O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 06 de Janeiro de 2019

A. Quem não precisa de uma «estrelinha»?



  1. Todos nós sentimos que pouco conseguimos sozinhos. Na existência, não basta a competência. Precisamos também de uma «estrelinha»: não da «estrelinha da sorte», mas de uma «estrelinha» com luz forte. Foi esta «estrelinha» que os magos guiou e que ao seu destino os levou. Mais que no firmamento, esta estrelinha brilhou por dentro. Foi sobretudo no coração que esta estrela acendeu um grande clarão.

A estrela é o próprio Jesus. É Jesus quem nos conduz. É Jesus quem nos indica como O havemos de procurar e onde O podemos encontrar. Como os magos, ponhamo-nos a caminho pois a estrela não deixa ninguém sozinho. Só quem — como Herodes — se recusa a ver é que esta estrela poderá perder.

  1. Sigamos, então, a estrela. Afinal, o Deus que nos visita também Se deixa visitar, o Deus que vem ao nosso encontro também Se deixa encontrar: pelos de perto, como os pastores (cf. Lc 2, 16) e pelos de longe, como os magos (cf. Mt 2, 1).

Como bem notou São Paulo, todos, em Cristo Jesus, «pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma Promessa» (Ef 3, 6). Caem por isso os muros, só ficam as pontes. Todos estamos ligados a todos através do Pontífice, isto é, d’Aquele que faz as pontes: Jesus.


B. Número, nome e condição dos magos



  1. O Evangelho, com extrema parcimónia, fala-nos de «uns magos» (Mt 2, 1). Não refere nem o seu número nem o seu nome. Nem sequer diz que seriam reis. Foram assim chamados talvez pela alusão que o Salmo 72 faz aos reis que viriam pagar tributo e oferecer presentes (cf. Sal 72, 10). A designação de magos não aponta seguramente para artes mágicas, mas para o estudo dos astros.

Cedo, porém, a tradição entrou em campo. Quanto ao número, foi fácil chegar a três por causa dos presentes que levaram: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2, 11). Ouro porque aquele Menino era Rei, incenso porque aquele Menino era Deus e mirra porque aquele Menino iria ser Mártir. Remontará a esta oferta o costume de dar presentes nesta época natalícia. No que respeita à identidade dos magos, há um evangelho apócrifo arménio, datado do século VI, que refere o nome, a condição e a proveniência. Assim, Baltasar seria rei da Arábia, Gaspar seria rei da Índia e Melchior seria rei da Pérsia. Tal escrito também diz que seriam irmãos e que a viagem que fizeram teria demorado nove meses, chegando a Belém na altura do nascimento de Jesus.



  1. É claro que estes dados são fantasiosos, mas o certo é que se tornaram muito populares. Até um homem culto como São Beda Venerável dá voz, no século VIII, a pormenores que já estariam muito difundidos. Segundo um dos seus escritos, «Melchior era velho de 70 anos, de cabelos e barbas brancas. Gaspar era jovem, de 20 anos, robusto. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com 40 anos».

De acordo com uma tradição medieval, os magos ter-se-iam reencontrado quase 50 anos depois de terem estado com Jesus, em Sewa, na Turquia, onde viriam a falecer. Mais tarde, os seus corpos teriam sido levados para Milão. Aí permaneceram até ao século XII, quando o imperador alemão Frederico terá trasladado os seus restos mortais para Colónia.


C. Um mistério de mostração



  1. Acerca da estrela que viram, também tem havido não poucas conjecturas. Muitos têm identificado aquela estrela com o cometa Halley, que foi visto por volta dos anos 12-11 a.C. Também poderia ser uma luz resultante da conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C. Há ainda quem fale de uma «nova» ou «supernova», visível por volta dos anos 5-4 a.C.

Esta estrela pode ser vista como um símbolo messiânico insinuado já no livro dos Números, quando Balaão diz que «um astro procedente de Jacob se tornará chefe» (Núm 24,17). Também Isaías garante que «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria» (Is 9, 1).



  1. A verdadeira luz é o próprio Jesus. Ele mesmo Se apresentará como a luz do mundo (cf. Jo 8, 12). Mas esta luz só é acessível a olhares lisos e limpos. Só quem for puro e transparente conseguirá ver esta luz. Herodes não viu esta luz porque não queria deixar-se iluminar: estava corroído pela inveja e obstinado pelo poder (cf. Mat 2, 7-17).

A Epifania é, toda ela, uma festa de luz, de uma luz que ilumina toda a terra. Em Jesus, Deus manifesta-Se a todos, dá-Se a conhecer a todos. A Epifania não é, portanto, um mistério de demonstração, mas de mostração. E Deus mostra-Se de uma forma despojada e encantadoramente humilde.

 

D. Uma festa que chegou a englobar o Natal



  1. Aliás, é o que se depreende do magnífico conto de Sophia de Mello Breyner. Baltasar, em nome dos outros magos, foi consultar os homens da ciência e da política para que lhes dissessem onde estava o «Rei dos Judeus» (cf. Mt 2, 2). Decepcionado com a resposta, virou-se para os homens da religião. É que encontrara um altar dedicado ao «deus dos poderosos», outro ao «deus da terra fértil» e outro ao «deus da sabedoria».

Insatisfeito de novo, perguntou aos sacerdotes pelo «deus dos humilhados e dos oprimidos». Resposta dos sacerdotes: «Desse deus nada sabemos». Então Baltasar subiu ao terraço e «viu a carne do sofrimento, o rosto da humilhação». Deus estava ali, o Deus que os sacerdotes desconheciam.



  1. Não espantará, assim, que esta seja uma festa muito antiga, mais antiga que o próprio Natal. Aliás, houve uma altura em que a Epifania englobava também a celebração do nascimento de Jesus. De facto, não há notícia de uma festa específica do Natal nos primeiros tempos. A primeira vez que o Natal aparece mencionado no dia 25 de Dezembro é no ano 354.

São Clemente de Alexandria indica que uns celebravam o Natal a 28 de Março, outros a 19 ou 20 de Abril, outros a 20 de Maio ou, então, na festa da Epifania.


E. Um misto de aceitação, rejeição e indiferença



  1. Esta festa surgiu no Oriente, a 6 de Janeiro. Inicialmente, o seu conteúdo era variável e abrangente. Na Epifania, celebrava-se o nascimento de Jesus, as bodas de Caná e o Baptismo do Senhor. Muito depressa, o Ocidente incorporou esta festa, acrescentando-lhe a adoração dos magos.

De toda esta evolução resultou a actual estrutura do tempo natalício: Natal a 25 de Dezembro, Epifania a 6 de Janeiro e Baptismo do Senhor no Domingo depois da Epifania. No fundo, entre o Natal e a Epifania há um intercâmbio de significado. Celebra-se o mesmo em ambos os casos: a manifestação de Deus aos homens. No Natal e na Epifania, celebramos portanto a mesma Teofania.



  1. Desde o início, Jesus é adorado e também rejeitado. Diante de Jesus, diferentes personalidades assumem diferentes atitudes, que vão desde a adoração (os magos), até à rejeição (Herodes), passando pela indiferença. Esta última é a atitude dos sacerdotes e dos escribas, que não vão ao encontro desse Messias que eles bem conheciam dos textos sagrados.

Não basta, com efeito, conhecer Jesus, é fundamental ir ao encontro d’Ele para O anunciar. Ele vem para mudar os nossos passos. É por isso que os magos regressam à sua terra por outro caminho (cf. Mt 2, 12). Quando nos encontramos com Jesus, que é o caminho (cf. Jo 14, 6), os nossos caminhos são outros. Transformemos, então, a nossa vida. Convertamo-nos Àquele que Se converteu a nós, Àquele que Se fez um de nós. Façamos sempre como os magos: sigamos a estrela; nunca paremos de vê-la. Deus deixar-Se-á encontrar. E a felicidade em nós há-de brilhar!

publicado por Theosfera às 05:13

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