O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 24 de Dezembro de 2017

A. O Natal já está perto de nós. E nós já estaremos perto do Natal?

 

  1. Está quase. Está quase a chegar o momento. Está quase a chegar o momento do grande acontecimento. O Natal está perto de nós. Deus já fez tudo. Deus já preparou tudo e há muito tempo. Deus já nos enviou o Seu melhor presente. Deus já nos ofereceu o Seu Filho.

Mas onde está Jesus no Natal? Ou, melhor, onde estamos nós no Natal? O Natal já está perto de nós. Mas será que nós já estamos perto de Natal? Ou não será que, quanto mais o Natal se aproxima de nós, mais nós nos afastamos do Natal? Não terá chegado o momento de «renatalizar» o Natal?

 

  1. Estamos quase no Natal, mas, com tanta correria, até parece que já chegamos ao Carnaval. Já nem sequer falta o recurso às máscaras. Neste caso, a máscara dominante é a do Pai Natal. Onde está Jesus no Natal? Onde estamos nós no Natal? Jesus está presente no Natal. Nós é que, muitas vezes, nem no Natal estamos em modo de Natal.

Será que atravessamos o Advento? O Advento termina neste dia. Mas, para muitos, nem sequer terá chegado a começar. O Natal só começa logo à noite, mas alguns até dão a entender que o Natal acaba logo à noite.

 

B. Como chegar ao Natal sem atravessar o Advento?

 

  1. Há quem atravesse o Advento sem se aperceber do Advento. Mal finda o Verão e os sinais de Natal já cá estão. Mas que Natal será este, antes do Advento e sem Advento? Há quem atravesse o Advento saltando de festa em festa, sem parar, sem reflectir, sem mudar. O Advento não é, obviamente, ausência de alegria. Mas é o Natal que desponta como plenitude da alegria. Sucede que toda esta sofreguidão em torno do Natal tem vindo a obscurecer completamente o significado do Advento.

Até nós, cristãos, acabamos por embarcar na corrente.  Afinal, estamos «no» mundo e, por vezes, esquecemos que não somos «do» mundo (cf. Jo 15, 19). É certo que celebramos o Natal de Jesus. Mas será que nos lembramos de preparar o Natal com Jesus? Há muitas antecipações do Natal e pouca preparação para o Natal. Ou será que já não percebemos que o Advento não existe para antecipar o Natal, mas para preparar o Natal?

 

  1. A preparação para o Natal não devia ser feita só pelo estômago nem aos pulos. Não é com «festivais de comida» nem com espectáculos sem fim que nos preparamos para o nascimento de Jesus. Sem Advento, haverá Natal? Sem o silêncio do Advento, estaremos preparados para sorver o silêncio do Natal?

É raro pensarmos nisto, mas o Natal é um luminoso mistério de palavra e silêncio. Ao contrário de nós, que passamos a vida a falar no meio de ruído, Deus só falou uma vez e no meio do silêncio. Como notou São João da Cruz, Deus só pronunciou uma Palavra: o Seu Filho, o Seu Verbo. E pronunciou-A em silêncio. Tanto assim que nós nem A ouvimos. Para nós, a palavra é sobretudo som e quase sempre ruído. Mas, em Cristo, Deus ensina-nos que a palavra também pode ser dita (e não apenas ouvida) em silêncio.

 

C. Natal em modo Carnaval?

 

  1. Que lugar estamos a dar ao silêncio? Era bom que, entre nós, também pairasse algum silêncio (até) para podermos escutar o grande silêncio de Belém. De facto, tão simples — e tão belo — é escutar. Mas é cada vez mais raro calar. Nestes dias de agitação, parece que já espatifamos o silêncio da meditação. Desaprendemos totalmente de ouvir e já mal sabemos calar.

Acontece que a palavra é tão preciosa que nunca deveríamos desperdiçá-la. A palavra não é só para usar. Deveria ser também — e bastante — para guardar. Se as palavras estão constantemente a sair de nós, que se pode, de relevante, encontrar em nós? Só a palavra que não é banalizada merece atenção cuidada. O problema é que, nesta vida tão intensa, o silêncio não goza de boa imprensa. Só se fala de quem fala. Quem fala de quem (se) cala? Para muitos, calar é não ser, é quase não existir.

 

  1. Como vamos, então, chegar ao Natal? Com o estômago cheio e a alma vazia? Será que temos o direito de alterar o Natal? O Natal é que nos devia alterar, a nós. Deus enviou o Seu Filho, não para que tudo continue na mesma, mas para que tudo seja diferente.

O Natal é o dia em que nunca anoitece. No Natal, até de noite é dia. O Natal é o dia em que a luz nunca escurece e em que até a escuridão parece brilhar. É o dia em que o céu desce à terra e a terra sobe ao céu. É o dia em que os extremos se tocam e os contrários se abraçam. É o dia em que «o lobo habita com o cordeiro» (Is 11, 6); em que até «a criança de peito brinca na toca da víbora» (Is 11, 8). É o dia em que os poderosos não mandam. É o dia em que um «menino nos conduz» (Is 11, 6).

 

D. Deus só pronunciou uma palavra e em silêncio!

 

  1. O Natal inaugura o dia em que os mais estranhos se entranham. É o dia em que Deus vem morar com o homem. A Primeira Leitura fala-nos de uma casa (cf. 2Sam 7, 4). Maria foi a casa que Deus escolheu para habitar neste mundo. Cada um de nós, como Maria, é chamado a ser habitação de Deus nesta terra.

É por isso que aquilo que aconteceu em Maria foi obra de Deus, não de qualquer ser humano. Foi Deus que, em Maria, decidiu fazer-Se homem. Nenhum homem teria poder para tal.

 

  1. Tal como Maria deixou que o Filho de Deus Se fizesse carne na Sua carne (cf. Lc 1,31-33), é fundamental que também nós deixemos que o mesmo Filho de Deus Se faça vida na nossa vida. Maria serva é o modelo para uma Igreja que tem de ser (cada vez mais) serva. Maria é senhora porque aceitou ser serva. O seu «sim» faz de Maria inteiramente feliz até ao fim.

Está aqui o grande mistério, que por nós vela e que no Natal se desvela. São Paulo fala-nos de um mistério «mantido em silêncio por tempos sem fim» (Rom 16,25). E é no silêncio que, em Cristo, esse mistério se manifesta (cf. Rom 16,25-26).

 

E. Com uma (única) palavra, Deus tudo faz e a todos enche de paz

 

  1. Não desperdicemos o silêncio do Natal. Faz-nos tão bem respirar o silêncio de Belém. Faz-nos bem aprender que não falamos só com os lábios. Belém, com Jesus, Maria e José, ensina-nos a falar com a vida e com a fé. O Natal é a festa do silêncio que fala. A divina Palavra acampou no silêncio do Menino que nasceu, do Filho que nos foi dado (cf. Is 9, 6).

Não consta que os Magos abrissem a boca quando viram Jesus (cf. Mt 2, 11). Diante do silêncio que se faz Palavra, é bom que as nossas palavras façam um pouco mais de silêncio. Os nossos encontros ainda são demasiado palavrosos. Habituemo-nos também a estar com o Senhor sem abrir os lábios. Um pouco de silêncio com Deus consegue (infinitamente) mais do que muitas palavras sobre Deus. Não esqueçamos que é apenas com uma Palavra que Deus tudo faz e refaz. É com essa única Palavra que Deus nos enche de paz!

 

  1. Que a paz de Belém esteja convosco: não só nesta noite, mas especialmente nesta noite. Convidai a Sagrada Família para entrar na vossa família. Não vos esqueçais de rezar antes de começar o jantar. Queria muito estar convosco nesta noite tão especial: a noite de Natal. Mas, no Deus que vem até nós, sentir-me-ei perto de cada um de vós. Em Jesus Menino estarei perto de vós e sentir-vos-ei bem perto de mim.

Mas depois nos unirmos em casa de cada um, estaremos ainda mais unidos na casa de todos, a Casa de Jesus. A Missa da Noite de Natal é tão cheia de encanto que ninguém quererá ficar no seu canto. É claro que não deixaremos de sentir a presença dos que não possam vir. Mas não tenhamos medo do frio. Deus aquece esta noite, inundando-a de luz. Queria fazer-me especialmente próximo de quem está doente, de quem vive só, de quem experimenta a dor, a separação, o luto. Afinal e como notou Edith Stein, «a noite de Natal e a noite da Cruz são uma única noite».Há quem sinta o peso da Cruz na noite da Natal. Que todos possam sentir o brilho do Natal, mesmo quando sentem o peso da Cruz. Por todos peço. A todos envolvo num sentido abraço de santo, feliz e abençoado Natal.

publicado por Theosfera às 05:59

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