmente virão de uma fábrica ao fundo da estrada». É certo que as previsões têm um problema. Às vezes — muitas vezes? — erram. Para Jeff Rubin, «o futuro será muito parecido com o passado». Será?

publicado por Theosfera às 10:06

De Evágrio Pôntico a 19 de Agosto de 2014 às 17:39
Admirável texto, Sr. Padre João !

Pela mestria habitual da sua escrita, revejo-me em tudo quanto disse, !

Voltei ao delicioso passado das férias grandes de Verão !
Dou graças a Deus por ter vivido esse tempo !

Na verdade, o tempo passava... não colidia connosco ! Hoje, infelizmente, o tempo não chega para nada! Como é que se chegou a isto... ?! Creio que muito se deverá a políticas erradas dos governos, que nos impõem cada vez mais obrigações, de toda a natureza, transformando a sociedade num mundo "kafkiano", onde há sempre, e cada vez mais, tarefas e tarefas a cumprir !

Toda esta "reviravolta" nas férias escolares parece-me que nasce de orientações desajustadas e insensatas, provindas dos "inefáveis" teóricos, os quais, no meu entender, enfermam (sempre) da falta de conhecimentos da vida, são inexperientes e imaturos, e impõem medidas cujos resultados nefastos são facilmente previsíveis pelo homem comum… menos para os tais ideólogos… !

Com estas medidas, verifica-se que, hoje, crianças e jovens não têm oportunidade para desfrutar de tempos livres, sem preocupações, coagidas que estão a tempos escolares excessivos (mas que, na prática, não lhes trazem mais qualidade nos conhecimentos).

Outro enorme disparate consistiu na redução do período das férias judiciais, o que obrigou a acomodar as férias escolares a este novo calendário. Pensaram os teóricos da Justiça que iriam assim resolver o problema do acumular de processos, considerando tais ignorantes que a Justiça funcionaria melhor com mais tempo para os Juízes resolverem os processos... !
A medida não teve impactos positivos, pois foi baseada numa errada percepção da realidade social. Por outro lado, as leis que saem da pena dos legisladores são cada vez mais desajustadas, e parecem feitas para confundir e agravar conflitos, a todos os níveis!

Ora, será que ninguém entende que o que há que fazer é construir uma sociedade menos conflituosa, mais pacífica e harmonosa, onde impere a educação, o respeito e a sensatez, de modo a obviar a tanto processo judicial… por tudo e por nada…?!

Para atingir tal objectivo, teríamos de ter em Portugal governantes sábios, que soubessem incutir - pelo exemplo claro e amor patriótico - aos cidadãos ideias e ideais que conduzissem a tal desiderato! Infelizmente, os nossos governantes têm sido exemplo abundante de incompetência, insensatez… e até… de corrupção !

Esperemos que, com a ajuda do Espírito Santo, venham melhores dias...

De Theosfera a 19 de Agosto de 2014 às 19:18
Muito, muito obrigado. Deus o abençoe!


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