O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 03 de Julho de 2016

A. Na missão a iniciativa é (sempre) de Cristo

  1. Acabamos de ouvir um texto que reconduz à sua natureza a vocação, tantas vezes torpedeada por não poucos equívocos. Fica claro, por exemplo, que ser padre não é questão de candidatura, mas de chamamento. A iniciativa não é nossa, é de Cristo.

Não existe, pois, autarquia vocacional. Na raiz, ninguém é padre porque quer, mas porque Cristo quer que ele seja. Não é alguém que decide ser padre; é Cristo que decide que alguém seja padre. É Cristo que, através do Seu novo Corpo que é a Igreja, faz uma proposta e espera uma resposta. Aquele que quer ser padre decide querer o que Cristo quer para ele. Ou seja, faz sua a vontade de Cristo.

 

  1. São várias as vezes em que o Evangelho refere que Jesus chamou e enviou em missão. São Lucas, no texto que escutámos, diz que Jesus «designou setenta e dois discípulos» (Lc 10, 1). Não restam, portanto, quaisquer dúvidas. A iniciativa é de Jesus, não dos discípulos. De resto, se assim não fosse, ficaria em causa o conceito de discípulo. Discípulo é o que segue o Mestre, é o que obedece ao Mestre, é o que faz o que diz o Mestre.

Curiosamente, já no Antigo Testamento sobejam várias expressões desta livre — e sumamente libertadora — dependência. O profeta Isaías, escutando o chamamento, põe-se à disposição de Deus: «Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-me» (Is 6, 8).

 

B. Não é o discípulo que escolhe o Mestre;

o Mestre é que escolhe o discípulo

  1. Ninguém é discípulo porque quer ou para fazer o que quer. O discípulo existe porque Deus quer e para fazer o que Deus quer. É por isso que, às vezes, Deus contraria frontalmente as pretensões dos discípulos. Basta olhar para o pedido que, através de sua mãe, Tiago e João fizeram a Jesus (cf. Mt 20, 20-23). Jesus recusa o que eles querem (o poder) e propõe-lhes algo completamente diferente (o serviço).

Só assim se compreende que a Igreja seja de Jesus. Pertencer à Igreja significa pertencer a Jesus. Fazer parte da Igreja significa fazer parte do novo Corpo de Jesus (cf. 1Cor 12).

 

  1. Nunca esqueçamos, pois, a origem, a raiz e a matriz da relação entre Mestre e discípulo. Não é o discípulo que escolhe o Mestre; é o Mestre que escolhe os discípulos. Uma vez mais, Jesus tornou tudo muito claro: «Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e vos destinei» (Jo 15, 16).

A relação entre o Mestre e o discípulo não é meramente funcional. Trata-se de uma relação verdadeiramente simbiótica. O discípulo não é apenas aquele que faz o que o Mestre manda. O discípulo é aquele que incorpora em sua vida a vida do Mestre. O discípulo é aquele que procura ser como o Mestre (cf. Lc 6, 40). O discípulo é o que ama como o Mestre; é o que serve como o Mestre; é o que está disposto a morrer como o Mestre, com o Mestre e pelo Mestre.

 

C. Porquê 72 discípulos? E porquê dois a dois?

 

5. O número 72 não está aqui por acaso. Note-se que, segundo a tabela do Livro do Génesis 10, o número de povos era 72 (embora haja contagens que se cifram nos 70). Assim sendo, a mensagem que Jesus pretendia passar era a Sua vontade de chegar a todos os povos. Daí o sinal de um discípulo por cada povo.

Jesus sempre quis chegar a todos os lugares (cf. Lc 10, 1). Por conseguinte, depois de ressuscitar, deixou bem vincada a universalidade da missão: «Ide por todo o mundo» (Mt 28, 19). É por isso que Jesus compara o mundo a uma seara, para a qual os trabalhadores são poucos (cf. Lc 10, 2).

 

  1. Neste caso, porquê a necessidade de pedir ao «Dono da seara que mande trabalhadores para a Sua seara» (Lc 10, 2)? Precisamente para que cada um veja a realidade e mostre disponibilidade para ser enviado se for essa a vontade do «Dono da seara».

Uma vez mais, fica bem claro que é ao «Dono da seara» que cabe mandar trabalhadores para a «seara». Não é a nós que cabe decidir quem vai trabalhar na «seara»; é a Deus: só a Deus, sempre Deus.

 

D. Os obstáculos na missão

 

7. E porque é que enviou os discípulos dois a dois? São Gregório Magno dá uma explicação muito expressiva. Segundo ele, Jesus enviou os Seus discípulos dois a dois por que «dois são os mandamentos, a saber, o amor de Deus e o amor do próximo». Jesus manda os discípulos em missão dois a dois para nos dizer que «quem não tiver amor para com os outros, de modo algum deve assumir o ofício da pregação». De facto, sem amor, não pode haver missão. Afinal, quem não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus que não vê? (cf. 1Jo 4, 20)?

No plano simbólico, encontramos nesta entrada do capítulo 10 de São Lucas uma poderosa afirmação da universalidade e do conteúdo da missão. A missão em nome de Cristo é para chegar a toda a gente. E, junto de toda a gente, é para levar o amor a Deus e o amor ao próximo.

 

  1. Seguidamente, Jesus avisa acerca das dificuldades da missão. Ninguém esteja à espera de aplausos. Se houver muitos aplausos, é sinal de que talvez a missão não esteja a seguir os critérios de Jesus. Jesus faz questão de notar que os discípulos são enviados «como cordeiros para o meio de lobos» (Lc 10, 3). Trata-se de uma imagem que, no Antigo Testamento, descreve a situação do justo no meio dos pagãos (cf. Eclo 13,17). Neste caso, expressa a situação do discípulo fiel no meio da hostilidade do mundo.

Aparece, depois, uma exigência de pobreza e simplicidade: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforge, nem sandálias (cf. Lc 10, 4). Isto significa que a força da missão não reside nos meios materiais, mas no testemunho. Por sua vez, a indicação de não saudar ninguém pelo caminho (cf. Lc 10, 4) indica a urgência da missão. O apelo a que não andar de casa em casa (cf. Lc 10, 7) sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não procurar condições de conforto.

 

E. O discípulo não trabalha; deixa Cristo trabalhar nele

 

9. Qual deve ser, entretanto, o primeiro anúncio dos discípulos? Eles devem começar por anunciar “a paz” (cf. Lc 10, 5-6). Não se trata aqui, apenas, da saudação habitual entre os judeus, mas do anúncio da paz messiânica do Reino. É o anúncio de um mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade. Ou seja, é tudo aquilo que está incluído na palavra hebraica «shalom».

Sintomaticamente, Jesus usa palavras muito severas para quem rejeitar a mensagem e os seus mensageiros (cf. Lc 10, 11-12). É uma forma de dizer que a rejeição do Evangelho traz consequências negativas para a nossa vida.

 

  1. Os discípulos partiram e voltaram. Partiram com determinação e voltaram «cheios de alegria» (Lc 10, 17). A missão traz sempre alegria. Levar Jesus em cada dia é levar a maior alegria. No entanto e apesar do êxito da missão, Jesus põe os discípulos de sobreaviso. O êxito da missão não se deve aos discípulos, deve-se a Cristo que vai com os Seus discípulos.

Não hesitemos, pois. Ponhamo-nos à disposição de Cristo. Mais do que trabalhar, deixemos que Cristo trabalhe em nós. Sejamos o Seu eco, a Sua voz. É a Sua presença que, na vida, faz toda a diferença!

publicado por Theosfera às 07:08

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