O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 25 de Junho de 2017

 A. A verdade? É mais difícil encobri-la do que descobri-la

  1. Luminosas — e soberanamente preciosas — são as recomendações que Jesus faz aos Seus discípulos de ontem e, neles, aos Seus discípulos de sempre. Retenhamos, desde logo, o convite para não ter medo. «Não tenhais medo dos homens» (Mt 10, 26). Não é fácil escapar totalmente ao medo. Mas é possível superar o medo. Uma consciência limpa e uma conduta recta são as melhores vias para vencer o medo.

 

Neste mundo, há muita gente que gosta das águas turvas e dos charcos lamacentos. Mas em tudo se faz luz. A mentira nada pode contra a verdade. Daí a certeza de Jesus: «Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se nem existe nada oculto que não venha a conhecer-se» (Mt 10, 26).

 

  1. Na sua sabedoria simples e na sua simplicidade sábia, o povo garante que «a verdade é como o azeite»: vem sempre à superfície, isto é, acaba sempre por se descobrir. Em relação à verdade, é, sem dúvida, mais difícil encobri-la do que descobri-la. É por isso que Jesus aposta na transparência: «O que vos digo às escuras, dizei-o em plena luz e o que escutais ao ouvido, proclamai-o nos telhados» (Mt 10, 27).

A verdade sobre Deus e sobre o homem não é para esconder, para encobrir ou para calar. A verdade é para circular por todos, não para estacionar em ninguém. Há, por vezes, uma certa sensatez que facilmente se confunde com cobardia. São Gregório Magno e São Bonifácio denunciavam, em tons ásperos, os que calavam a verdade que nos vem de Deus.

 

B. Jesus quer-nos inquietos, não aquietados

 

3. Jesus não nos quer acomodados no mundo. Jesus quer que, se for caso disso, incomodemos o mundo. Jesus não quer que nos aquietemos, mas que inquietemos. A paz de Jesus não é a paz do sossego ou a mera tranquilidade. Como, em tempos, lucidamente reconheceu a Eng. Lourdes Pintasilgo, a fé «é a paz da permanente inquietação». Evitemos, então, a cultura do sussurro, da delação e da murmuração. O que tivermos a dizer, digamo-lo às claras e aos próprios. Se tiver de ser, falemos do mal com alguém, mas nunca falemos mal de ninguém.

É certo que Jesus nos traz a paz. Mas — já o Concílio Vaticano II o notara — a paz de Jesus, a paz que é Jesus, é sobretudo obra da justiça. Sem justiça, não há paz. Enquanto não compreendermos — nem implementarmos — o estreitíssimo liame que existe entre a paz e a justiça, estaremos a contribuir para o adiamento das duas. Ficamos, assim, sem justiça e sem paz. A paz que só busca a tranquilidade para cada um é fruto do egoísmo. A paz não é solteira. Não podemos, por isso, «solteirizar» a paz. Só temos paz, quando oferecemos paz. E só oferecemos paz quando semeamos a justiça em que cresce a paz.

 

  1. Não é fácil ser discípulo. Daí a necessidade — o verdadeiro imperativo — de estar sempre ligado ao Mestre. O nosso falhanço pastoral começa — e termina — quase sempre aqui: na desligação do Mestre, no afastamento do Mestre. Isso acontece quando falamos de Jesus, mas não vivemos de Jesus, em Jesus ou com Jesus.

A prioridade do discípulo é andar com o Mestre (cf. Mc 3, 14). Só o encontro com Jesus desencadeia mais encontros em Jesus. A oração é sempre a grande «parteira» da missão. Não é em nosso nome que vamos. Não é em nosso nome que trabalhamos. Não é em nosso nome que missionamos. Vamos, trabalhamos e missionamos sempre em nome de Jesus.

 

C. Entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus

 

5. As leituras deste domingo mostram a dificuldade de viver como discípulo. Sugerem mesmo que a própria perseguição está sempre à espera do discípulo. Mas asseguram igualmente que o amor de Deus não abandona o discípulo que dá testemunho do Evangelho.

A Primeira Leitura apresenta-nos o exemplo de Jeremias. É o modelo do profeta sofredor, que experimenta a perseguição, a solidão, o abandono por causa da missão. Apesar disso, não deixa de confiar em Deus e de defender as propostas de Deus para os homens.

 

  1. No Evangelho, é o próprio Jesus que, ao enviar os discípulos, os certifica de que as perseguições são inevitáveis. Mas nessas perseguições, Ele nunca nos abandonará. Se as perseguições nos doem, a presença de Cristo conforta-nos muito mais.

No mundo, temos de contar com perseguições. Mas, no mesmo mundo, podemos contar também com consolações. Já Santo Agostinho reconheceu que, na vida, vamos caminhando por entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus.

 

D. Mais forte que todas as forças é Jesus

 

7. Não é por acaso que, por três vezes, neste pedaço do Evangelho, aparece o convite a não ter medo. Por três vezes, Jesus aparece a dizer: «Não temais», isto é, «não tenhais medo» (cf. Mt 10,26.28.31). Este apelo pressupõe situações de adversidade. Mas a força de Jesus é mais forte que todas as adversidades.

No fundo, o que Jesus diz corresponde à última Bem-Aventurança: «Bem-aventurados sereis quando, por Minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós» (Mt 5,12).

 

  1. Este convite a não ter medo vai acompanhado por três recomendações. Na primeira (cf. Mt 10, 26-27), Jesus pede aos discípulos que não deixem que o medo impeça a proclamação da Boa Nova. O discípulo tem de ser coerente e, por tal motivo, corajoso.

É preciso ter consciência dos obstáculos. E há que ter coragem para vencer tais obstáculos. Há que não ter medo dos riscos. Os nossos interesses e até a nossa vida podem ficar em perigo. Mas Jesus Cristo está acima de tudo. E não é suposto que um discípulo dê a vida pelo seu mestre?

 

E. Não recusemos dar o que Deus nunca recusou oferecer

 

9. É por isso que, na segunda recomendação (cf. Mt 10, 28), Jesus diz aos discípulos que não se deixem sequer vencer pelo medo da morte. Perigoso, embora doloroso, não é «matar o corpo», mas «matar a alma». É a morte da alma que temos de temer e evitar. Acontece que a vida eterna é um dom que Deus concede àqueles que aceitam dar a própria vida ao serviço do Reino. Os discípulos que percorrem com fidelidade o caminho de Jesus não vivem angustiados com o medo da morte.

Na terceira recomendação (cf. Mt 10, 29-31), Jesus convida os discípulos a crescer na confiança absoluta em Deus. Duas imagens são apresentadas: a dos pássaros de que Deus cuida (que revela a ternura e a preocupação de Deus por todas as criaturas) e a dos cabelos que Deus também contabiliza (que revela a forma única como Deus conhece o homem, até ao pormenor). Deus é assim descrito como um Pai repleto de amor.

 

  1. Sendo assim, haverá alguma razão para ter medo? A certeza de ser filho de Deus é, sem dúvida, o que mais alimenta a capacidade do discípulo em empenhar-se na missão. Nada — nem ninguém — consegue calar um discípulo que confia na solicitude, no cuidado e no amor de Deus Pai.

As últimas palavras (cf. Mt 10, 32-33) contêm, entretanto, uma séria advertência de Jesus. É a atitude do discípulo diante da perseguição que decide o seu destino último. Tudo fica clarificado à partida e à chegada. Aqueles que se mantiverem fiéis a Deus encontrarão a vida eterna. Já aqueles que procurarem proteger-se, calculisticamente instalados numa vida sem riscos, estão, por inerência, a recusar a mesma vida eterna. Ou seja, o dom pertence a Deus, a decisão pertence a cada um de nós. É a disponibilidade para a missão que nos abre as portas da salvação. O que dermos aos outros ser-nos-á dado também a nós. Não recusemos repartir o que Deus nunca recusou oferecer. Demos o que Ele nos deu. Nunca ganhamos tanto como quando damos tudo!

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publicado por Theosfera às 05:06

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