O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 06 de Outubro de 2019

A. Às vezes, parece que, mais do que falar, berramos com Deus

  1. Tantas são as vezes em que já nos apeteceu gritar como o profeta: «Até quando?» «Até quando, Senhor?» «Até quando, Senhor, clamarei sem que me escutes?» (Hab 1,2). Muitas são as vezes em que parece que Deus não fala. Muitas são as vezes em que parece que Deus não ouve. E, então, como Habacuc, gritamos a nossa impaciência. Mais do que falar, parece que berramos com Deus. Só nos momentos difíceis é que nos lembramos de Deus. Como não estamos dispostos a fazer a Sua vontade, protestamos quando, aparentemente, Ele não faz a nossa.

Também Habacuc passou por esta experiência. Também Habacuc ousou interpelar Deus. Também por Habacuc passou a interrogação que muitos não cessam de fazer: «Onde está Deus?» Habacuc não se limita a escutar a Palavra de Deus e a transmiti-la. Ele próprio toma a iniciativa, questionando Deus e exigindo respostas.

 

  1. Em resposta, Deus assume a Sua intenção de actuar no mundo, no sentido de destruir a morte e a opressão, mas dá a entender que só o fará quando for o momento oportuno. Ao homem, cabe esperar com paciência o «tempo de Deus». Então, à maneira de uma sentinela vigilante, o profeta fica à espera até que Deus responda. Finalmente, Deus digna-Se responder.

É preciso esperar e confiar. Deus não falta nem falha. É preciso, porém, compreender que Deus age quando quer e como quer e não quando queremos e como queremos. É fundamental, pois, respeitar os «prazos de Deus». E nos «prazos de Deus» o orgulhoso não triunfará. Quem triunfa é o homem justo. Enquanto uns «incham de orgulho», o justo vive pela fé (cf. Hab 2, 4).

B. Deus não é possuível

3. É precisamente sobre a fé que nos fala o Evangelho deste Domingo. Tudo começa com um pedido dos apóstolos: «Aumenta em nós a fé» (Lc 17, 5). Isto significa, desde logo, que eles têm consciência de que a fé não é inata, mas também não é conquistada.

A fé é um dom, uma oferta de Deus. É Deus quem no-la dá. É Deus quem no-la pode fazer crescer. Sem Deus, não há fé. A fé consiste em viver segundo Deus. É por isso que ela é uma virtude teologal, ou seja, é uma forma de viver segundo Deus.

 

  1. Quando os discípulos Lhe pedem para aumentar a fé, Jesus dá-lhes a entender que a fé que eles tinham nem sequer pequena era. Bom seria se eles tivessem fé como o «grão de mostarda» (Lc 17, 6). Sucede que o «grão de mostarda» é uma coisa pequena. Só tendo consciência da nossa pequenez é que podemos crescer. Também na fé, é pela humildade que se faz o caminho do crescimento.

Quem se julga detentor de uma «fé grande» não está em condições de crescer. Aliás, não somos nós que temos fé; a fé é que nos tem, é que nos há-de ter. Deus não é possuível. Ninguém possui Deus. Ele é que é nosso Senhor.

C. Na fé, não agimos por nós, agimos em Deus

5. Por conseguinte, a fé situa-se no campo da doação, da entrega. Pelo que, como reparou Tomás Halik, apenas «uma fé que aguenta o fogo da Cruz sem bater em retirada» será semelhante ao Deus que «é representado por Aquele que foi crucificado».

É esta a fé que nos dá coragem para optar pelo «caminho do altruísmo, da não-violência e do amor generoso». Daqui se segue que quem segue Jesus não deve esperar conforto nem aplauso, mas sacrifício e, «por vezes, até o sacrifício supremo». Não deve o discípulo ser como o seu Mestre (cf. Lc 6, 40)?

 

  1. Compreende-se, assim, que o Evangelho nos convide a aderir, integralmente, ao projecto de vida que, em Jesus, Deus veio oferecer ao homem. A fé consiste precisamente nessa adesão ao projecto de Deus. É uma resposta à Sua proposta.

A partir de tal adesão, os discípulos deixam de agir por si próprios. Daí que se devam considerar «servos inúteis» pois apenas «fizeram o que deveriam fazer» (Lc 17, 10). O problema é quando não fazemos o que devemos. Nessa altura, nem «inúteis» somos!

D. Não há impossíveis quando há fé

7. A primeira parte do Evangelho é constituída por uma afirmação sobre a fé (cf. Lc 17, 5-6). É importante enquadrar este texto no seu contexto. Depois das exigências que Jesus apresentou para entrar no Reino de Deus — e que ouvimos nos domingos pretéritos —, é compreensível que a reacção dos discípulos seja pedir que lhes fosse aumentada a fé. Eles tinham noção de que, por si, não estavam em condições de satisfazer tão grandes exigências.

A fé aparece-nos sobretudo no âmbito pessoal. Acima de tudo, a fé é a adesão a Jesus e ao Seu projecto, isto é, ao projecto do Reino por Ele anunciado. Pedir a Jesus que aumente a nossa fé significa, portanto, pedir-Lhe que aumente a nossa coragem de optar pelo Evangelho.

 

  1. Entretanto, Jesus aproveita a oportunidade para recordar aos discípulos os frutos da fé. A ordem dada à amoreira para se arrancar da terra transferindo-se para o mar mostra que, com a fé, tudo é possível. Daí que aderir a Jesus Cristo signifique ter a possibilidade de mudar a história, mesmo quando essa mudança parece impossível. Nem o impossível consegue vencer a fé.

Na segunda parte do Evangelho (cf. Lc 17, 7-10), São Lucas descreve a atitude que o homem deve assumir diante de Deus. Os fariseus estavam convencidos de que bastava cumprir os mandamentos da Lei para alcançar a salvação. Se o homem cumprisse as regras, alcançaria a salvação.

E. Não fechemos o nosso coração: só se ouve bem com ele

9. É claro que é importante cumprir a Lei. Mas não basta a Lei. É urgente ver mais fundo e chegar mais longe. A salvação consiste em (procurar) ser como Cristo, vivendo como Ele, dando a vida como Ele.

O que Jesus nos pede é que percorramos, com coragem e alegria, os caminhos do Evangelho. Quando o discípulo aceita percorrer esse caminho, é capaz de realizar obras de espanto. E, deste modo, sentir-nos-emos felizes, porque servos humildes de Deus. Não há felicidade maior. Não existe sequer felicidade igual.

 

  1. Procuremos, então, escutar a voz do Senhor. Não Lhe fechemos o nosso coração. Por vezes, as portas do nosso coração estão surdas, pesadas. Só se ouve bem com o coração.

Abramos o nosso coração a Deus e não o fecharemos a ninguém. Aquilo que Deus abre, ninguém pode fechar. Há muitos corações fechados neste mundo. Deixemos que Deus abra o nosso coração. Escutemos sempre o Senhor Deus. E portemo-nos, toda a vida, como bons filhos Seus!

publicado por Theosfera às 05:21

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