O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 26 de Abril de 2015

A. No princípio, está o Bom — e Belo — Pastor

  1. Eis como Jesus Se apresenta, hoje, diante de nós: como pastor. Todos conhecemos esta imagem, mas talvez ainda não tenhamos percebido devidamente o seu alcance. Jesus é o pastor que faz tudo para que as ovelhas estejam juntas. Por isso, arrisca deixar as 99 que estão no rebanho para ir à procura da que está perdida (cf. Lc 15, 1-7). E por essa «ovelha perdida» não tem amor menor. Se calhar, até passa a ter um amor maior. É curioso que, segundo o designado «Evangelho de Tomé», Jesus terá dito: «O Reino é semelhante a um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas extraviou-se e era a maior de todas. Ele deixou, então, as 99 e foi em busca daquela ovelha única até a encontrar. E, depois de a encontrar, disse-lhe: “Eu amo-te mais do que às 99"».

Não são os perdidos os mais carenciados? E os perdidos só serão recuperados através de um amor maior, de um amor total. Jesus é o pastor deste amor maior, deste amor total. Jesus é o pastor que dá a vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 11). Ele é o oposto do «mercenário», que «abandona as ovelhas e foge» quando o perigo espreita (cf. Jo 10, 12). Jesus conhece as Suas ovelhas e é conhecido por elas (cf. Jo 10, 14). Importa-Se com elas e faz tudo por elas. Não dá ordens, dá a vida: dá a Sua vida.

 

  1. É por isso que Jesus é «o Bom Pastor»(Jo 10, 11. 14). Ou, para ser mais rigoroso, o «Belo Pastor», como está no original. «Agathós» é a palavra grega que, habitualmente, se traduz por «bom». Mas o que está no texto é «kalós», que quer dizer «belo», embora, mais vastamente, também signifique «bom», «perfeito» e «verdadeiro».

Aliás, como nós aprendemos desde a antiguidade, o bom, o belo e o verdadeiro interagem entre si. Pelo que o bom é belo e verdadeiro, o belo é bom e verdadeiro e o verdadeiro é bom e belo. A beleza está na bondade e na verdade. A bondade está na beleza e na verdade. E a verdade está na beleza e na bondade. Dizer, pois, que Jesus é o Belo Pastor é o mesmo que dizer que Ele é o Bom Pastor e o Verdadeiro Pastor.

 

B. Ninguém tão belo como Cristo

 

3. A beleza é como uma porta que nos faz entrar no que é, autenticamente, importante. Aliás, Xavier Zubiri achava que «a beleza nunca é algo fechado». A beleza não está, primordialmente, na paisagem ou no rosto. A beleza está, antes de mais e acima de tudo, no gesto. É esta a beleza que, no dizer de Dostoiévsky, «salvará o mundo». E não foi por caso que o genial escritor russo apontou Jesus Cristo como o modelo do que é absolutamente belo. A absoluta beleza de Cristo está na Sua paixão, isto é, na Sua entrega, na Sua dádiva. Em suma, a beleza está mais presente quando mais parece ausente. À primeira vista, que beleza pode haver num corpo ferido? Mas foram essas feridas que nos salvaram (cf. Is 53, 5). Haverá beleza maior? Haverá beleza que se lhe possa comparar?

É por isso que, voltando a Dostoiévsky, «a humanidade pode viver sem ciência, pode viver sem pão, mas sem beleza não poderia viver nunca, porque não teríamos mais nada para fazer no mundo».

 

  1. Dá a impressão de que, hoje em dia, deixamos de dar a devida atenção ao belo. Em vez de tornarmos belo o que é feio, tornamos feio o que é belo. Franz Kafka reconheceu que «quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece». É preciso, por conseguinte, redescobrir a beleza onde ela está e não apenas onde ela se insinua. É imperioso reencontrar a beleza no gesto, na atitude, no comportamento.

Fazem falta gestos belos, atitudes belas, comportamentos belos. Não podemos confundir simplicidade com desleixo e má educação. Um certo aprumo no falar, no vestir e no agir podem fazer toda a diferença. É preciso dar mais valor ao porte do que à pose. Na vida, precisamos não só de uma filosofia, mas também (e bastante) de uma filocalia. O amor da sabedoria surge sempre irmanado ao amor pela beleza. Daí que, como alertou Bento XVI, seja decisivo fazer coisas belas tornando as nossas vidas lugares de beleza.

 

C. O modelo dos pastores

 

5. É esta a herança que Jesus nos deixou. Ele fez da Sua vida um imenso lugar de beleza. Ele quer fazer da nossa vida um interminável lugar de beleza. Haverá coisa mais bela do que dar a vida? Jesus é o Pastor bom e belo que dá a vida pelas Suas ovelhas. E a Sua maior ambição é unir as ovelhas num só rebanho (cf. Jo 10, 16).

Compreende-se, assim, que, todos os anos, o quarto Domingo da Páscoa seja o «Domingo do Bom Pastor». Em cada ano, neste Domingo, a Liturgia propõe à nossa consideração um pedacinho do capítulo 10 do Evangelho de S. João. Ele apresenta Cristo como o Pastor-modelo e, nessa medida, como modelo de todos os pastores. À semelhança do Pastor, os pastores não hão-de procurar o seu próprio bem, mas o bem do seu rebanho.

 

  1. Neste sentido, a Primeira Leitura afirma que Jesus é o único Salvador, já que «não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos»(Act 4, 12). Somos avisados para não nos deixarmos iludir por outras figuras, por outros caminhos, por outras sugestões que nos apresentam propostas falsas de salvação. Na Segunda Leitura, somos convidados a contemplar o amor de Deus pelo homem. Porque nos ama com um «amor admirável»(1Jo 3, 1), Deus insiste em ajudar-nos a superar a nossa debilidade e fragilidade. O objectivo de Deus é integrar-nos na Sua família e tornar-nos «semelhantes» a Ele (cf. 1Jo 3, 2).

Não custa perceber, portanto, que este Domingo tenha sido escolhido para Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Toda a vida há-de ser acolhida como resposta a uma vocação. Mas, como é óbvio, pensamos especificamente nas vocações para a missão. Não só neste dia, mas sobretudo neste dia, pedimos ao Senhor que faça desabrochar pastores à imagem do Bom — e Belo — Pastor. A humanidade precisa de pastores que, como Jesus, dêem a vida; que, como Jesus, estendam a mão aos que estão fora e apoiem os que já estão dentro; que, como Jesus, conheçam cada uma das ovelhas, indo ao encontro dos seus problemas e das suas necessidades.

 

D. Os pastores devem ser «mergulhadores», não «alpinistas»

 

7. Há muitos séculos, S. Gregório Magno era bastante incisivo a este respeito: «Não sejamos sentinelas silenciosas, mas pastores solícitos que velam pelo rebanho de Cristo, pregando a doutrina de Deus ao grande e ao pequeno, ao rico e ao pobre». De facto, o pastor não pode ser um gestor. Para ser testemunha no exterior tem de deixar transformar o seu interior.

Está aqui, aliás, a maior carência e, nessa medida também, a mais gritante urgência. Diz S. Gregório: «É necessário que o pastor seja puro nos seus pensamentos, inatacável nas suas obras, discreto no silêncio, proveitoso nas palavras, compreensivo para com todos, que se entregue à contemplação, que seja companheiro dos bons de uma forma humilde, firme na justiça contra os vícios. Importa que a ocupação das coisas exteriores não diminua o cuidado com as interiores e que estas não o impeçam de ver as exteriores».

 

  1. É necessário, por isso, que as portas estejam abertas: não só as portas das igrejas, mas sobretudo as portas da vida, as portas da alma, as portas do coração. A prioridade do bom pastor não é o seu bem-estar, mas o bem-estar das ovelhas. O Bom — e Belo — Pastor nunca nos faltará com pastores segundo o Seu coração (cf. Jer 3, 15). Ser pastor segundo o coração de Cristo não é ir apenas à frente. É também, como sugere o Papa Francisco, «estar disposto a caminhar no meio ou até atrás do rebanho». O pastor está à frente para conduzir, no meio para acompanhar e atrás para proteger.

A humildade não desclassifica o pastor. Pelo contrário, requalifica-o soberanamente. As ovelhas precisam não de quem dê ordens, mas de quem dê a vida. A proposta de Jesus é um crescimento no amor e não uma subida no poder. Assim sendo, o pastor deve ser mergulhador, não alpinista. A sua preocupação deve ser mergulhar nas profundezas da existência e não «subir na vida, para ter mais poder».

 

E. Ser padre é ser pastor, não patrão

 

9. Calando ou falando, a palavra do pastor nunca pode ser sobre si: nem sobre o que foi nem sobre o que fez. Na Igreja, o padre não está no centro. O padre não pode ser o protagonista. Ele é pastor, não é patrão.

O verbo que é chamado a conjugar não é o verbo «mandar», mas o verbo «servir». Os pastores não têm vida própria. Depõem a sua vida em casa. A vida das ovelhas passa a ser a vida dos pastores.

 

  1. Peçamos ao Eterno Pastor a graça de termos pastores à Sua imagem: pastores que transmitam as Suas palavras e difundam os Seus gestos. Peçamos ao Eterno Pastor a graça do bom entendimento entre pastores e ovelhas. Que os pastores nunca faltem às ovelhas com a verdade e com o amor. E que as ovelhas nunca faltem aos pastores com a oração e a comunhão.

Se ninguém estiver longe de Cristo, estaremos todos, pastores e fiéis leigos, próximos uns dos outros. Quem a Cristo não diz «não», a todos saberá dizer «sim»!

 

publicado por Theosfera às 08:00

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