O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 16 de Junho de 2019

A. Uma comunidade sem superiores nem inferiores


1.Hoje é o dia da Festa do nosso bom Deus, que é único, mas não é um. Deus não é solitário, mas profundamente comunitário. A Santíssima Trindade é a mais bela comunidade, o modelo para todas as comunidades. Estaremos dispostos a aprender com o nosso bom Deus? 

2. Na família trinitária, não há superiores nem inferiores. O Pai, o Filho e o Espirito Santo são igualmente divinos. Diferentes nas Suas pessoas, são iguais na Sua natureza. E, inversamente de nós, as pessoas divinas vivem — desde sempre e para sempre — unidas. Não é isto maravilhoso? Não é isto tão comovente? Mas, como se isto não bastasse, Deus agregou o homem à Sua família. Baptizados «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 19), os seres humanos passam a fazer parte da família divina.

Dir-se-ia, então, que o amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo é tão forte que não cabe em Si. Como que «explode» no mundo. O primeiro «big bang» — e motivo último do «big bang» — é a «explosão» do amor de Deus na criação.


  1. B. Jesus é a mostração da Trindade



  1. Deus, além de estar da eternidade, está no tempo. Além de estar no Céu, está na Terra e em cada pessoa que há na Terra. É neste sentido que — absolutamente abismado — já no século X, El Hallaj garantia: «Vi o meu Senhor com o olhar do coração e disse-Lhe: "Quem és Tu?" Ele respondeu-me: "Tu!"»

Segundo o referido autor, «o "onde" já não tem lugar». De facto, o «onde» não existe quando se trata de Deus. O «onde» em que Deus Se encontra é também o nosso coração. Sim, o seu e o meu coração também são divina habitação! Não é tão assombroso?



  1. Quem nos mostrou isto foi Jesus Cristo, no Qual encarnou a pessoa do Filho de Deus. Foi Ele quem nos deu a conhecer Deus (cf. Jo 1, 18). Daí a distinção — estabelecida por Karl Barth — entre o Cristianismo e as outras religiões. Enquanto estas «atestam o movimento do homem para Deus, o Cristianismo constitui o movimento de Deus para o homem».

Tal movimento atinge o seu ápice no próprio Jesus Cristo. N’Ele é Deus que vem ao encontro do homem. Se ver Deus sempre foi uma aspiração humana, mostrar Deus é uma competência exclusivamente divina. Quando um discípulo pede que Lhe mostre Deus, Jesus afirma que Ele mesmo é a mostração de Deus: «Quem Me vê, vê o Pai» (Jo 14, 9).




C. Cristo aproxima Deus do homem e aproxima o homem de Deus



  1. É, pois, de Deus que vem a revelação definitiva de Deus (cf. Heb 1, 2). Jesus não veio de perto de Deus, mas de dentro de Deus. O Quarto Evangelho tem o cuidado de anotar que Jesus vem do seio do Pai: «O Filho unigénito, que está no seio do Pai («κολπον του πατρος»), é que O deu a conhecer» (Jo 1, 18). O original «κόλπος» significa peito ou seio, remetendo portanto para a intimidade.

É curioso que — mais tarde (em 675) — o XI Concílio de Toledo proclama que o Filho foi gerado «do útero do Pai» (ex utero Patris). Com uma linguagem marcadamente feminina — o útero é um órgão da mulher —, a Igreja reconhece que o Filho de Deus vem do mais íntimo de Deus. É das entranhas mais fundas de Deus que provém o Seu Filho. Não deixa, aliás, de ser sintomático conferir que o hebraico rahamim, que se traduz por «entranhas» (cf. (cf. Sal 25, 6; 40, 12; 51, 3; Os 2, 21) deriva de rehen, que significa precisamente «útero».



  1. Por tudo isto, não espanta que Jesus dispense a Deus um tratamento intimista, apresentando-O sempre como «Pai» e até como «Paizinho» ou «Papá». É o que se depreende do recurso ao aramaico Abbá (cf. Mc 14, 36). De facto, à excepção do grito de abandono (cf. Mc 15, 34; Mt 27, 46) — e, mesmo aqui, para citar um texto do Antigo Testamento (cf. Sal 22, 2) —, Jesus, quando fala de Deus, fala do Pai.

São mais de 200 as vezes que Jesus Se refere a Deus como Pai. Só no Evangelho de João, Ele usa a palavra «Pai» 156 vezes. Já aos 12 anos, deixa bem claro que a Sua prioridade é estar com o Pai: «Não sabíeis que devia estar em casa de Meu Pai?» (Lc 2, 49). Entrevê-se, deste modo, o que iria estruturar a superveniente missão de Jesus: estar com o Pai e falar do Pai.


D. Uma permanente lição de unidade



  1. Ele afirma que é um com o Pai: «Eu e o Pai somos um só» assegurando que quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Jesus assume que foi enviado pelo Pai (Jo 20, 21) e que é para o Pai que volta (cf. Jo 16, 28). A Sua maior realização é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34), pelo que é ao Pai que entrega o Seu Espírito (cf. Lc 23, 46).

Frequentemente, Jesus começa o dia de madrugada, «ainda muito escuro», num lugar solitário, em oração (cf. Mc 1, 35). Antes de escolher os Doze, foi com o Pai — em oração — que passou a noite inteira (cf. Lc 6, 12). É no encontro com o Pai que Jesus é encontrado pelas pessoas (cf. Mc 1, 37). Como Ele, também nós devemos tratar a Deus por Pai: «Quando orardes, dizei Pai» (Mt 6, 9). É esta paternidade que alicerça a nossa fraternidade. Porque um só é o nosso Pai (cf. Mt 23, 9), nós somos todos irmãos (cf. Mt 23, 8).



  1. Tal como Jesus revela Deus como Pai, também Deus revela Jesus como Filho. A voz que se faz ouvir no Seu Baptismo e na Sua Transfiguração é peremptória: «Este é o Meu Filho muito amado» (Mt 3, 17; Mc 9, 7; Mt 17, 5; cf. Mc 1, 11; Lc 3, 22).

Acresce que Jesus é igualmente o revelador do Espírito Santo. Como sucede com o Filho, também o Espírito Santo vem do Pai (cf. Jo 15, 26). E se o Pai Se faz ouvir no Baptismo de Jesus (cf. Mt 3, 17), já o Espírito Santo deixa-Se ver: em forma de pomba (cf. Mc 1, 10; Mt 3, 16; Lc 3, 22). Jesus aparece cheio do Espírito Santo (cf. Lc 4, 1) e deixa-Se conduzir por Ele (cf. Mt 4, 1). No fundo, o Espírito que vem do Pai é também «Espírito do Filho» (Gál 4, 6), «Espírito de Jesus Cristo» (Fil 1, 19).


E. Nem solidão nem divisão; Deus é comunhão



  1. Não espanta, assim, que ao Filho e ao Espírito Santo fosse reconhecido o mesmo estatuto ontológico do Pai. João afirma que «os três são um só» (1Jo5, 7). O Filho rapidamente viu ser testemunhada a Sua «condição divina» (Fil 2, 6), sendo desde logo proclamado como «Senhor e Deus» (Jo 20, 28). O mesmo se passou com o Espírito Santo. Para os primeiros cristãos, mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus (cf. Act 5, 3-4).

Os cristãos sempre professaram a fé «num só Deus» (1Tim 2, 5; Ef 4, 6). Mas, ao mesmo tempo, nunca deixaram de perceber que o único Deus não é um. Se Deus fosse um, seria apenas a solidão; se Deus fosse dois, seria unicamente a distinção e, talvez, a divisão. Mas Deus é três: o três vence a solidão, supera a distinção e evita a divisão. O três sinaliza a união, a realização suprema da comunhão.



  1. Em Deus encontram-se, portanto, conjugadas a máxima unidade e a maior diversidade. Como filhos Seus, aprendamos com Deus. Nem a pessoa se deve sobrepor à comunidade nem a comunidade deve anular a pessoa. O mero colectivismo é tão perigoso como um radical individualismo.

Olhemos para a Santíssima Trindade como o modelo supremo de comunidade. E deste modo avançaremos em humanidade e cresceremos em felicidade. Não é isto o que procuramos tanto? Glória, pois, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!

publicado por Theosfera às 05:13

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