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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015

É difícil haver uma interacção simbiótica entre a vida e a obra. Por vezes, há muitas contradições. Paul Jonshon ficou célebre por ter apontado algumas.

Não é, porém, o que, a meu ver, se passa com Immanuel Kant.

Tudo o que vê na sua bibliografia encontra-se na sua biografia. Esta faz transparecer o rigor, a disciplina, a exigência e o aprumo da sua conduta.

Quem lê o opúsculo de Thomas de Quincey, sobre os últimos dias do filósofo, fica impressionado com o perfil da sua pessoa e do seu quotidiano.

A poucos dias da morte, ocorrida a 12 de Fevereiro de 1804 e já completamente sem forças, fazia questão de se pôr de pé quando o médico entrava no seu quarto.

Levantava-se sempre às cinco menos dez e deitava-se, invariavelmente, às dez da noite.

O pequeno-almoço era, pontualmente, servido às cinco. Nele, não faltava um cachimbo, o único por dia.

Pelas 12h45, era chamado para almoçar, habitualmente com mais pessoas. O início da refeição era sempre o mesmo: «Meus senhores, vamos lá!».

 Muito contido, só se exasperava se alguém se atrasasse. Mas, para Kant, o atraso de um minuto era quase imperdoável.

Após o convívio da refeição, seguia-se a solidão do passeio. Passeava sozinho não só por causa da meditação que gostava de fazer, mas também para praticar a respiração pelas narinas, que não podia concretizar se tivesse de abrir a boca para falar. Achava que, assim, era mais imune a tosses, rouquidão, catarro, etc.

Tinha cada dia planeado mentalmente e, por vezes, por escrito. Não gostava de abandonar a sua rotina.

O seu salário como professor de Filosofia permitiu-lhe acumular uma pequena fortuna para a época (20.000 dólares), mas Kant foi sempre dadivoso.

Não dava esmolas a pedintes na rua, mas chegava a pagar, do seu bolso, pensões mensais a familiares, empregados e outros carenciados.

Apesar de comedido, era estimado. Quando vinha do médico, as imediações da sua casa chegavam a inundar-se de pessoas só para o ver.

O seu funeral, muitos dias após a morte, foi o maior de que havia memória em Konisberg.

Igual a si mesmo, Kant mostrou-se fiel a si próprio. Não se desviou do caminho que traçou. Foi um aristocrata na mais nobre acepção da palavra.

É difícil ler a obra de Kant. Não é fácil imitar a vida de Kant.

A sua obra justifica atenção. A sua vida merece muita admiração.

Não sei se terá sido, como alguns alvitram, o homem mais inteligente desempre. Mas foi, seguramente, uma das pessoas mais notáveis de todos os tempos.

Elaborar uma obra como a Crítica da Razão Pura está ao alcance de poucos. Corporizar uma existência como a dele também não é coisa que se veja em muitos.

Kant foi um mestre de exepção. E um exemplo invulgar.

publicado por Theosfera às 00:57

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