O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 04 de Novembro de 2018

A. A pergunta sobre o primeiro mandamento

 

  1. No meio de tantas leis, como discernir qual é a lei mais importante, a mais necessária e a mais urgente? Afinal, no meio de tantas leis, qual será a primeira lei? Foi essa a pergunta que fizeram a Jesus: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» (Mc 12, 28).

Aparentemente, a resposta até seria fácil. À partida, não seria muito difícil escolher um de entre dez.

 

  1. Sucede que a Lei (Thora) compreendia não só os Dez Mandamentos, mas tudo quanto estava inserido nos cinco primeiros livros da Bíblia: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio.

Foi a partir deles que os doutores da Lei chegaram a contabilizar 613 preceitos: 365 negativos, que estipulavam o que não se podia fazer, e 248 positivos, que apontavam o que se devia realizar. Uma coisa é escolher o maior de entre dez e outra coisa — bem diferente e bem mais difícil — é seleccionar o mais importante no meio de 613.


 

B. O segundo mandamento faz parte do primeiro

 

  1. Acontece que, na magistral resposta que dá, Jesus não só diz qual é o primeiro mandamento como aponta logo o segundo. Dá mesmo a entender que os dois só podem ser compreendidos — e vividos — em conjunto, em «pacote».

Jesus não deixa subsistir qualquer dúvida de que o amor a Deus está acima de tudo. Mas, ao colocar o amor ao próximo em estreitíssima ligação com o amor a Deus, mostra que é impossível amar a Deus não amando o próximo. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo e é inteiramente impossível amar o próximo sem amar a Deus. Dir-se-ia que o amor a Deus imprime o amor ao próximo e o amor ao próximo exprime o amor a Deus.

 

  1. É espantoso verificar como a acção contida neste duplo mandamento é o amor. Ou seja, o que Jesus espera de nós — para com Deus e para com o próximo — é o mesmo, é o amor. A prioridade não é o conhecimento, não é sequer o trabalho; é o amor. No fundo, o amor é a lei; no fundo, a lei é o amor. Que temos feito nós desta lei? Que estamos nós dispostos a fazer desta lei?

Se repararmos, o amor foi a lei que Jesus nos deixou pois foi a lei que Jesus sempre viveu. Trata-se de uma lei que se encontra esculpida no Mandamento Novo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 34). Só que a lentidão com que nós, cristãos, vivemos essa lei é exasperante. Nos começos, notava-se um grande entusiasmo à volta desta lei. Tertuliano dá-nos conta de que os outros, olhando para os cristãos, exclamavam: «Vede como eles se amam!» Ou seja, «vede como eles fazem o que dizem»; «vede como eles cumprem a sua lei».


 

C. A lei do amor consegue mais que o amor da lei

 

  1. Se a lei do amor fosse mais observada, as outras leis quase poderiam ser dispensadas. Já dizia Disraeli: «Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis». Com efeito, um homem honesto não precisa da lei para melhorar. Já um homem desonesto nem com a lei melhora.

Tudo isto certifica que obtemos mais com a lei do amor do que com o amor da lei. O mero amor da lei esquece, quase sempre, que a lei é um instrumento, não uma finalidade. A lei existe para proteger as pessoas, nunca podendo servir de pretexto para destruir pessoas. Importa ter presente que, como lembrou Luther King, «tudo o que Hitler fez na Alemanha foi legal». Arrepia, mas é verdade: há sempre vidas que vão sendo degoladas à luz da lei, na escuridão de certas leis.

 

  1. Jesus não veio revogar as leis, mas aperfeiçoar a Lei (cf. Mt 5, 17). E o critério de Jesus para aperfeiçoar a Lei foi sempre o amor. O amor deve ser vivido junto dos que pensam como nós e não deve esquecido junto dos que pensam diferente de nós.

Parafraseando Pedro Laín Entralgo, diria que é preciso ser «consensuante» mesmo com quem se mostra «discrepante». Assim, o crente amará os que merecem ser amados e não deixará de amar os que, não merecendo, também precisam de ser amados.


 

D. É impossível amar a Deus não amando o próximo

 

  1. Jesus está em sintonia com a Lei. Situa o amor a Deus no Livro do Deuteronómio 6, 5: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças».

E enquadra o amor ao próximo no Livro do Levítico 19, 18: «Amarás o próximo como a ti mesmo». Aqui, cita uma outra passagem da Lei.

 

  1. Se este segundo mandamento é semelhante ao primeiro, podemos concluir que ele não é apenas segundo, mas que também faz parte do primeiro. Sendo assim, o amor a Deus é realizado no amor ao próximo. É impossível amar a Deus não amando o próximo. Só amando o próximo mostraremos que amamos a Deus.

Aliás, já São João perguntava: «Quem não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus que não vê?» (1Jo 4, 20). Por isso — prossegue o mesmo apóstolo — «quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1Jo 4, 21).


 

E. Sem amor, não há nada; nem sequer há fé

 

  1. A ligação entre o amor a Deus e o amor ao próximo é tão estreita que São Gregório Magno entreviu aqui uma razão simbólica para Jesus mandar os discípulos em missão dois a dois. Mandou-os dois a dois porque «dois são os mandamentos, a saber, o amor a Deus e o amor ao próximo». No amor está tudo: está a Lei e estão os Profetas (cf. Mt 22, 40), isto é, está toda a Sagrada Escritura.

Por aqui se vê como Jesus vai muito mais além da pergunta que Lhe tinha sido feita. Ele deixa bem claro que é toda a Bíblia que está perfumada pelo amor: pelo amor a Deus e pelo amor ao próximo. A qualidade do nosso amor a Deus mede-se pela intensidade do nosso amor ao próximo. Se não há amor, não há nada, nem sequer há fé.

 

  1. É por isso que quem mais sabe a Lei não é quem mais a conhece, mas quem melhor a vive. É preciso viver o amor a partir da nascente, a partir de Deus. E Deus tem um amor de predilecção pelos mais necessitados. É quando nos damos a eles que mais nos damos a Ele, a Deus.

Afinal e como garante Jesus, «há mais alegria em dar do que em receber» (Act 20, 35). Até porque quando damos, somos presenteados com a alegria de quem recebe. Nunca recebemos tanto como quando damos tudo. Nunca recebemos tanto como quando nos damos totalmente!

publicado por Theosfera às 04:57

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