O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 03 de Setembro de 2017

A. Os discípulos nem sempre sabem tudo sobre o Mestre

  1. Para avançar, temos, por vezes, de recuar. Propunha, por isso, que voltássemos um pouco atrás. Que voltássemos um pouco atrás no tempo e que voltássemos um pouco atrás no texto. Retomemos, então, o final do texto que, no passado Domingo, nos era proposto na proclamação do Evangelho. É quando Jesus «ordena aos Seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias» (Mt 16, 20).

Pode parecer estranho que, estando os discípulos destinados a falar de Jesus (cf. Lc 10, 16), surja uma ordem que proíbe tal missão. Sucede que, também na missão, deve existir um tempo de calar antes de falar. Diria até que, como alerta Ruben Alves, na missão deve haver cursos não só de oratória, mas também — e sobretudo — de escutatória.

 

  1. Mas porque é que Pedro e os outros discípulos não podiam dizer que Jesus era o Messias (cf. Mt 16, 20)? O problema é que eles já sabiam muito, mas ainda precisavam de aprender mais. A concepção dos discípulos sobre o Messias era não só diferente, mas também oposta à concepção de Jesus.

Para eles, Jesus era um Messias triunfador e haveria de ser aquele que iria libertar o povo de Israel da ocupação romana. Ou seja, Jesus seria não um servidor, mas um lutador e um potencial dominador. Na cabeça de Pedro e dos outros discípulos, um Messias vinha para ser servido, não para servir. Nem, muito menos, para sofrer e ser morto (cf. Mt 16, 21).

 

B. Jesus também foi «escândalo» para Pedro

 

3. É por isso que, antes de Pedro ser fonte de escândalo para Jesus, Jesus também é fonte de escândalo para Pedro. Não foi só Pedro a ser um estorvo para a missão de Jesus. Jesus também parecia ser um estorvo para as ambições de Pedro (cf. Mt 20, 21). Tudo somado, percebe-se que Pedro ainda não estivesse preparado para falar de Jesus.

Decididamente, à pergunta «quem é Jesus?» não se responde com os lábios, só se responde com o testemunho de vida. Só conhece Jesus quem procura fazer sua a vida de Jesus, quem está disposto a dar a vida como Jesus.

 

  1. Jesus não Se encaixava, portanto, nas expectativas de Pedro acerca de Jesus e do messianismo de Jesus. Aconteceu a Pedro o que, tantas vezes, acontece a nós: queremos um Jesus à nossa imagem, à nossa medida. De facto, há por aí tantos Cristos que estão longe de Jesus, do autêntico Jesus, do inteiro Jesus.

Essa foi a grande tentação de Pedro. Também ele estava focado em si, preocupado consigo. Estaria, sem dúvida, a pensar na libertação de Israel da ocupação romana, mas não deixaria de pensar em algum lugar importante para si. Aliás em Mt 19, 27, ele faz a pergunta directa: «Nós que deixámos tudo, que recompensa teremos?» E também ele ficou indignado por a mãe de Tiago e João solicitar os dois principais lugares para os filhos no reinado de Jesus (cf. Mt 20, 21).

 

C. Jesus não tem lugares para distribuir

 

5. Todavia, Jesus é muito claro. Ele não tem lugares para assegurar nem sinecuras para distribuir. Ele tem uma proposta para fazer: segui-Lo. E quem O seguir terá de estar preparado para beber do Seu cálice (cf. 20, 23). Isto é, terá de estar preparado para a condenação e até para a morte. Enfim, Jesus não vem para dominar, mas para servir e ensinar a servir (cf. Mt 20, 28).

Só que os discípulos ainda não estavam preparados. E Pedro vai mesmo ao ponto de repreender Jesus: «Deus Te livre de tal, Senhor. Isso não Te há-de acontecer» (Mt 16, 22). O certo é que Jesus — que pouco antes elogiara Pedro — aparece agora a censurar o mesmo Pedro: «Vai-te da Minha frente, Satanás!» (Mt 16, 23).

 

  1. Pedro comportara-se como um acusador, que é o significado etimológico de Satanás, «aquele que acusa». Jesus parecia afastar-se daquilo que Pedro considerava ser o mais autêntico conceito de Messias.

Pedro, que há pouco estava inspirado por Deus, agora parece estar permeável a Satanás. Razão tem, pois, S. Paulo quando recomenda a quem está de pé para ter cuidado já que depressa pode cair (cf. 1Cor 10, 12). E ninguém está livre de uma queda.

 

D. Ser discípulo é ir atrás (não à frente) do Mestre

 

7. Creio que foi Lutero quem avisou que onde Deus constrói uma «igreja», o diabo constrói uma «capela». A função do diabo é a que decorre da etimologia do seu nome: separar. A sua pretensão é, em tudo, separar-nos de Deus. É importante, pois, que estejamos precavidos.

É evidente que, como adverte S. Paulo, «nada nos separará do amor de Deus» (Rom 8, 38). Mas só em Jesus Cristo estaremos unidos a Deus. Sem Ele, como Ele avisou, nada podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Sem Ele, não valemos nada. Sem Ele, não somos nada.

 

  1. Pedro, que andava perto de Jesus, ainda não estava próximo de Jesus. Não espanta, por isso, que, com linguagem dura (como, muitas vezes, é a linguagem da verdade), Jesus ponha Pedro no seu lugar, ou seja, no lugar de discípulo. Dizer «sai da Minha frente» equivale a dizer «põe-te atrás de Mim». Só assim é que o discípulo segue o Mestre, pois se o discípulo for à frente do Mestre, como é que poderá olhar para o Mestre? Não é o discípulo que tem de mostrar o caminho ao Mestre; o Mestre é que tem de mostrar o caminho ao discípulo.

Caso contrário, o discípulo tropeça e pode levar outros a tropeçar. O objectivo do discípulo é seguir em frente com o Mestre e não pôr-se à frente do Mestre. Se se colocar à frente do Mestre, bloqueia o caminho. Só o Mestre sabe a direcção do caminho. Só o Mestre é o caminho (cf. Jo 14, 6). O caminho do discípulo há-de ser sempre o caminho do Mestre.

 

E. Não há cristão sem Cristo e não há Cristo sem Cruz

 

9. O que se espera de um discípulo é que seja fiel, fiel ao seu Mestre (cf. 1Cor 4, 1). Pedro não estava a ser fiel. E, sem fidelidade, Pedro não era pedra de construção, mas pedra de tropeço, pedra de escândalo (cf. Mt 16, 23). «Escândalo» significa precisamente tropeço, aquilo que dificulta o caminho.

Tantas vezes, isto (nos) tem acontecido. Tantas vezes, isto (nos) pode acontecer. Nem Pedro escapou à tentação. No «chek up» que Jesus faz a Pedro e, em Pedro, a todos os discípulos, a doença que mais avulta é o egoísmo. A maior doença do discípulo é não dar a Deus o lugar que merece: o lugar primeiro, o lugar central.

 

  1. Jesus, ao revelar Pedro ao próprio Pedro, não oculta as suas debilidades. Mas aponta logo o meio para as superar: sair de si mesmo. Se o problema do discípulo são os interesses pessoais, a solução é renunciar a esses interesses: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo» (Mt 16, 24). O maior adversário do discípulo pode ser ele mesmo quando se desliga de Cristo. Ao contrário do que achava Jean-Paul Sartre, o inferno não são os outros. Como bem notou o Abbé Pierre, «inferno é viver sem os outros», contra os outros.

O discípulo é aquele que não vive de si nem para si; é o que faz sua a vida do Mestre (cf. Gál 2, 20). Sucede que a totalidade de Cristo inclui a Cruz. Não há cristão sem Cristo e não há Cristo sem Cruz. É preciso pegar na Cruz todos os dias (cf. Mt 16, 24). A Cruz foi onde Cristo disse totalmente não a Si, para dizer totalmente sim ao Pai (cf. Mt 26, 39). Neste contexto, menos que tudo é nada. Se Deus Se dá totalmente a nós, é de esperar que nós nos demos totalmente a Ele e, n’Ele, aos irmãos. Deus é quem mais irmana os homens. Deus é quem mais faz de nós irmãos. Façamos, pois, da vida uma festa de encontro. Deixemo-nos encontrar por Deus. E nunca deixemos de nos reencontrar em Deus!

publicado por Theosfera às 05:44

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