O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2015

A. Deus está nos corações rectos e sinceros

  1. Acerca de Deus, duas são as perguntas que mais fazemos: «Quem é?» e «Onde está?»; «Quem é Deus?», «Onde está Deus?». É difícil que as respostas nos satisfaçam. Daí a recorrência das perguntas, daí as infindáveis tentativas de resposta. Cada resposta parece não fechar as portas a mais perguntas. Pelo contrário, cada resposta é uma porta aberta a um novo vendaval de perguntas. A catequese dos mais adiantados em anos dizia que «Deus é um espírito puro, eterno e criador». E ensinava que «Deus está no céu, na terra e em toda a parte».

Curiosamente, a oração colecta da Eucaristia deste Domingo concretiza este ensinamento. (Já agora, a oração que antecede a Primeira Leitura chama-se colecta porque colecciona os nossos pedidos e os eleva até ao Pai). Tal oração, hoje, evoca a promessa de Deus estar presente «nos corações rectos e sinceros». É nos corações rectos e sinceros que Deus faz a Sua morada.

 

  1. A rectidão e a sinceridade são fundamentais. Não são as palavras que convencem. Ou, então, convencem quando estão respaldadas por uma conduta recta e sincera. Sincero quer dizer — etimologicamente — sem cera, ou seja, sem enfeites artificiais. E recto pressupõe ausência de curvas. Ser sincero e ser recto é ser liso, é ser transparente, é ser autêntico.

Entende-se, então, que Deus seja encontrado na rectidão e na sinceridade. É sabido que Deus nos deu um só rosto, não duas caras. Devemos ter, por isso, uma personalidade única e não uma personalidade dupla, ou múltipla. A nossa personalidade não deve variar conforme as ocasiões ou os interesses. Em cada situação, devemos ser inteiros e limpos. Não devemos ser integristas, mas devemos ser íntegros. Caso contrário, nunca nos conhecemos verdadeiramente. Sem rectidão e sinceridade, navegaremos sempre no mar indefinido — e permanentemente alterado — das aparências.

 

B. Jesus é a verdade que nos cura da lepra da mentira

 

3. Não podemos ser uns em casa e outros fora de casa. Não podemos ser uns na igreja e outros fora da igreja. Há que ser coerente. A mentira dos lábios faz mal, mas a mentira da vida faz muito pior. Só que, como acontece com a mentira dos lábios, também a mentira da vida acaba sempre por ser descoberta. Ainda que enganemos os homens, nunca conseguiremos enganar a Deus. E mesmo quanto aos homens, nunca conseguiremos enganar toda a gente durante todo o tempo. Haverá sempre um momento em que se fará luz sobre a nossa obscuridade. Como garantiu o Mestre dos mestres, não há nada oculto que não venha a descobrir-se (cf. Lc 12, 2).

A mentira é, hoje em dia, a grande lepra de que padecemos. Como sabemos, a lepra já não é uma doença incurável. Trata-se, porém, de uma doença de que muitos não se querem curar. Há quem não queira curar-se da lepra da mentira, da lepra da falsidade, da lepra da corrupção, da lepra da injustiça. É uma lepra que todos reconhecemos, mas que poucos assumem.

 

  1. Jesus, que Se apresentou como a Verdade (cf. Jo 14, 6), é o médico e o medicamento para vencermos esta lepra da mentira. Não é por acaso que, na Bíblia, o verbo que significa curar («sozô») também significa salvar. Do mesmo modo, o latim «salus» tanto significa saúde como salvação. E a experiência confirma que, quando há a cura de uma doença grave, as pessoas costumam comentar: «Aquele médico salvou-me». De facto, curar é salvar e salvar é curar. A cura é salvação e a salvação é a definitiva cura.

Não é em vão que o Evangelho coloca a cura de um leproso nos começos da missão pública de Jesus. A lepra era não só um facto, era também um sinal. Em suma, tratava-se de um significante com um enorme significado. Além de uma doença, a lepra era um estigma que acarretava exclusão. O Evangelho quer mostrar que Jesus vem para incluir os que estão excluídos, atraindo para o centro os que são atirados para as margens.

 

C. Quando a lepra era uma morte antecipada

 

5. Tenhamos em conta que, naquela altura, a lepra era uma doença incurável e, ainda por cima, contagiosa. Desde o início, o leproso era privado do convívio com as outras pessoas sendo remetido para um lugar isolado.

Como ouvimos na Primeira Leitura, o leproso tinha de usar «vestuário andrajoso» e «cabelo desalinhado». Era obrigado a gritar: «Impuro, impuro». Com efeito, era como impuro que costumava ser visto pelos outros (cf. Lev 13, 44-46). Daí a condenação ao isolamento.

 

  1. Se um leproso viesse ao encontro das outras pessoas, teria de tocar um sino, para se fazer anunciar e, assim, manter as distâncias. Podemos dizer que se tratava de uma espécie de morte antes da morte. A lepra era uma morte antecipada. No caso, muitíssimo raro, de um leproso se curar, teria de ir ao Templo de Jerusalém para se mostrar ao sacerdote, que o examinava e o libertava para conviver com qualquer pessoa. Foi por isso que Jesus, que conhecia as apertadas normas do Judaísmo, determinou que este leproso, agora curado, se fosse apresentar ao sacerdote (cf. Mc 1, 44).

Ao curar o leproso, Jesus sinaliza que está no mundo para nos curar da grande lepra que é o pecado. A cura está, portanto, à nossa disposição. Mas é fundamental assumir que estamos doentes. Tal como sucede com a lepra, também o pecado pode criar em nós alguma insensibilidade. A zona do corpo atingida pela lepra vai caindo aos bocados, tornando-se insensível. Também nós vamos decaindo no pecado e, a certa altura, pode acontecer que já nem nos apercebamos do pecado.

 

D. Jesus é o Deus que (nos) toca

 

7. Como alertou Pio XII, «o pecado do nosso tempo é a perda do sentido do pecado». É preciso ter a lucidez e a coragem deste leproso. Tal como o primeiro passo para reaver a saúde é reconhecer que estamos doentes, também a primeira atitude para recuperar a graça é assumir que somos pecadores. Neste contexto, o afastamento do sacramento da Confissão não indica, necessariamente, que as pessoas tenham uma vida mais santa. Pode indicar, antes, que muitos já nem sequer têm consciência do pecado em que vivem.

É importante «cair de joelhos» como o leproso (cf. Mc 1, 40). No fundo, ele já reconhece a condição divina de Jesus. Começa, pois, uma aproximação pela adoração. Adorar é a forma amorosa de reconhecer Deus como Deus. A adoração é o começo e o ápice de tudo. A adoração é o grande certificado da fé. É ela que leva a vencer as barreiras. O leproso venceu as barreiras do estigma e as barreiras da multidão. Ele tinha a certeza de que Jesus era o Emanuel, o Deus-connosco, o Deus em nós.

 

  1. Jesus, para escândalo dos circunstantes, é a nova — e definitiva — face de Deus. Jesus é o Deus próximo, o Deus compadecido, o Deus que estende a mão, o Deus que abraça. Enfim, Jesus é o Deus que (nos) toca. Jesus curava tocando nas pessoas e deixando-se tocar pelas pessoas. Em Jesus, Deus não age à distância. Jesus não é nenhum alfandegário de Deus. Ele supera a estranheza ontológica, que nos distancia de Deus, através de uma entranheza pessoal, que nos vincula definitivamente a Deus.

Nunca é demais insistir nesta verdadeira revolução. Jesus cura, mas não cura apenas. Não Se limita a preceituar a cura ou a indicar o medicamento. Jesus cura, tocando a ferida e abraçando o sofredor. Jesus é o Deus-abraço. Por isso, Ele respeita as leis, mas vai mais além das leis, até porque Ele mesmo é a Lei. A Lei-Jesus desfaz barreiras e vence todos os estigmas. Jesus quer a nossa cura como quis a cura do leproso (cf. Lc 1, 41).

 

E. Até o antigo se torna novo

 

9. Estaremos nós dispostos a vencer as barreiras que erguemos dentro de nós e que mantemos fora de nós? Tudo nos é oferecido, mas nem sempre tudo é por nós acolhido. A nossa mente ainda está muito insensível e o nosso coração ainda se mantém bastante fechado. Mas não tenhamos medo de nos aproximar de Jesus.

Ele é luz para a nossa mente e limpidez para o nosso coração. Também a cada um de nós Ele diz: «Quero, fica limpo!» (Mc 1,41). Jesus é a limpidez que limpa e a pureza que purifica. Das mãos de Jesus nasce uma vida totalmente nova.

 

  1. Agora, o grito já é outro. Já não se grita para denunciar a impureza, mas para anunciar a Boa Notícia de Jesus. Apesar da gratidão, aquele homem desobedeceu à ordem de Jesus, que o tinha mandado calar (cf. Mc 1, 44). Acontece que aquilo que sentia dentro tinha de vir cá para fora. Ele começa a anunciar a boa nova da cura da sua lepra (cf. Mc 1, 45). Nós somos chamados a anunciar a boa nova da cura de todas as lepras. Evangelizar é gritar que estamos curados, que estamos salvos.

Em Jesus, Deus não Se limita a introduzir o novo. Em Jesus, Deus renova tudo. Em Jesus, Deus até o antigo torna novo. Foi, aliás, o que ocorreu também a S. Paulo: o perseguidor torna-se anunciador. Como Paulo imitou Jesus, também nós somos convidados a imitar Paulo (cf. 1Cor 11, 1), anunciando Jesus. Muita gente está à espera, mas o Evangelho não pode esperar. É connosco que Jesus conta, hoje, para levar o Evangelho. Não faltemos à chamada. Tudo pode ser diferente se cada um de nós não for indiferente. Que o «não» nunca se solte dos nossos lábios. E que um imenso «sim» inunde as nossas vidas!

publicado por Theosfera às 07:19

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