O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

1. No dia 25 de Abril, devia estar na escola. Mas estava em casa. Não por causa da Revolução. Mas por motivos de doença.

Estava a recuperar de uma queda que dei na tarde de 7 de Abril, Domingo de Ramos. Tendo fracturado o braço direito, estava impedido de escrever.

 

2. A primeira coisa que sei é que, até meio da tarde, não sabia de nada. Nem eu, nem a minha família, nem provavelmente os meus vizinhos.

A vida era diferente, muito diferente, há quarenta anos atrás. Os mais crescidos saíam cedo para o campo. Raramente se ligava o rádio a horas matinais.

 

3. Aquela quinta-feira estava, pois, a correr normalmente. Diria muito pacatamente. O país mudava, mas ainda nada se pressentia.

Outros tempos. Outra cadência. Outro ritmo, muito mais pausado, imensamente menos apressado.

 

4. Foi a minha Madrinha que, corria já a tarde para o fim, nos informou. Os meus nove anos advertiram o esgar de espanto dos mais crescidos, adivinhando alguma inquietação.

Que se passara? Que iria passar-se? As pessoas não viviam muito bem. Mas muitas delas nem ideia faziam do que seria viver melhor.

 

5. Sei que, naquela noite, ninguém tinha sono.

Apesar de cansados, ficámos à espera da proclamação da Junta de Salvação Nacional, repetidamente anunciada mas constantemente adiada.

 

6. Já passava da meia-noite quando surgiu o General António de Spínola. Do que ele disse não retive muito. Afinal, nove anos não davam para mais.

Mas nunca esqueci uma expressão que ele usou. Foi quando assegurou que iria manter «as normas da moral e da justiça». Acto contínuo, meu saudoso Pai levantou-se e disse: «Pronto, já nos podemos deitar. Vai tudo correr bem»!

 

7. Nem tudo correu bem como é óbvio. Mas a democracia também é isto mesmo: a possibilidade de reconhecer que nem tudo está bem e a oportunidade de o dizer abertamente.

De facto, a nossa democracia não têm sido só rosas. Aliás, até têm sido mais cravos com alguns espinhos pelo meio. Estamos num tempo novo, que não tem sido um tempo fácil.

 

8. Não creio que haja alternativa à democracia.

Continuo, porém, a crer que existirão sempre alternativas em democracia.

 

9. Na democracia, não pode haver exclusões: nem de pessoas, nem de ideias, nem de ideais.

Em democracia tem de haver lugar para todos e para tudo. Sobretudo para a educação, a saúde, a justiça, o respeito.

 

10. Ainda há muito por fazer. Ainda há bastante para aprender: com o tempo e com o povo. A democracia não está esgotada, embora às vezes pareça saturada.

Não comecemos a desistir nem desistamos de (re)começar. É urgente reabrir Abril. Que nunca se perca a pureza que brilhou naquela manhã!

 

(*) Esta é uma conhecida pergunta, popularizada, há anos, pelo jornalista Armando Baptista-Bastos.

publicado por Theosfera às 00:19

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