O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 01 de Julho de 2018

A. De Deus não vem a morte

 

  1. Nada fazemos para nascer e, em princípio, tudo fazemos para não morrer. É por isso que a morte dói, é por isso que a morte mói. Dir-se-ia que a morte começa a doer muito antes de acontecer. No fundo, é desde sempre que a morte começa a doer. E as perguntas sobre a morte nunca deixam de (nos) moer.

Porquê morrer? Porquê a morte? A explicação biológica, embora irrenunciável, não nos satisfaz. Sabemos, de facto, que os seres vivos têm princípio, meio e fim. Até as estrelas morrem. Se até o espaço que nos abriga é finito, como é que nós haveríamos de ser infinitos? Apesar de tudo, a inquietação não pára e as perguntas sucedem-se.

 

  1. Os textos deste Domingo não entram em questões científicas nem pretendem resolver problemas metafísicos. Mas pressupõem que as pessoas se interroguem e questionem o próprio Deus. Daí que o Livro da Sabedoria deixe bem claro que «não foi Deus quem fez a morte» (Sab 1, 13). Pelo contrário, olhando para o Evangelho, Deus é a única saída para a morte.

Sem Deus, vivemos para morrer. Em Deus, morremos para viver. Sem Deus, até em vida se morre. Em Deus, até na morte se vive.


 

B. De Deus (só) vem a vida

 

  1. A Primeira Leitura garante que Deus dá o ser a todas as coisas e «o que nasce no mundo destina-se ao bem» (Sab 1, 14), não ao mal. Para o autor sagrado, Deus criou «o homem para ser incorruptível», fazendo-o «à imagem do que Ele é em Si mesmo» (Sab 2, 23).

A morte vem de outro lado, de outra proveniência, não de Deus. Não é a morte que agrada a Deus, não é com a morte que se louva a Deus, não é matando (mesmo que se mate em nome de Deus) que se rende homenagem a Deus. É preciso proclamar que Deus é o autor — e doador — da vida. Deus cria a vida e restaura a vida, quando esta está em perigo de se apagar. Dá e restaura a vida quando a vida está perdida.

 

  1. Como resposta à Primeira Leitura, o Salmo 30 exalta Deus, reconhecendo que Ele nos faz reviver quando já descíamos à cova. (cf. Sal 30, 3). Trata-se de um salmo que exprime a experiência de Deus como alguém que quer a vida das pessoas. Em Jesus ressuscitado, esta oração encontra toda a sua verdade. Ou seja, para todos os que acreditam em Cristo, a morte não é o fim. Jesus ressuscitado não nos faz evitar a morte, mas ensina-nos — e ajuda-nos — a vencer a morte.

Neste sentido, salta à vista que todo este 13º Domingo celebra a vida mais forte que a morte. Não há dúvida de que a morte é forte, tremendamente forte. Só que a vida é ainda mais forte. Não parece, mas nem tudo é como parece. Convém, no entanto, perceber que a vida mais forte que a morte é a vida com Deus, a vida com Deus em Jesus Cristo.


 

C. Jesus é o Deus que restaura a vida

 

  1. Jesus andou pelo mundo a restaurar vidas e a curar a nossa vida. A ressurreição da filha de Jairo e a cura da mulher com hemorragia são uma realidade e um sinal. Estes episódios mostram que Jesus é o sentido para a nossa vida.

Ele é o Médico e o medicamento. Ele é a cura e o Curador. Em suma, Ele é a salvação e o Salvador. Na Sua vida, encontramos a nossa vida. Ele dá a Sua vida para que nós tenhamos sempre vida, para que nós tenhamos melhor vida.

 

  1. Jesus é sumamente generoso. Como reconhece São Paulo, Ele, que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer pela Sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9). Não é a riqueza que nos torna ricos. Há certas riquezas que só empobrecem.

Pelo contrário, há uma pobreza que enriquece. Trata-se da pobreza que parte de cada um e reparte com os outros. Trata-se da pobreza que não sobrecarrega, mas alivia. Trata-se da pobreza que percebe que aquilo que sobra a alguns faz falta a muitos. Trata-se, portanto, de uma pobreza que nos humaniza porque nos fraterniza: faz de nós mais humanos porque mais irmãos.


 

D. O caminho é tocar Deus em Jesus

 

  1. Jesus não foge das pessoas. Jesus anda de margem para margem (cf. Mc 5, 21), sempre sensível às pessoas que estão nas margens, às pessoas que são marginalizadas. Até à beira-mar, Ele é procurado pelas pessoas (cf. Mc 5, 21). Nesta altura do ano, muita gente já se encontra também à beira-mar. Mesmo à beira-mar, é importante procurar Jesus. Férias boas não são «férias de Deus», mas «férias com Deus».

Seja onde for, coloquemos nas mãos de Jesus os nossos problemas como fez Jairo e como fez a mulher com hemorragias. Esta mulher tocou em Jesus. Hoje nós podemos tocar em Jesus: na Palavra, no Pão e em cada Irmão.

 

  1. Jesus é Deus que Se deixa tocar. «Sê curada», diz Jesus à mulher (cf. Mc 5, 34). Esta palavra é também um elogio da fé: «Foi a tua fé que te salvou» (Mc 5, 34). A cura, isto é, a mudança de vida, é uma consequência da fé, que surge assim como fonte de felicidade.

É a fé que nos faz recomeçar depois de tudo parecer terminar. É a fé que nos faz levantar depois de cair. O que Jesus diz à filha de Jairo também é dito a cada um de nós: «Levanta-te» (Mc 5, 41). É uma palavra que evoca a Ressurreição, o surgir da vida nova. É esta vida que nos coloca de pé. A única condição que Jesus nos põe é a mesma que pôs ao pai desta menina: «Basta que tenhas fé» (Mc 5, 36). A fé basta, a fé é o bastante. Basta, pois, que tenhamos fé. Ou, melhor, basta que a fé nos tenha. Confiemos, entreguemo-nos e levantemo-nos!


 

E. Ninguém fica sem resposta

 

  1. Há um pormenor curioso a ligar estes dois episódios: o número 12. A mulher tinha hemorragias há 12 anos e a menina morrera quando tinha 12 anos, isto é, a idade em que se devia tornar mulher. Para o povo de Israel, o percurso destas duas mulheres era sinal de um fracasso. Uma, ao perder o seu sangue, estava a perder o princípio de vida. A outra perdia a vida, precisamente na idade em que se preparava para a transmitir. De facto, era tradição em Israel casar-se muito cedo. Jesus, ao curar as duas mulheres, permite-lhes, assim, assumir a sua vocação de mães.

Assim sendo, estas duas mulheres representam a Igreja, na sua vocação maternal de dar — e de alimentar — a vida em Cristo. Se repararmos, existem neste texto alusões aos santos mistérios da Igreja: Jairo pede a Jesus para impor as mãos, a fim de salvar a sua filha (cf. Mc 5, 23). Como sabemos, toda a preparação para o Baptismo está sinalizada pela imposição das mãos. Por sua vez, ao levantar a jovem, Jesus toma-a pela mão (cf. Mc 5, 41). Também o diácono fazia sair da água o baptizado, tomando-o pela mão, para que fosse despertado para a vida em Deus. Em seguida, Jesus pede que se dê de comer a esta jovem ressuscitada da morte (cf. Mc 5, 43). Trata-se de uma referência à Eucaristia que se segue ao Baptismo.

 

  1. Deixemo-nos guiar sempre pela fé. Abramos o coração a Jesus e não tenhamos medo de tocar Jesus. Às vezes, é preciso suplicar como Jairo. Outras vezes, é preferível não dizer nada como a mulher com hemorragias. Em qualquer caso, o importante é confiar naquele que veio para nos levantar, para nos curar, enfim, para nos salvar.

Ninguém fica sem resposta. A Jesus Cristo, nada passa despercebido. Cada um de nós tem um lugar reservado no Seu coração!

publicado por Theosfera às 05:41

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