O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 30 de Outubro de 2016

A. Até os corruptos são tocados por Jesus

  1. Uma vez mais, acompanhamos Jesus «a atravessar a cidade» (Lc 19, 1). Jesus atravessa sempre as nossas cidades e atravessa-se continuamente nas nossas vidas. Ele repara em cada um de nós. Somos muitos, mas para Jesus somos únicos. O importante é estar atento quando Jesus passa, pois Jesus passa pela vida de todos.

É preciso fazer como Zaqueu, nome de origem hebraica que significa «puro», «justo». Só que, neste caso, o seu nome não correspondia à sua vida, que estava longe dos padrões da justiça. Zaqueu não só era publicano, profissão já de si odiosa, mas era «chefe de publicanos» (Lc 19, 2), o que o tornava ainda mais repelente aos olhos dos judeus. A sua função era cobrar — e fazer cobrar — impostos para os romanos. A sua riqueza não era, pois, muito lícita já que, além do que era remetido para o império, haveria muito que ficava para ele. Afinal, a corrupção não é de agora!

 

  1. Mas até os corruptos são tocados pela presença de Jesus. Zaqueu, este homem malcomportado e nada bem visto pelo povo, esforça-se também por ver Jesus (cf. Lc 19, 3). É preciso que nos esforcemos por ver Jesus, por estar com Jesus. É preciso que não desistamos. É preciso que transformemos as dificuldades em oportunidades em vez de transformar as oportunidades em dificuldades.

Ser cristão é ultrapassar-se, é transcender-se, é superar-se, enfim, é transformar-se e converter-se. Para ver Jesus, Zaqueu sobe a um sicómoro (cf. Lc 19, 4), que é uma espécie de figueira de raízes profundas e ramos fortes que produz figos de qualidade inferior. É uma árvore que aparece muito no Médio Oriente e em algumas partes da África.

 

B. Jesus não quer que Zaqueu suba

 

3. O que há a realçar é que Zaqueu não fica a lamentar-se, a queixar-se de que não era capaz. Ele nota que tinha chegado o momento de mudar de vida. Não podia adiar mais a mudança, a conversão. Ser pequeno (cf. Lc 19, 3) não era um obstáculo. O texto refere-se à estatura física de Zaqueu, mas o que verdadeiramente está em causa é a sua estatura espiritual.

Acima de tudo, Zaqueu sente-se pequeno. Quem é que não se sente pequeno diante de Jesus? Curiosamente, ele sente-se pequeno na sua pretensão de ser grande, de ser maior que os outros. Mas até a sua riqueza, que era grande, o faz sentir pequeno. Tudo aquilo que o levava a ter ilusões de grandeza era bem pequeno.

 

  1. Zaqueu está decidido a mudar de vida. E começa por usar os seus meios, os seus recursos, as suas forças. Subir ao sicómoro, à tal figueira, sinaliza investir nas energias humanas. São vias úteis, mas insuficientes. Também aqui, Jesus surpreende. Para Jesus, só se sobe quando se desce. Ele próprio subiu aos Céus depois de descer até às profundidades da terra.

Não admira, por conseguinte, que Jesus mande descer — e descer rapidamente — Zaqueu: «Zaqueu, desce depressa» (Lc 19, 5). Jesus não quer que Zaqueu suba. Zaqueu só subirá se primeiro descer. O que Jesus quer é que desçamos de cada um de nós. No fundo, as nossas forças são bem fracas para chegar a Deus.

 

C. É preciso desocupar a nossa casa

 

5. Para chegar a Jesus, só sobe quem desce. Assim sendo, é fundamental que desmontemos a nossa auto-suficiência, a nossa autocracia. É fundamental descer das alturas do nosso egoísmo. E é decisivo que percebamos que não chegamos até Jesus quando subimos até ao topo das nossas ambições. Só chegamos até Jesus quando descemos das nossas pretensões. Só chegamos até Jesus quando nos esvaziamos.

Como aconteceu com Zaqueu, Jesus também quer ficar em «nossa casa» (cf. Lc 19, 5). Ora, se a nossa «casa» está ocupada e se nós estamos tão ocupados em nossa «casa», como é que haveremos de receber Jesus? Esvaziemos, portanto, a nossa «casa». Deixemos que seja Jesus a tomar conta dela.

 

  1. Recebamos Jesus como Zaqueu, isto é, recebamos Jesus «cheios de alegria» (Lc 19, 6). E não tenhamos medo de desfazer o que for necessário para que possamos refazer o que for importante. A presença de Jesus alterou completamente a vida de Zaqueu. A presença de Jesus altera completamente a nossa vida.

Zaqueu restituiu — com juros — o que tinha furtado e partilhou do que tinha (cf. Lc 19, 8). Ou seja, Zaqueu já estava cheio de Jesus. Desfez-se do que possuía para se deixar possuir por Jesus. Em comparação com Jesus, tudo o resto é pouco, tudo o resto é quase nada.

 

D. A dieta que urge fazer

 

7. A salvação entrou na casa — e na vida — de Zaqueu (cf. Lc 19, 9) na exacta medida em que se libertou daquilo que o aprisionava. E, como sabemos, a prisão dos bens materiais é, ao contrário do que se possa pensar, bastante opressora. Muitas vezes, aquilo que mais ganhamos é o que mais nos faz perder.

Zaqueu tinha perdido muito, quando muito parecia ganhar. Mas Jesus, que veio procurar e salvar o que está perdido (cf. Lc 19, 10), não deixa que Zaqueu se perca. Jesus não deixa que ninguém se perca. Deixemos, pois, entrar Jesus na nossa casa. Deixemos que Ele transforme a nossa vida. E não hesitemos em deitar fora tanta coisa que vamos acumulando cá dentro.

 

  1. Mesmo que tivéssemos conquistado o mundo inteiro, que é isso diante de Deus? Diante de Deus, como ouvimos na Primeira Leitura, o mundo inteiro não passa de um grão de pó e ou de uma gota de orvalho (cf. Sab 11, 22). Aprendamos a desfazermo-nos das adiposidades que vamos acumulando. É urgente fazer dieta do egoísmo que nos envolve.

E não desistamos de ninguém. Zaqueu era alguém de que muitos tinham desistido. O seu comportamento não era digno, mas também ninguém lhe estendia a mão; apenas lhe apontavam o dedo acusador.

 

E. Jesus é (o) bastante

 

9. Jesus, sem afastar quem está próximo, aproxima os que estão afastados. Jesus olha para as margens e não esquece quem se encontra nas franjas. É cada vez mais urgente habituarmo-nos a olhar para a vida (também) com os olhos dos outros. Jesus esteve sempre próximo dos distantes, como Zaqueu. Não espanta, por isso, que Thomas Halik ponha nos lábios de Jesus esta síntese das Bem-Aventuranças: «Bem-Aventurados sois vós, os que estais nas franjas, pois ficareis no centro, no coração».

Jesus chama as periferias para o centro. Para Jesus, ninguém é marginalizado. Nem os marginais são postos à margem. Assim sendo, com que direito marginalizamos os outros? Mas ainda que alguém se sinta marginalizado, saiba que Deus nunca o marginaliza.

 

  1. Abramos a Jesus as portas da nossa casa, as portas do nosso coração, as portas da nossa vida. Não nos limitemos a usar os nossos meios. Percorramos, antes, o caminho de Jesus (cf. Jo 14, 6). Abramo-nos à Palavra. Abramo-nos ao Pão. E abramo-nos também ao Perdão.

Ninguém se sinta irrecuperável. Há sempre uma luz por cima de tanta escuridão. A luz que brilhou em casa de Zaqueu também iluminará a nossa vida. Mas, para já, «desmobilemos» a nossa habitação. Removamos tanta coisa que fomos acumulando. Fiquemos apenas com Jesus. Nada mais é necessário. Jesus é bastante. Jesus é o bastante. Jesus é tudo. Jesus é tudo para todos. Para nós também!

publicado por Theosfera às 06:25

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