O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 12 de Novembro de 2017

A. Deus gosta de surpreender

 

  1. Que estamos a fazer das nossas lâmpadas (cf. Mt 25, 8)? Será que as nossas lâmpadas estão acesas? Ou não será que as deixamos fundir? Mas com as lâmpadas fundidas como podemos ver o Novo e o Noivo? Na vida, estamos sempre à espera do que é novo. Cansados da rotina, achamos que é a novidade que nos ilumina. Para nós, o novo é o Noivo. E o Noivo, que vem ao nosso encontro, é o Senhor (cf. Mt 25, 6). O Senhor é o Noivo que vem desposar a humanidade, por quem dá a vida, por quem oferece o Seu sangue. O Senhor é o Noivo que vem selar, com a entrega do Seu ser, uma aliança de amor com o mundo.

Nem sempre nos encontra preparados, porém. Nem sempre estamos atentos ou disponíveis. Não cuidamos do «azeite» (cf. Mt 25, 3), que é a escuta do Cristo do Evangelho e o seguimento do Evangelho de Cristo. Pensamos que controlamos o dia e a hora da vinda do Senhor. Só que, quanto a isto, somos cabalmente prevenidos. Não sabemos o dia nem a hora. O Senhor gosta de surpreender. Aliás, a Sua vinda está sempre a acontecer. O Senhor está sempre a vir ao nosso encontro. Nós é que nem sempre cuidamos de ir ao encontro d’Ele.

 

  1. Muitas vezes, deixamos que as nossas «lâmpadas» se apaguem (cf. Mt 25, 8). Muitas vezes, dormitamos e até adormecemos (cf. Mt 25, 5). Somos dominados pelo instante e pelo instinto. Faltam-nos horizontes largos e raízes fortes. Quando olhamos para o futuro, limitamo-nos ao nosso futuro, ao futuro neste mundo. Falta-nos, cada vez mais, o sentido da eternidade.

Trabalhamos para o curto prazo, para as conquistas imediatas. Esquecemos que, como decorre do Credo, somos feitos para a eternidade. Há um hino da Liturgia que nos aconselha a «trocar o instante pelo eterno». Mas nós, quase sempre, trocamos o eterno pelo instante.

 

B. Que atenção dispensamos à eternidade?

 

  1. Do credo cristão faz parte a vida eterna. Com o Símbolo dos Apóstolos, confessamos crer «na ressurreição da carne [e] na vida eterna». E, ao recitar o chamado Símbolo Niceno-Constantinopolitano, assumimos que esperamos «a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir». É por isso que não falta quem pense que a eternidade é o que mais distingue o crente do não-crente. Crente é quem acredita na eternidade e não-crente é quem não acredita na eternidade. E, no entanto, que lugar costumamos dar à eternidade?

Há quem não se iniba de proclamar que tudo se resume ao que se passa na terra. Afinal, que atenção damos ao Novo e aos Novíssimos? Será que nos comportamos como pessoas cujo horizonte é a eternidade? Ou não será que, à semelhança de muitos, investimos (quase) tudo no tempo da vida terrena?

 

  1. Eis um (flagrante) caso onde parece que abdicamos de ser alternativa, para nos limitarmos a ser redundância. Eis também uma situação que põe a descoberto um perigoso esvaziamento da nossa fé. Os nossos critérios aparentam ser os mesmos do mundo. O nosso limite parece ser o futuro, não a eternidade. Cuidamos do futuro e preparamos a nossa vida no futuro. Mas que cuidado dispensamos à vida eterna? Que fazemos para nos preparar para a vida eterna?

Há, entretanto, uma pergunta que deveríamos fazer. Que seria o futuro sem a eternidade? Seria um futuro encolhido. Sem eternidade, até o futuro passa, até o futuro (rapidamente) se torna passado. Não é no mundo que encontramos «cidade permanente» (Heb 13, 14). Neste mundo, tudo é breve. É preciso oferecer eternidade ao tempo e conduzir o tempo até à eternidade, que é o tempo para lá do tempo. Ou seja, estamos aqui, mas não somos daqui. Nem a morte é capaz de fechar o que a eternidade não se cansa de abrir. A «Jerusalém do Alto» também espera por nós (cf. Gál 4, 26).

 

C. O Novo e os Novíssimos

 

  1. É esta espera que fortalece a esperança. O Novo é fundamental para agir nos Novíssimos. É em Cristo, o sempre Novo, que, na Morte e no Juízo, nos ajudará a vencer o Inferno e a entrar no Paraíso. As «coisas últimas» são, assim, iluminados pelo «Último». É o «Último» (Jesus Cristo) que nos conduz até às «coisas últimas». A Escatologia, enquanto tratado das «coisas últimas», é, antes de mais e acima de tudo, encontro com o «Último». Na Escatologia, é o «éschaton» (Cristo) que ilumina as «éschata» (realidades últimas).

É para as «coisas últimas» que somos chamados e é pelo «Último» que somos conduzidos. Quando dizemos que o Cristianismo é, por natureza, escatológico, queremos vincar que somos convidados para habitar um mundo para lá deste modo e para viver num tempo para lá deste tempo.

 

  1. Daí que o fim deva ser visto não como destruição, mas como finalidade. É para o fim (como repetia Gandhi) que nós somos chamados. Isto nada tem de assustador. Isto tem tudo de motivador. Quando professamos que Cristo é o Alfa e o Ómega (cf. Ap 1, 8), afirmamos que Ele é o Primeiro e o Último. Assumimos que tudo foi feito por Ele e que tudo caminha para Ele.

Nesta época de vistas curtas e olhares embaciados, é vital que nos deixemos guiar por Cristo. É Ele que abre o que permanece fechado e que rasga o que mantemos entupido. Tudo é, pois, Novo com o Noivo. Vamos faltar às «núpcias» que Ele vem celebrar connosco?

 

D. Colheremos conforme semearmos

 

  1. A Igreja não quer deixar-nos na ignorância acerca do nosso fim. São Paulo, como ouvimos na Segunda Leitura, torna muito claro o que, à partida, nos parece mais obscuro. O que ele nos garante pode resumir-se nisto: quem com Cristo vive no tempo, em Cristo viverá na eternidade. O Último é como que o desabrochamento do que vivemos até ao penúltimo. Colheremos conforme semearmos.

Tal como ressuscitou Jesus, Deus também levará com Jesus os que tiverem morrido em união com Jesus (cf. 1Tes 4, 14). Por conseguinte, não há que ter medo. Deus é mais forte que a própria morte. Nem a morte mata quem vive em Cristo. Viver tem de ser, portanto, «cristoviver». Se «cristovivermos», «cristosobreviveremos», isto é, viveremos para sempre em Cristo.

 

  1. Cristo, que está sempre connosco, há-de vir para concluir a história humana. Ele veio (há muito tempo) e há-de vir (no fim dos tempos). A Parusia há-de ser, pois, fonte de esperança e de alegria. A última vinda de Cristo é a consumação da nossa terrena peregrinação. Quem estiver com Cristo encontrará a salvação (cf. 1Tes 4, 14).

Daí a importância da vigilância. A vigilância, vista com virtude escatológica, ajuda-nos a estar preparados para toda e qualquer vinda do Senhor. A preparação é como que uma acção antes da própria acção. Assim, sempre que Cristo vier, encontrar-nos-á atentos, vigilantes, em missão. A missão é a melhor preparação. Levar Cristo aos outros e trazer os outros para Cristo são as formas mais adequadas de prepararmos a Sua vinda. Levar Cristo e trazer para Cristo significa torná-Lo presente e vincar a urgência da Sua presença.

 

E. Não nos amedrontemos com o fim

 

  1. O Evangelho compara a vinda definitiva de Cristo a uma grande festa, à festa nupcial. O noivo que está para chegar é Cristo. As dez jovens representam a Igreja que, por entre consolações e perseguições, anseia pela Sua chegada. Acontece que, dentro da Igreja, há ainda quem não esteja atento nem preparado, apostando tudo neste mundo.

Não podemos afrouxar a vigilância nem enfraquecer o nosso compromisso. Cuidado, pois, com o comodismo, o adormecimento e o desleixo. É preciso renovar, em cada dia, o nosso compromisso com Cristo. A certeza de que Ele há-de vir é um estímulo para prosseguir.

 

  1. Não nos amedrontemos com o fim. É nele que acontece o grande festim. Para esse festim somos chamados. Para esse definitivo encontro estamos convidados. Nunca esqueçamos isto e sigamos sempre os passos de Jesus Cristo.

Até a morte Ele venceu. Por nós a Sua vida Ele deu. Na Sua morte, as portas da eternidade foram-nos abertas. Por isso, as razões da nossa esperança não são incertas. Nós somos portadores da mais bela certeza. Deus quer-nos ao Seu lado, à Sua mesa. No tempo e na eternidade, o nosso destino é (sempre) a felicidade!

publicado por Theosfera às 05:36

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