O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 01 de Abril de 2018

A. As novidades transmitem-se a correr 

  1. A manhã da Ressurreição foi uma manhã de agitação. A manhã daquele dia foi uma manhã de correria. Maria Madalena corre até junto de Pedro e do Discípulo Amado para lhes dizer que tinham tirado a pedra do túmulo (cf. Jo 20, 2). Por sua vez, Pedro e o Discípulo Amado também correm para conferir o que, efectivamente, se tinha passado no túmulo (cf. Jo 20, 4). Quando souberam que Jesus tinha ressuscitado, Maria Madalena e a «outra Maria» foram igualmente a correr dar a notícia aos discípulos (cf. Mt 28, 8).

Compreende-se que assim tenha sido. Compreende-se que tenha havido toda esta «correria pascal». As novidades transmitem-se a correr. E tudo era novo naquela manhã. São João tem o cuidado de anotar que aquele era não um «outro dia», mas o «primeiro dia» (cf. Jo 20, 1). Tratava-se do «primeiro dia» não de uma nova semana, mas de uma nova vida.

 

  1. À semelhança do que aconteceu na primeira criação (cf. Gén 1, 3-5), também a primeira obra de Deus na nova criação é a luz. Segundo o relato do Livro do Génesis, a terra no início estava escura (cf. Gén 1, 2). Também agora e apesar de já ser manhã — altura em que já costuma haver alguma luz —, «ainda estava escuro» (Jo 20, 1).

Só que onde estava escuro não era no exterior; era no interior. Era dentro de Maria Madalena — e de todos os outros — que persistia a escuridão.


 

B. Não houve um assalto, mas um salto

 

  1. Maria Madalena e os outros discípulos ainda não se tinham apercebido de que o dia já começara a brilhar. Naquele momento, ainda não lhes tinha ocorrido que aquele túmulo não estava vazio, mas aberto.

Vazios pareciam estar eles: vazios de fé, vazios de ânimo, vazios de esperança. Ainda era noite no seu íntimo. Para eles, a pedra retirada do túmulo (cf. Jo 20 1) era sinal de um assalto, não de um salto. Mas o que tinha havido não era o assalto ao corpo de um morto, mas um salto da morte para a vida.

 

  1. Só que continuava a ser escuro para todos, como se deduz do plural usado no relato de João: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde O puseram» (Jo 20, 2). O estado de desorientação é total.

Sem Jesus ou com um Jesus morto, não há orientação possível. De resto, é impressionante notar como, nestes nove versículos, a palavra «túmulo» é mencionada sete vezes. O que domina é, pois, a ideia de que Jesus está morto. Há uma atitude de procura, mas trata-se da procura de um Jesus morto.

C. O túmulo não estava vazio, mas aberto

 

  1. Eis o que nos pode acontecer: anunciar Jesus, mas um Jesus sem vida. Nessa altura, é preciso correr ao encontro do próprio Jesus (cf. Jo 20, 4). Só junto de Jesus se faz luz. Só junto de Jesus se faz luz sobre Jesus. Não é Jesus a luz (cf. Jo 8, 12)? Por conseguinte, só junto de Jesus aprendemos a crer em Jesus e a conhecer Jesus.

O Discípulo Amado, que estivera com Jesus até ao fim (cf. Jo 19, 26), vai à frente. Pedro, que não esteve com Jesus até ao fim, vai atrás. É por isso que, como bem notou D. António Couto, Pedro tem de seguir quem seguiu Jesus. Na Igreja inteira, o amor tem a dianteira. O Discípulo Amado chega primeiro ao túmulo: inclina-se, vê, mas não entra (cf. Jo 20, 6). Porque o amor é paciente (cf. 1Cor 13, 4), é capaz de esperar até por aqueles que vacilam no amor.

 

  1. Os dois discípulos, em correria, perceberam, finalmente, o que acontecia. No túmulo, os panos que envolveram o corpo de Jesus estavam no chão e o lenço que Ele tivera na cabeça encontrava-se cuidadosamente dobrado, noutro sítio (cf. Jo 20, 5.7). Vêem e acreditam (cf. Jo 20, 8). Começam, finalmente, a entender o que, até então, não tinham entendido (cf. Jo 20, 9). No fundo e como observa D. António Couto, o túmulo não estava vazio, mas cheio, cheio de sinais: não cheio de sinais de morte, mas cheio de sinais de vida. Os ladrões não teriam o cuidado de dobrar o lenço da cabeça de Jesus. Não é costume dos ladrões deixar as coisas em ordem quando assaltam.

    Mas há ainda outra razão para que os discípulos tenham entendido o que se passou. É que a posição do lenço na mesa constituía uma mensagem do senhor para o seu servo. Este nunca tocava na mesa antes de o senhor ter terminado a refeição. E como é que ele saberia que o senhor terminou? Precisamente pela posição do lenço. Se o senhor colocasse o lenço amarrotado queria dizer: «Eu terminei». Mas se deixasse o lenço dobrado ao lado do prato, o servo continuava a não tocar na mesa, porque aquele lenço dobrado queria dizer: «Eu voltarei!»

     

     D. Foi Deus que tirou a pedra do túmulo

     

    7. Os discípulos viram, acreditaram e perceberam a mensagem que vinha do túmulo. Jesus tinha voltado. Isto significa que aquilo que se passou no túmulo não foi acção humana, mas obra divina. O túmulo foi aberto por Deus. A pedra foi removida por Deus. A morte foi vencida por Deus. Não esqueçamos que, segundo Mateus, foi um anjo do Senhor que desceu do Céu e retirou a pedra (cf. Mt 28, 2)Foi Deus que tirou a pedra do túmulo

Deus «desamarra» Jesus de todas as «amarras». É Deus que «desliga» Jesus de todas aquelas «ligaduras». É então que se faz luz nas escuras vidas dos discípulos. Faz-se luz sobre a Ressurreição e faz-se até luz sobre a morte. Nem a morte eliminou Jesus. A Sua vida não foi interrompida, mas transfigurada. A morte de Jesus é uma morte «morticida», uma morte que mata a morte. Não elimina a vida; ilumina a vida.

 

  1. Os discípulos ainda não tinham entendido que Jesus devia ressuscitar dos mortos. Também lhes fora difícil perceber que Jesus tinha de morrer para ressuscitar. Ou seja, só agora começavam a abarcar o sentido daquela morte e desta ressurreição. Compreenderam, finalmente, o sentido das palavras do Mestre. Ninguém Lhe tinha tirado a vida; era Ele que dava a vida (cf. Jo 10, 18).

Aquela morte não era um termo da vida, mas uma oferta da vida. Esta ressurreição não era um regresso à vida, mas um ingresso na Vida: na vida que vence a morte. Nós que, tantas vezes, sentimos que vamos morrendo na vida, encontramos assim sentido na própria morte.


 

E. Sempre em Páscoa

 

  1. Vivamos, por isso, em Páscoa e não apenas no dia de Páscoa. Não basta haver um dia de Páscoa. É preciso que haja toda uma vida de Páscoa. É urgente que todas as nossas vidas sejam vidas de Páscoa.

É a vida de Páscoa que dá sentido ao dia de Páscoa, ao tempo de Páscoa.

 

  1. A Páscoa está no tempo para nunca deixar de estar na vida. A Páscoa não cansa. Não cansa nem dá descanso. É preciso fazer como os discípulos da primeira hora. É preciso sair e correr, a toda a pressa, para anunciar Jesus.

Digamos, então, a todos que aquele que foi à morada dos mortos continua vivo. Até aos mortos Ele dá vida. É Jesus que nos faz viver. É por Jesus que nem na morte havemos de morrer!

 

publicado por Theosfera às 05:42

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