O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 13 de Novembro de 2016

A. Um «banho de realismo»

  1. Jesus oferece-nos, neste Domingo, um tremendo «banho de realismo». Nós que, tantas vezes, apostamos tudo neste mundo, como se não houvesse mais nada, precisamos destes embates com a realidade. Como deve ter sido duro ouvir estas palavras de Jesus: «De tudo que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra» (Lc 21, 6).

O que aquelas pessoas estavam a ver era o magnífico e sumptuoso Templo de Jerusalém, «ornado com belas pedras e piedosas ofertas» (Lc 21, 5). Como imaginar que uma construção destas pudesse vir a ser destruída? Mas não foi necessário sequer esperar muito tempo. Como nos conta Flávio Josefo, a cidade de Jerusalém foi destruída pelos romanos pelo ano 70 da nossa era. Nessa altura, palavras do historiador, «a sagrada casa foi queimada».

 

  1. A caducidade das coisas materiais afecta tanto o pequeno como o grande. Tudo cai, tudo acaba. Cai o pequeno, mas cai também o que se julga grande. Cai o pobre, mas cai também o rico. Cai o fraco, mas cai também o que se julga forte. Caem as vítimas, mas caem também os que oprimem as vítimas. Enfim, somos todos arrastados por uma corrente que nos leva para o fim.

Como bem percebeu Santa Teresa de Ávila, «tudo passa, só Deus basta». Só Deus é bastante. Só Deus é o bastante. Até o templo material há-de terminar. O Deus do templo sobrevive ao templo de Deus. Só o templo espiritual sobrevive. Mas nós, distraídos, investimos tudo no material, no provisório, esquecendo que só Deus é definitivo.

 

B. Um convite à esperança

 

3. É neste contexto que a Liturgia deste Domingo reflecte sobre o sentido da existência, dizendo-nos que a meta final para onde Deus nos conduz é o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). A alusão à caducidade deste mundo não visa incutir medo, mas fortalecer a esperança. Desta esperança brota a coragem para enfrentar a adversidade e para pugnar pela chegada do Reino de Deus.

Na Primeira Leitura, um «mensageiro» garante, a uma comunidade desanimada, que Deus não abandonou o Seu Povo. O Deus libertador vai intervir no mundo, para derrotar o que oprime e rouba a vida. Ao mesmo tempo, Deus vai fazer com que nasça esse «sol da justiça» (Mal 4, 2) que traz a salvação.

 

  1. Por sua vez, o Evangelho oferece-nos uma meditação sobre o percurso que a Igreja é chamada a percorrer até à segunda vinda de Jesus. A missão dos discípulos é comprometer-se na transformação do mundo, de modo a que o antigo desapareça para dar lugar ao novo, que é o Reino de Deus.

A Segunda Leitura apela a que, enquanto esperamos a vida definitiva, não temos o direito de nos instalarmos na preguiça, alheando-nos das grandes questões do mundo. A esperança é gémea do compromisso. Quem espera o Reino de Deus é chamado a participar na sua construção. É por isso que, ao contrário do que se pensa, a esperança não é passiva, mas militantemente activa. A esperança não se limita a semear o bem, participando, desde logo, na denúncia do mal. Daí que Santo Agostinho tenha dito que a esperança tem duas filhas: uma chama-se indignação e a outra chama-se coragem. A «indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como elas estão; a coragem ensina-nos a mudá-las». Indignemo-nos quando for preciso e enchamo-nos de coragem sempre que for necessário. Ou seja, sempre!

 

C. «Escatologia» e «parusia»

 

5. O Evangelho apresenta-nos Jesus em Jerusalém, nos últimos dias antes da Paixão. Jesus está nos átrios do Templo com os discípulos. É precisamente a contemplação das belas pedras do Templo, que leva Jesus a esta catequese escatológica.

Tal catequese faz desfilar três momentos da história da salvação: 1) a destruição de Jerusalém, 2) o tempo da missão da Igreja e 3) a vinda do Filho do Homem. Tudo, por muita importância que tenha, é efémero. Só Cristo, «alfa e ómega» (Ap 22, 13), é definitivo. A Sua segunda vinda é o fim último da história. É por esta razão que à segunda vinda de Jesus se chama «parusia» e o fim último recebe o nome de «escatologia». A «parusia» acontece, pois, na «escatologia». E a essência da «escatologia» é a «parusia».

 

  1. O texto começa com o anúncio da destruição de Jerusalém (cf.Lc 21, 5-6). Jerusalém, lugar onde deve irromper a salvação de Deus (cf. Is 4,5-6; 54,12-17; 62; 65,18-25), é também o local da recusa da oferta dessa mesma salvação. Assim sendo, a destruição da cidade e do Templo significa que Jerusalém não tem o exclusivo da mesma salvação.

O Evangelho de Jesus não fica, portanto, confinado a Jerusalém. Vai ao encontro de todos os povos. Começa, por conseguinte, uma nova etapa da história da salvação: o «tempo da Igreja». É o tempo em que os discípulos levarão o Evangelho a todos os povos da terra.

 

D. Olhemos mais para a renovação do que para a destruição

 

7. Vem, a seguir, uma reflexão sobre o «tempo da Igreja», que culminará com a segunda vinda de Jesus (cf. Lc 21, 7-19). Como será esse tempo? Como vivê-lo? Em primeiro lugar, é fundamental ter um recto discernimento. É que hão-de surgir falsos messias a vaticinar o fim. Jesus avisa: «Não sigais atrás deles» (Lc 21, 8) porque «não será logo o fim» (Lc 21, 9).

Em vez de viverem obcecados com a data do fim, os cristãos devem empenhar-se numa vivência cada vez mais comprometida. Os cristãos são chamados a contribuir para a transformação do mundo. Evangelizar é transformar: não transformar o Evangelho, mas transformar o mundo a partir do Evangelho.

 

  1. Em segundo lugar, Jesus diz-nos o que acontecerá antes do fim. Mais do que olhar para os sinais de destruição, devemos fixar-nos no apelo à renovação. Tudo o que é velho acabará. Só que a renovação implicará resistências e, por isso, perseguições. As imagens apocalípticas fazem pensar: «povo contra povo e reino contra reino» (Lc 21, 10), «terramotos, fome e epidemias; fenómenos espantosos e grandes sinais no céu» (Lc 21, 11).

O que devemos reter é que, à medida em que o mundo velho for desaparecendo, um mundo novo irá nascendo. A consumação desse mundo novo acontecerá com a segunda vinda de Jesus: a tal «parusia».

 

E. Entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus

 

9. Em terceiro lugar, Jesus põe-nos de sobreaviso para as dificuldades e perseguições que nos acompanharão pelo tempo fora, até à segunda vinda de Jesus. A missão não é um passeio; é uma entrega da vida. E, nessa entrega, teremos de contar com todo o tipo de adversidades. Aliás, já Santo Agostinho notara que caminhamos entre «as perseguições do mundo» e «as consolações de Deus».

São estas consolações que nos animam e estimulam. Jesus assegura que nunca estaremos sós. Deus estará sempre presente quando damos testemunho d’Ele. É com a força de Deus que enfrentaremos os adversários e as adversidades. Até na própria família podem surgir traições (cf. Lc 21, 16)

 

  1. Acontece que, por causa de Jesus, vale a pena dar tudo, incluindo a própria vida. Mas será que estamos preparados para isso? Ser mártir é ser testemunha, é dar testemunho até ao fim. Ser mártir é estar disponível para enfrentar as contrariedades e para não ceder às dificuldades. A Igreja tem mártires e não tem ídolos porque se revê naqueles que o mundo persegue e não naqueles que o mundo aplaude.

Muitas vezes, temos de contar com o ódio. Mas vale a pena ser odiado por causa de Cristo (cf. Lc 21, 17). O Seu amor supera todo o ódio. Enfrentar as perseguições é, no fundo, acreditar mais nas consolações de Cristo do que nas promessas do mundo. E Cristo nunca nos faltará com a Sua sabedoria (cf. Lc 21, 15). Não se perderá quem por Cristo se perder. Pela nossa persistência nos salvaremos (cf. Lc 21, 19). Pela nossa fidelidade nunca desfaleceremos. Quem tudo der por Cristo, tudo receberá de Cristo!

publicado por Theosfera às 06:28

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