O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 17 de Setembro de 2017

A. Deus não quer a ofensa, mas também não aprova a vingança

 

  1. Neste mundo, não faltam «profissionais da ofensa». Também abundam «profissionais da vingança». O que escasseia são os «profissionais do perdão».

Há, de facto, quem não perdoe o mal e há até quem não perdoe o bem. Há mesmo quem perdoe menos o bem que se faz do que o mal que se pratica. Tão contaminados estamos pelo mistério da maldade que até o bem nos causa perplexidade.

 

  1. Deus não suporta o mal. Mas também não aprova a vingança, que, no fundo, só contribui para alastrar o mal. Algum mal é extinto pela vingança? Custa, sem dúvida, sofrer o mal. Mas fazer mal a quem nos faz mal apaga o mal que nos é feito? Como alerta a Primeira Leitura, Deus não aprova a vingança (cf. Eclo 28, 1). Para Ele, «o rancor e a ira são coisas detestáveis» (Eclo 27, 30).

Acresce que, como refere a Escritura, «o mau prejudica-se a si mesmo» (Eclo 27, 24). Não é necessário, pois, afundar no mal quem já está no mal. O que todos deveríamos fazer era ajudar quem está no mal a sair do mal. É por isso que já a sabedoria do Antigo Testamento nos exorta a perdoar ao próximo pelo mal que nos fez (cf. Eclo 28, 2).

 

B. Não podemos confundir vingança com justiça

 

3. Perdoar a quem faz o mal não é branquear o mal. Perdoar é, desde logo, não ficar dominado pelo mal que nos é feito. E é também contribuir para que quem faz o mal possa sair do mal que faz. Não é fácil, mas não podemos presumir que seja impossível. E mesmo se for impossível para nós, nunca é impossível para Deus. É neste sentido que devemos responder à maldade dos homens com a bondade de Deus.

Daí a pertinência do apelo de São Paulo: «Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos» (Rom 14, 8). Se pertencemos ao Senhor, é o Seu amor que nos deve possuir. Não é o nosso ressentimento que nos há-de nortear. Até podemos ter mil razões para a vingança. Mas não podemos invocar a aprovação de Deus para nos vingarmos.

 

  1. Não podemos confundir vingança com justiça. Para muitos, a justiça não passa de vingança. A justiça consiste em reparar o mal realizado urgindo a sua substituição pelo bem. Daí o carácter pedagógico de muitas penas, como é o caso do serviço cívico. Quem praticou algum mal à comunidade é instado, pela autoridade, a praticar o bem na mesma comunidade. Se o bem não é praticado por iniciativa própria, a autoridade impõe a sua prática.

Já a vingança é apenas devolver o mal a quem faz o mal. Isso pode satisfazer durante uns instantes. Mas não muda nada a longo prazo. Vingar-se do mal não atrai o bem. Vingar-se do mal não é bem. Vingar-se do mal é resignar-se a permanecer no mal.

 

C. O perdão é sobretudo para quem o não merece

 

5. É em todo este contexto que percebemos a insistência de Jesus para que perdoemos sempre e de forma ilimitada. O que Pedro pergunta a Jesus é se deve, ou não, perdoar sempre. E Jesus responde que não só deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada. De facto, ao dizer a Pedro que não deve perdoar «sete vezes, mas setenta vezes sete» (Mt 18, 22), Jesus não está a recomendar que se perdoe 490 vezes. Indo mais longe, o que Jesus quer não é que se perdoe muito, mas que se perdoe sempre e de forma ilimitada: se «sete vezes» quer dizer sempre, «setenta vezes sete» quer dizer sempre e ilimitadamente.

Para Jesus, o perdão é para todos, especialmente para quem o não merece. De facto, se alguém tem méritos, não necessita de ser perdoado. Pelo que o perdão é para quem o não merece. É claro que o perdão pode não ser pedido nem aceite. Mas, mesmo assim, tem de ser disponibilizado e oferecido.

 

  1. Enquanto discípulos de Jesus, somos também discípulos do Seu perdão. Ser cristão é, pois, o mesmo que ser «profissional do perdão», «esbanjador de perdão». Segundo o ensinamento de Jesus, a grandeza de uma pessoa está na sua disponibilidade para perdoar. Não é maior quem mais se vinga; maior é quem mais perdoa.

O credor de dez mil talentos (o equivalente, talvez, a 350 toneladas de ouro e a 400 milhões de dólares) perdoou ao seu devedor (cf. Mt 18, 23-27). Perdoou-lhe porque foi sensível à sua súplica e porque era generoso, magnânimo e misericordioso. No fundo, estamos perante uma eloquente imagem de Deus. Deus é Senhor porque dá, porque doa, porque «per-doa». Sucede que aquele que foi perdoado não perdoou uma pequena dívida (cf. Mt 18, 28-30). Com efeito, «cem denários» não correspondia a mais de 800 dólares. Tratava-se, portanto, de uma insignificância em comparação com a quantia que lhe foi perdoada.

 

D. Não é fácil — mas é sumamente belo — perdoar

 

7. Na vida, há quem seja assim. Há quem reclame o perdão de muito e há quem não seja capaz de perdoar nada. Acresce que, pelo desenvolvimento do texto do Evangelho, dá a impressão de que não terá o perdão de Deus quem não for capaz de perdoar ao seu próximo. «Não devias ter compaixão do teu companheiro como eu tive compaixão de ti? Então o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que lhe devia» (Mt 18, 32-33).

Sabemos que perdoar é difícil para o homem. E, olhando para a Bíblia, parece (insisto: «parece») que também não é fácil para Deus. Após o pecado original, Deus surge a «expulsar o homem do paraíso» (Gén 3, 23). Quando a corrupção corroeu a humanidade, decidiu «eliminar» o homem da terra (cf. Gén 6, 8). Na própria enunciação do Pai-Nosso, o apelo ao perdão contém uma ressalva: «Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas» (Mt 6, 14-15).

 

  1. Parece que só há perdão de Deus se houver perdão da parte do homem. Se não houver perdão entre os homens, parece que não haverá perdão da parte de Deus. E a verdade é que foi preciso Jesus pedir a Deus que perdoasse a quem O ia matar: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 24).

Tendo, porém, em conta que Jesus é o rosto definitivo de Deus (cf. Jo 14, 9), então salta à vista que o Deus de Jesus (o nosso Deus) nunca devolve o mal; derrama sempre o bem. É por isso que propõe o amor aos amigos, mas sem excluir os inimigos. Ele fala de um Deus que «faz com que o sol se levante sobre bons e maus» (Mt 5, 45).

 

E. Aprendamos a perdoar com Deus

 

9. A esta luz, a entrega aos verdugos do servo que não perdoou (cf. Mt 18, 34) não é uma imagem de um Deus sem perdão. Não se trata de que Deus pague na mesma moeda e castigue quem não for capaz de perdoar. Olhemos para Deus como Ele é. Não é preciso muito para concluir que a vingança não faz parte maneira de ser de Deus. Se Deus é infinito, perdoa infinitamente. Aliás e como dizia Heinrich Heine, «é o trabalho d’Ele».

O que o Evangelho faz é usar imagens fortes (quase no limite da contradição) para sublinhar que o perdão é absolutamente necessário e urgente. É tão necessário e tão urgente o perdão que dele depende a construção de uma vida nova. Nada é novo sem perdão.

 

  1. Diante de tantos «profissionais da ofensa e da vingança», disponhamo-nos, então, a sermos «profissionais do perdão». Não deve haver coisa que custe tanto como perdoar. Mas não há nada tão belo como o perdão. É preciso aprender a perdoar com o Mestre do Perdão. Perdoar, como notou Isaac de l' Étoile no século XII, é próprio de Deus. Só com Deus aprenderemos a perdoar.

Ao contrário do que se diz, perdoar não é esquecer. Como é possível perdoar o que não lembramos? Acresce que esquecer — ou lembrar — não depende da nossa vontade; depende da nossa memória. Perdoar o que recordamos é que depende da nossa vontade, da nossa vontade em aprender com o perdão de Deus. Aprendamos, pois, a perdoar com Deus. Ele também está sempre a perdoar-nos, como filhos Seus. Não fiquemos na «lama» que nos queiram atirar. E nunca aceitemos que o «veneno» da vingança nos possa dominar. É pelo perdão que nos será aberta a porta da salvação!

publicado por Theosfera às 05:18

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