O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

1. No início, era mais o medo que a vontade, era mais o não-ser que o ser.

Confesso que, raciocínio de criança, o que eu mais queria não era tanto ser padre. O que eu mais queria era não ser militar.

 

2. Devo à guerra, coisa estranha, a primeira inclinação pelo sacerdócio.

Eram muitos os soldados que regressavam da guerra colonial directamente para o cemitério.

 

3. As lágrimas daquelas mães desaguavam, em catadupa, pelos meus quatro-cinco anos. «Também tenho de ir para o Ultramar?», perguntava à minha Mãe. «Todos os rapazes têm de ir. Só os padres é que não vão».

Afinal, nem era bem assim. Os padres até tinham de ir, como capelães. Mas fiquei aliviado. E senti um caminho traçado.

 

4. Nem o 25 de Abril alterou os meus planos.

A 10 de Maio de 1974, abri a minha alma numa folha de papel: «Quando for grande, gostava de ser padre. Não gostaria de desobedecer a Deus nem de ser um padre ruim. E gostaria de falar de Deus aos Homens, de ter gosto em fazer o bem e de ajudar os pobres».

 

5. Na altura, era gago profundo.

Os professores, pensando que me ajudavam, convidavam-me a repetir as palavras em que tropeçava até que elas saíssem sem interrupções.

 

6. Cheguei a pensar em ir para um convento. Mas, a pouco e pouco, decidi: um padre não é só para falar; é também — e bastante — para ouvir.

A gaguez, que perdura, foi-se espaçando. Até que deixei de me preocupar com ela.

 

7. O padre não se pertence a si mesmo, pertence a Cristo.

Tudo no padre fica tatuado por Cristo.

 

8. Daí que me considere um alienado. Pertenço a Cristo e, em Cristo, àqueles por quem Ele deu/dá a vida.

Não formei família para poder fazer parte da família de todos.

 

9. Vinte e cinco anos depois, continuo a gostar de ser padre.

Não são alguns desencantos que obscurecem o permanente encantamento pela missão que abracei.

 

10. Em relação ao que escrevi aos nove anos, só corrigiria a entrada. Na altura, queria ser padre quando fosse «grande». Hoje, noto que, quanto mais pequeno for, mais padre serei.

O importante é que Ele, Jesus, cresça e eu diminua (cf. Jo 3, 30). E Ele, Jesus, cresce sobretudo nos mais pequenos (cf. Mt. 25, 40)!

 

publicado por Theosfera às 10:39

De Maria da Paz a 29 de Julho de 2014 às 22:40
Rev.mo Senhor Doutor:

Do mal Deus tira o bem. Neste caso a vocação sacerdotal de V. Rev.ª!
Mas foi horrível!
Tantas vidas ceifadas, quando, antes, tudo estava em paz e na senda do progresso! Fomos espoliados das nossas Províncias Ultramarinas com grande dor e danos pesados e múltiplos. Quem lá nasceu ficou sem a sua terra, vendida pelos "vendilhões do templo" a potências com interesses inconfessáveis. Os que lá ficaram, na generalidade negros, viram-se reduzidos à miséria mais negra: fome, doenças sem possibilidade de tratamento. É que os médicos e enfermeiros de outrora vieram embora e os hospitais foram desmantelados ou foram caindo em ruínas. Sei disso por testemunho directo: o Hospital da ilha de Moçambique, um edifício imponente, onde nasceu uma pessoa de minha família e onde morreu outra pessoa da minha família, está completamente degradado. Faz dó! Vê-se na Net ". Tanta desgraça! Heróis foram os muitos Missionários que lá permaneceram, no nosso antigo Ultramar, a levar Deus a todos os desgraçados que lá ficaram. Alguns desses Padres Missionários morreram lá, mártires!
Cá, na Metrópole, os cadáveres dos combatentes e as lágrimas dos familiares. Heróis que não foram condecorados e que deram a vida pela integridade da Pátria, hoje reduzida a escombros. Hoje...«Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro... (Fernando Pessoa).
Graças a Deus pela vocação sacerdotal de V. Rev.ª!
Afectuoso abraço.
Maria da Paz


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