O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014

A. Quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra

  1. No princípio, era a Palavra. No princípio, era o Silêncio. Antes de o tempo começar a ser tempo, a Palavra em silêncio e o Silêncio estava na Palavra. Na «plenitude dos tempos»(Gál 4, 4), quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra. Motivo? Só em silêncio é possível contemplar a Palavra. Só em silêncio é possível acolher a Palavra da vida, a palavra de tantas vidas. Só em silêncio é possível mergulhar na vida da Palavra, na vida de tantas palavras.

Foi o eterno silêncio de Deus que fecundou o eloquente silêncio de Maria. É este silêncio que, hoje, respiramos. É neste silêncio que, em cada dia, devíamos morar. Tudo mudou quando o Silêncio falou. As trevas sobressaltaram-se. A noite acordou. Toda a natureza — e não apenas o galo — cantou. A manhã despontou. E o Salvador chegou.

 

2. Eis, como dizia Sto. Agostinho, «o dia feliz, em que o grande e eterno Dia, procedente do grande e eterno Dia, veio inserir-se neste nosso dia temporal e tão breve». Neste feliz dia, nasceu Jesus e nascemos nós com Jesus. O Natal é a festa do nascimento de Jesus e do nosso próprio nascimento. Nós nascemos quando Ele nasceu. O nascimento de Jesus é o nascimento de todo o corpo de Jesus, do qual nós fazemos parte (cf. 1Cor 12). Assim sendo e como notou S. Leão Magno, «o aniversário da cabeça é o aniversário do corpo». O Natal também é nosso. Enfim, o Natal é a festa universal porque é o acontecimento total.

  1. O Evangelho evoca a geração do Filho de Deus desde toda a eternidade. E, como refere o Prefácio II da Missa de Natal, «o que foi gerado desde toda a eternidade começou a existir no tempo». O que foi gerado no seio do Pai veio até nós pelo seio de Maria. E foi assim que, como já notavam os escritores cristãos mais antigos, «Um da Trindade Se fez Um de nós». O amor de Deus, o amor que é Deus, não cabe em Deus e explode na criação. O «big bang» terá sido realidade e é seguramente sinal: sinal de um amor que explode permanentemente no mundo.

 

B. Deus, que está no alto, visita-nos cá em baixo

 

3. É por tudo isto que este é o dia tão esperado. Este é o dia por nós tão esperado porque, nele, celebramos a vinda ao mundo do Inesperado. Deus não só vem ao encontro do homem, como Ele próprio Se faz homem. E não somente Se faz homem como Se faz homem pobre, homem simples, homem frágil. O sinal de Deus não é a opulência nem a ostentação. O sinal de Deus — dizem os enviados do Céu — é um Menino, «envolto em panos e deitado numa manjedoura»(Lc 2, 12).

Guilherme de Saint-Thierry dá uma explicação muito luminosa para tal opção: «Deus viu que a Sua grandeza suscitava no homem resistência. Então, Deus escolheu um caminho novo. Tornou-Se um Menino. Tornou-Se dependente e frágil, necessitado do nosso amor. Agora — diz-nos aquele Deus que Se fez Menino — já não podeis ter medo de Mim, agora podeis apenas amar-Me».

 

  1. Deus, que habita no alto, visita-nos cá em baixo. Aparece não como rei poderoso, mas como criança indefesa. Deste modo, se quisermos encontrar Deus, é para baixo que devemos olhar. Deus está no alto (cf. Lc 2, 13), mas quer ser encontrado em baixo. É a partir de baixo que Deus nos olha. Deus não olha para nós, sobranceiramente, de cima para baixo. Deus olha para nós — divinamente — de baixo para cima. E é lá em baixo que continua à nossa espera: lá, nas profundidades da existência, onde a pobreza abunda, onde a injustiça avança, onde a solidão e o abandono não param de crescer.

Por isso, é urgente fazer o bem, também hoje. Por isso, é fundamental ser bom, sobretudo hoje. De resto e como apelava António Gedeão, «hoje é dia de ser bom». Acontece que este hoje é um dia sem ocaso, pelo que fazer o bem e ser bom hão-de constituir uma prioridade para sempre.

 

C. Uma explosão de divindade, uma lição de humanidade

 

5. Este é o dia que não tem fim. É o dia que jamais anoitece e em que até o frio nos aquece. É o dia em que os céus se abriram, em que os anjos saíram e melodias se ouviram. Não é o simples dia que sucede à noite. É o dia que rebenta com as correntes que a escuridão armou durante a noite. Este é o dia que começou ainda de noite. Compreende-se, pois, que este seja o dia que começamos a celebrar ainda de noite. Este é o dia que sentimos despontar quando ainda era noite. Este é o dia destinado a iluminar todas as nossas noites. Este é — numa palavra — o dia.

Eis a lição do presépio. O silêncio de Deus, que falou em Belém, continua a clamar nos pobres deste mundo, nos injustiçados desta vida. Quem não os ouve a eles, como pode dizer que O escuta a Ele? Aquele Menino é tão divino que até quis ser humano. Aquele Menino é tão humano que só pode ser divino. O Deus que está naquele Menino humaniza-Se e diviniza-nos. Ele não nos retira humanidade. Pelo contrário, a Sua divindade acrescenta-nos humanidade.

 

  1. É por isso que o Natal é uma explosão de divindade e, ao mesmo tempo, uma persistente lição de humanidade. É com Deus Menino que o mundo aprenderá a ser mundo e a humanidade reaprenderá a ser humana, fraterna. É com Deus Menino que o mundo se transformará numa luminosa Filadélfia, isto é, um povo de amigos, um povo de irmãos.

A tragédia do nosso tempo é a desumanidade entre os homens. E para esse pecado concorrem não somente os não crentes. Os crentes também não lhe são imunes. Muitas são as vezes em que não têm sido capazes de encontrar Deus no homem. Deus é muito mais humano que os homens.

 

D. Em Belém e na nossa vida também

 

7. Não nos cansemos de fixar o olhar no presépio. Aquele Menino é tão santo que só consegue provocar encanto. É tão cheio de mansidão que os nossos joelhos caem logo em adoração. O Seu rosto destila tanta pureza que até os antípodas aspiram o perfume da Sua beleza. Enfim, a Sua imagem desperta tal ternura que nem há palavras para descrever tamanha formosura.

O Menino está ali. Mas eu sinto-O sobretudo aqui. Vejo Jesus agora e não deixo de O rever lá fora. Ele está na rua, na minha história e também na sua. Está no sofredor, naquele que estende a mão e mendiga amor. Está no pobre, no que não tem pão. Está em quantos vão penando na solidão. O Seu tempo nunca é distante pois a Sua presença é constante. O Seu lugar não é só em Belém, é na nossa vida também. Ouçamos sempre a Sua voz. E nunca deixemos de O acolher em cada um de nós.

 

  1. Este é o autêntico «dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e, livres, habitamos a substância do tempo». Neste dia, o tempo surpreende a eternidade dentro de si. Sophia tem mesmo razão: «A casa de Deus está assente no chão». É reconfortante beijar a imagem do Menino nestes dias, mas não é menos encantador abrigar o mesmo Menino, que nos visita em cada dia. Ele está em todos. Ele veio para todos. Rejeitar alguém é rejeitar o próprio Deus, presente nesse alguém. É que os outros também são Seus, também são d’Ele, também Lhe pertencem. E, no entanto, até nestes dias de Natal há tanto Jesus rejeitado, há tanto Jesus esquecido.

Razão tem João Coelho dos Santos ao colocar nos lábios de Jesus este lamento: «Senta-se a família/ À volta da mesa./ Não há sinal da cruz,/ Nem oração ou reza./ Tilintam copos e talheres./ Crianças, homens e mulheres/ Em eufórico ambiente./ “Lá fora tão frio, Cá dentro tão quente!”/ Algures esquecido,/ Ouve-se Jesus dorido:/ Então e Eu,/ Toda a gente Me esqueceu?”».

 

E. Hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia

 

9. De facto, às vezes — muitas vezes —, parece que esquecemos Jesus até na época em que assinalamos o nascimento de Jesus. Esquecemos Jesus quando esquecemos aqueles para quem Jesus nasceu. Esquecemos Jesus quando nos fechamos aos outros. Esquecemos Jesus quando nos encerramos nas torres (pretensamente) fortificadas do egoísmo e da indiferença. É triste ver que há muitos Natais longe do Natal. É penoso sentir que há muitos Natais aquecidos à lareira, mas arrefecidos no coração.

São muitos, sem dúvida, os encantos do Natal. Há presépios lindos. Há presépios deslumbrantes. Há presépios originais. Há presépios surpreendentes. E até há presépios ao vivo. Faltam, contudo, presépios vivos, que, a bem dizer, são os únicos presépios necessários. São esses que são construídos não nas ruas ou nas casas, mas no coração humano: no meu, no seu, no nosso, enfim, no coração de todos os homens.

 

  1. O Natal é saboroso quando temos a casa cheia e a mesa farta. O Natal é belo quando é sonhado. O Natal é lindo quando é cantado. O Natal é encantador quando é tingido de frio e regado de neve. Mas o Natal é melhor quando é vivido, partilhado, abraçado, chorado, humanizado, fraternizado, assumido e projectado no mundo inteiro. Em cada dia, há sempre motivos para respirar o perfume do Natal. Afinal, no Natal, o futuro nasceu e até justiça choveu. Só o impossível desapareceu no preciso instante em que aconteceu. Deus veio ao mundo. Acampou na terra para eliminar o ódio e acabar com a guerra. Trouxe, como única veste, a paz e é imensa a alegria que a todos nos traz. Veio em forma de criança. Haverá quem fique indiferente a tanta esperança? Naquele dia, colocaram-No numa manjedoura, perto do chão. Mas, desde então, a Sua morada passou a ser o nosso coração!

Não desliguemos a luz que Deus acende em nós neste dia. Deixemos brilhar a luz do Natal em cada dia. E nunca esqueçamos que, hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia. Um feliz Natal hoje. Um feliz Natal sempre. Para todos, um santo, luminoso e muito abençoado Natal!

publicado por Theosfera às 00:54

De Maria da Paz a 26 de Dezembro de 2014 às 00:55
Rev.mo Senhor Doutor:
Muito bem-haja pelo muito que aprendo com as profundas e sábias reflexões de V. Rev.ª Como eu gostaria de corresponder, tornando-me verdadeiramente coerente com o que aprovo inteiramente, mas não sou capaz de pôr em prática. E a responsabilidade aumenta com o conhecimento: como hei-de eu responder perante Deus, se não sou nem generosa nem indulgente, nem bondosa, como V. Rev.ª me ensina em tudo quanto escreve e que é a verdadeira doutrina de Jesus? Os pobres, os desprotegidos, os que têm fome ( e na minha mesa de Natal nada faltou)! Eu não consigo ir para a rua e ajudar pessoas sem abrigo, eu não consigo desfazer-me do que possuo para dar aos pobres... Vou fazendo algum bem; mas é tão poucochinho e tão prova da minha falta de rasgo na generosidade, que não sei se Deus o aceita. No fundo, fica-me o travo amargo do egoísmo que não sei (ou não quero) vencer. Deus me perdoe. A falta de coerência é um pecado terrível. DE que vale ir à Igreja, rezar, se não tenho Caridade? (Bem sei que agora estou doente; mas há pessoas doentes que "esquecem" a própria doença para acudir, com toda a alma, aos outros. E, até há algum tempo, eu nem estava doente. (Apenas uma certa fragilidade física que é uma "pesada herança" de uma pessoa de família. Mas essa foi uma grande Mãe e uma pessoa generosa, afectuosa e simpática para com todas as pessoas.
As minhas mais afectuosas saudações e agradecimentos.
Maria da Paz.

De Maria da Paz a 26 de Dezembro de 2014 às 00:57
Rev.mo Senhor Doutor:
Muito bem-haja pelo muito que aprendo com as profundas e sábias reflexões de V. Rev.ª Como eu gostaria de corresponder, tornando-me verdadeiramente coerente com o que aprovo inteiramente, mas não sou capaz de pôr em prática. E a responsabilidade aumenta com o conhecimento: como hei-de eu responder perante Deus, se não sou nem generosa nem indulgente, nem bondosa, como V. Rev.ª me ensina em tudo quanto escreve e que é a verdadeira doutrina de Jesus? Os pobres, os desprotegidos, os que têm fome ( e na minha mesa de Natal nada faltou)! Eu não consigo ir para a rua e ajudar pessoas sem abrigo, eu não consigo desfazer-me do que possuo para dar aos pobres... Vou fazendo algum bem; mas é tão poucochinho e tão prova da minha falta de rasgo na generosidade, que não sei se Deus o aceita. No fundo, fica-me o travo amargo do egoísmo que não sei (ou não quero) vencer. Deus me perdoe. A falta de coerência é um pecado terrível. DE que vale ir à Igreja, rezar, se não tenho Caridade? (Bem sei que agora estou doente; mas há pessoas doentes que "esquecem" a própria doença para acudir, com toda a alma, aos outros. E, até há algum tempo, eu nem estava doente. (Apenas uma certa fragilidade física que é uma "pesada herança" de uma pessoa de família. Mas essa foi uma grande Mãe e uma pessoa generosa, afectuosa e simpática para com todas as pessoas.
As minhas mais afectuosas saudações e agradecimentos.
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