O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 12 de Outubro de 2014

O mundo acordou e ainda bem; o mal é que eu também acordei

  1. Queria começar por vos dar uma novidade, uma novidade que me chegou há dias. Alguns dos maiores clubes do mundo (Real Madrid, Barcelona, Manchester United e Bayern de Munique) reuniram-se e resolveram fazer uma proposta muito concreta à FIFA e à UEFA. A partir da próxima época, a contratação e o salário dos jogadores vão ter um limite que não poderá ser ultrapassado. Assim, todos os contratos vão passar a obedecer a uma chamada «cláusula de solidariedade». Isto é, o que exceder as operações com aquisições e vencimentos será encaminhado para acções humanitárias, designadamente para o combate à fome.

E diga-se que nem foi difícil obter um acordo. O manifesto que clubes e jogadores assinaram diz textualmente: «Nem mais uma contratação milionária enquanto houver uma única pessoa com fome». E o facto é que não há apenas uma pessoa com fome; há quase mil milhões de pessoas com fome. Finalmente, vão terminar os investimentos milionários no futebol. Finalmente, alguns dos que têm mais aceitam ter menos para que muitos que têm menos possam vir a ter mais. Finalmente, o mundo acordou.

 

  1. O problema é que eu também acordei. E, ao acordar, notei que, afinal, nada tinha passado de um sonho. Foi/é, um sonho belo, mas um sonho que teima em permanecer adiado, perdido, irrealizado. Terá de continuar a ser um sonho irrealizável? Se Deus quer e se nós sonhamos, porque é que a obra — neste caso, a obra da justiça e da solidariedade — não há-de nascer?

No fundo, perdemos o sonho porque nos perdemos no sono. Perdemo-nos, de facto, na sonolência da frieza, da crueza e da indiferença. A fome dos outros devia ser também a nossa fome e o nosso pão devia ser igualmente pão para os outros. É muito estranho — e sumamente triste — estarmos num mundo em que existem meios para matar a vida e não parecem existir meios para matar a fome. Ou, melhor, os meios até existem; o que não parece existir é vontade para os usar devidamente.

 

«Se querem lutar, lutem contra a fome!»

3. Como observou Eduardo Lourenço, dolorosa não é só a fome de muitos; é também — e bastante — o contraste com a opulência de tantos. De facto, o drama da fome «coexiste com o espectáculo de uma civilização aparentemente dotada de todos os meios, de todos os poderes para a abolir». Não dá para acreditar, mas importa saber que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem tanto como cerca de 3 mil milhões de pessoas do mesmo mundo. Ou seja, poucos com tanto e tantos com tão pouco!

Será que não podemos eliminar a fome ou será que não queremos eliminar a fome? Será que já reparamos na súbita emergência de um novo continente — o «continente da fome» —, que consegue até a assustadora proeza de ser mais populoso que a Oceania, a África e a América Latina? O trágico é notar como muita gente tem mais acesso ao armamento do que ao pão. Com efeito, nunca vimos ninguém, nas ruas, a mendigar armas. Estas parecem estar ao alcance de todos. Mas as pessoas continuam a estender a mão para mendigar pão! É caso para dizer — para gritar — aos partidários da guerra: «Se querem lutar, lutem contra a fome»!

 

  1. Este é um dos poucos «adversários» que vale a pena enfrentar, um dos raros «inimigos» que vale a pena combater e uma das escassas «guerras» que vale a pena travar. Aliás, a vitória nestas «guerras» não acarreta baixas nem danos colaterais: todos são vencedores, ninguém sai a perder. Habitualmente, os inimigos dos povos são outros povos. Nestas guerras, todos perdem, até os que (presuntivamente) ganham.

Os povos e as pessoas não deviam ter inimigos. Todos os povos e todas as pessoas deviam unir-se contra os reais inimigos da humanidade. Sim, a humanidade tem inimigos, inimigos poderosos, inimigos persistentes, inimigos letais. Contra esses inimigos deveríamos estar sempre em guerra. Que inimigos são esses? São principalmente quatro: a doença, a ignorância, a violência e a fome. A «guerra» contra a doença é crucial. A «guerra» contra a ignorância é determinante. A «guerra» contra a violência é decisiva. E, como é óbvio, a «guerra» contra a fome é urgente. Enquanto não vencermos estas quatro «guerras» não teremos paz e arriscamo-nos a nem sequer ter vida. Se, como disse o Papa Paulo VI, o clamor dos povos da fome chegou até Deus, como é que pode não chegar até nós?

 

O Cristo faminto passa por nós e nem sequer reparamos

5. Não esqueçamos que o Cristo que adoramos também está presente no irmão que passa fome. Tantas vezes, o Cristo faminto passa por nós e nós nem sequer reparamos. Mas, um dia, esse mesmo Cristo faminto poderá dizer-nos: «Tive fome e não Me destes de comer»(Mt 25, 42). É que «tudo o que não fizestes ao mais pequeno dos Meus irmãos foi a Mim que o deixaste de fazer»(Mt 25, 45). Daí que, a partir do século IV, S. João Crisóstomo dirija um apelo a cada um de nós: «Enquanto adornas o templo, não esqueças o teu irmão que sofre, porque este templo é mais precioso que o outro».

Se alguém quiser, pois, honrar a Cristo, «não permita que Ele seja desprezado nos Seus membros, isto é, nos pobres», nos que passam fome. Afinal, «de que serviria adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro, dá de comer a quem tem fome e, depois, ornamenta a Sua mesa com o que sobra. Queres oferecer-Lhe um cálice de ouro e não és capaz de Lhe dar um copo de água?» É diante de todo este cenário que se compreende que, numa visita que fez ao Peru, S. João Paulo II tenha atordoado a humanidade com uma exclamação flamejante: «Fome de Deus sempre! Fome de pão nunca!»

 

  1. Acontece que Deus também é pão. Acontece que Deus também Se faz pão. Os textos que escutámos neste Domingo são atravessados por um convite. Deus convida, Deus convida-nos para uma refeição, para um banquete. Isaías alude a um banquete «com manjares suculentos, a um banquete com excelentes vinhos, comidas de boa gordura e vinhos puríssimos»(Is 25, 6). Este convite é feito a «todos os povos»(Is 25, 6).

Durante tal banquete, Deus vai «retirar o luto»(Is 25, 7) e «destruir a morte»(Is 25, 8). Vai, por isso, «enxugar todas as lágrimas»(Is 25, 8) e acabar com «a vergonha do Seu povo»(Is 25, 8). Tudo isto acontecerá nos tempos últimos, inaugurados por Jesus Cristo. Ele é o Último, o Definitivo e o Perene. Ele é o eco de todos os nossos anseios e o horizonte de todos os nossos caminhos.

 

Em Cristo, Deus também Se faz pão

7. O Evangelho garante que «o banquete está pronto»(Mt 22, 8). Com efeito, é sobretudo em Jesus Cristo que Deus Se faz pão. Cristo é pão para que ninguém tenha mais fome de pão. Quem come deste pão, vive e vivifica; ou seja, deve alimentar a vida dos outros.

Aliás, é esse o mandato do próprio Jesus: «Dai-lhes vós de comer»(Lc 9, 13). Somos nós que temos de dar pão. Somos nós que temos de ser pão. E que pão? O pão é Cristo, que nos manda repartir o pão (cf. Mt 14, 19-20).

 

  1. Mas, como nem só deste pão vive o homem (cf. Mt 4, 4), o pão que somos chamados a dar é igualmente o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia. Cristo alimenta-nos na mesa da Palavra e na mesa da Eucaristia. Aliás, é pela Palavra que o pão se transforma no Corpo de Cristo (cf. 1Cor 11, 23). A Eucaristia é, pois, uma refeição servida em duas mesas: na Mesa da Palavra e na Mesa do Pão. Quanto mais nos alimentarmos, mais força teremos para alimentar.

Quanto mais nos alimentarmos com o Pão da Palavra e da Eucaristia, tanto melhor alimentaremos os outros com o pão de cada dia. É por este motivo que a Missa não tem fim. Termina a Missa, começa a Missão. E a Missão consiste, basicamente, na distribuição do Pão: do Pão que vem de Deus e do pão que vem da terra por graça de Deus. Se saciarmos a fome com o Pão da Vida, ajudaremos a saciar a vida dos outros com o pão. E se ninguém esbanjar o supérfluo, a ninguém faltará o essencial.

 

Sem Cristo, nada; em Cristo, tudo

9. Deus está sempre a convidar. Mas há quem recuse, há quem não queira vir (cf. Mt, 22, 3). Hoje, são muitos os que vêm, mas continuam a ser muitos mais os que não querem vir. Eis, pois, um compromisso para todos nós: vamo-nos fazer eco do divino convite. Vamos convidar outros (em casa, na escola, na rua, no trabalho e até no café) para virem no próximo Domingo. E se os que estão perto persistirem em não vir, convidemos os que estão longe, nas periferias, os que se encontram nas «encruzilhadas dos caminhos»(Mt 22, 9).

Não há dúvida de que a Igreja é para todos. Mas não é para tudo. Quando o banquete se inicia, o rei apercebe-se de que um convidado «não vestira o traje de cerimónia»(Mt 22, 11). Chama-o à atenção com delicadeza, tratando-o como «amigo»(Mt 22, 12). Aqui, o traje é essencial. Como sabemos, o traje é o que se coloca por cima de nós, é aquilo que nos reveste e que, nessa medida, nos identifica. Na verdade, as pessoas, quando nos vêem, olham para aquilo que vestimos. As melhores vestes são para os maiores momentos. Que traje devemos trazer, então, para este banquete que é a Eucaristia? O traje que devemos trazer é o traje de uma vida nova, de uma vida transformada. Não se pode ir para o banquete com o traje habitual. Isto é, não se pode ir para o sacramento da vida nova com a vida que se tem, com a vida que se leva. É preciso mudar de vida. É por isso que a Eucaristia começa com a confissão. É por isso que nos devemos confessar com frequência. A graça de Deus é a vida nova, a vida renovada.

 

  1. Deus não nos falta em nada. Aliás, foi o que cantámos no Salmo Responsorial: «O Senhor é meu pastor, nada me falta»(Sal 22, 1). N’Ele encontramos o que precisamos e o que desejamos. Por conseguinte, sem Ele, nada; com Ele, tudo. S. Paulo o atesta com grande ênfase: «Tudo posso em Cristo que me dá força»(Fil 4, 13). Em Cristo, estamos à espera do melhor e sentimo-nos preparados para o pior. Em Cristo, sabemos viver na abundância e saberemos viver na pobreza (cf. Fil 4, 12). Em Cristo, conseguiremos viver modestamente na prosperidade e não deixaremos de viver dignamente na penúria. É que, em Cristo, somos capazes de relativizar os bens em função do bem que é contribuir para o bem dos outros.

É por isso que, em Cristo, nunca descansaremos enquanto alguém passar fome. Cristo é pão para todos. Sejamos nós os distribuidores de todo o género de pão junto de todos. Se todos tiverem fome de Deus, ninguém terá fome de pão!

 

publicado por Theosfera às 11:04

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