O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 25 de Agosto de 2019

 

A. Porta estreita, mas não fechada



  1. O Evangelho diz que a porta é estreita (cf. Lc 13, 24), mas não diz que esteja fechada. Quando Jesus diz que a porta é estreita, não diz que esteja fechada ou que seja intransitável; pelo contrário, até nos convida a passar por ela;

Que porta é esta? É o próprio Jesus. Em João (10, 9), é o próprio Jesus que Se apresenta como sendo a porta. Trata-se de uma porta que não está aberta só para alguns; a porta da fé está aberta para todos. Jesus é o caminho que nos conduz até essa porta e é a chave que nos permite abrir essa porta. Todos têm lugar na Igreja. A Igreja não é para tudo, mas é para todos: é para todos os que queiram entrar.



  1. Como especialista em surpresas, Deus, pelos lábios de Jesus, assegura que a porta se abrirá para muitos que nós afastamos e se fechará para muitos que nós talvez bajulemos. O grande critério de selecção é a justiça, ou a falta dela. Muitos poderão estes alegar que comeram e beberam na presença do Dono da Casa, que é uma imagem de Deus. Mas a resposta não deixará de soar: «Afastai-vos de Mim, vós todos que praticais a injustiça» (Lc 13, 27).

Torna-se, aqui, bem claro que o culto é fundamental, mas o próprio culto reclama a vivência da justiça. Quem não reconhece Deus na pessoa dos outros não pode dizer que O conhece verdadeiramente. O conhecimento de Deus não se vê pela mente nem pelos lábios. O autêntico conhecimento de Deus vê-se — e testa-se sempre — pela vida, pela vivência.


B. Mais além do número



  1. Ninguém tem as portas fechadas à partida; nós é que podemos fechar as portas à chegada. Deus só sabe abrir; nós é que podemos fechar. Ainda bem que os critérios divinos são muito diferentes dos critérios humanos: «Haverá últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos» (Lc 13, 30).

Para Deus, os preteridos são os preferidos. Deus não olha para a condição, para o estatuto nem para a carteira. Ele olha para todos, ainda que muitos estejam no último lugar. A vontade de Deus é «reunir todos os povos» (Is 66, 18). Para Deus, não há exclusões baseadas na raça ou na posição social.



  1. Jesus dá a entender que o banquete do Reino é para todos. Ressalva, no entanto, que não há entradas garantidas nem lugares marcados. O Reino de Deus é para todos, mas não é para tudo. Ninguém é excluído e todos são convidados, mas isso não quer dizer que todos consigam entrar. É preciso fazer uma opção pela «porta estreita» e seguir Jesus.

Havia quem estivesse preocupado com o número. Alguém pergunta a Jesus: «Senhor, são poucos os que se salvam?» (Lc 13, 23). Haja em vista que, para os fariseus da época de Jesus, a salvação era reservada aos membros do Povo eleito. E nem todos os membros do Povo se salvariam.


C. É preciso cortar com certas adiposidades



  1. À questão do número, Jesus não responde com o número. Jesus até veio ao mundo para que todos se possam salvar. Por isso, fala de Deus como um Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhe a todos, especialmente os pobres e os débeis.

Isto significa, desde logo, que, não sendo um caminho intransitável, a salvação também não é um caminho fácil. Para Jesus, não é a facilidade que leva à felicidade. Um Cristianismo fácil não serve para uma vida difícil.



  1. Entrar no Reino é, antes de mais, esforçar-se por «entrar pela porta estreita» (Lc 13, 24). Esta imagem da «porta estreita» evoca a necessidade de renunciar a tantas adiposidades que aparecem. Pois também estas adiposidades dificultam o caminho para Deus.

Que adiposidades são essas? O egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio. Trata-se de tudo aquilo que impede o homem de optar pelo serviço, pela entrega, pelo amor, pela partilha, em suma, pelo dom da vida.


D. Só se senta com Jesus quem caminha com Jesus



  1. Para clarificar melhor o ensinamento acerca da entrada do Reino, Jesus recorre a uma parábola. Nela, o Reino é descrito como um banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (cf. Lc 13, 25-29). Quem se sentará, então, à mesa do Reino? Todos aqueles que acolheram o convite de Jesus à salvação e aceitaram viver uma vida de doação, de amor e de serviço.

Fica bem claro que não haverá qualquer critério baseado na raça, na geografia, nos laços étnicos. A única coisa que verdadeiramente conta é a adesão a Jesus. E que acontecerá àqueles que não acolheram a proposta de Jesus? Esses ficarão fora do banquete, ainda que se considerem superiores. Só se senta com Jesus quem está disposto a caminhar com Jesus.



  1. Já a Primeira Leitura defende que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. É nessa perspectiva que nos é dado contemplar uma visão de carácter escatológico. No mundo novo, todos são convocados por Deus para integrar o seu Povo.

O esquema apresenta várias etapas: no princípio, Deus virá para dar início à reunião de todas as nações (cf. Is 66, 18). Depois, dará um sinal e enviará missionários (curiosamente, escolhidos de entre os povos estrangeiros), a fim de anunciarem a glória do Senhor (cf. Is 66, 19). Em seguida, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém, (cf. Is 66, 20). Finalmente, o Senhor escolherá de entre os que chegam sacerdotes e levitas para O servirem (cf. Is 66, 21).


E. Todos são convidados; todos quererão entrar?



  1. Estamos num contexto em que não era fácil ter uma visão abrangente — e tolerante — sobre as outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus é algo que não soa bem aos ouvidos dos judeus da época.

Supremamente inconcebível é dizer que Deus vai escolher, de entre os estrangeiros, sacerdotes e levitas que entrem no espaço sagrado do Templo, reservado para o serviço do Senhor. Mas Deus é assim. Os Seus horizontes são vastos e as Suas vistas são largas. É por isso que, como cantávamos no Salmo Responsorial, Ele nos manda por todo o mundo, para toda a parte, junto de toda a gente.



  1. A porta da salvação está, pois, sempre aberta (cf. Act 14, 27). Esta é uma porta que nunca se fecha.

Mas atenção. Esta é uma porta em que não se entra aos empurrões nem aos encontrões. Não somos nós que definimos o modo como se entra; é Jesus. Não existe auto-salvação. A porta é também o porteiro. Só Jesus salva. Mas Ele quer que todos nos salvemos. Por isso Ele vem. Por isso Ele nunca deixa de vir. A porta está aberta. Também hoje. Também para nós!

publicado por Theosfera às 05:08

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