O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 04 de Setembro de 2016
  1. Eis que chegámos ao Domingo, ao «Dia do Senhor», ao Dia da Páscoa do Senhor. Nunca é demais recordar: antes da celebração anual, a Páscoa teve sempre uma celebração semanal.

Antes de celebrarem a Páscoa todos os anos, os cristãos celebraram sempre a Páscoa todas as semanas. E celebraram-na ao Domingo, no dia em que Jesus ressuscitou. De que modo? Através da proclamação da Palavra de Deus e da «fracção do Pão», ou seja, através da Eucaristia.

 

  1. Aliás, a Eucaristia é um dos três grandes «mandamentos» de Jesus. A par do mandamento do amor («amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei», Jo 15, 12) e do mandamento missionário («ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho», Mc 16, 15), Jesus deixou-nos o mandamento eucarístico: «Fazei isto em memória de Mim» (1Cor 11, 25).

E, como facilmente podemos ver, a Eucaristia é a condensação de todos estes preceitos. A Eucaristia é a celebração máxima do amor maior. Pelo que quem se sente amado só pode amar e envolver os outros no mesmo amor. É por isso que o «ide em paz» não é uma despedida, mas um envio. Quando termina a Missa, mistério de amor, começa a Missão, expansão do mesmo — e único — amor.

 

  1. Só que este corre o risco de ser também o mandamento mais esquecido. Para muitos, o Domingo é apenas dia de descanso. E, de facto, o Domingo é dia de descanso, mas este descanso é para ser vivido — antes de mais e acima de tudo — na presença de Deus. Como acontecia com o Sábado para o Povo de Israel, o Domingo é o grande dia do encontro com Deus para os cristãos.

Por isso, nunca é demais repetir neste local: o Domingo é um dia pascal. E a Páscoa semanal é celebrada na Eucaristia. Este é, pois, o dia por excelência da Eucaristia. Compreende-se também que a Eucaristia seja o centro da nossa romaria. Nunca esqueçamos que a Eucaristia é o primeiro — e o maior — louvor a Maria. Basta pensar que o ventre de Maria foi o primeiro sacrário da história. E, neste Santuário, a Sua imagem está igualmente à porta do Sacrário. Neste lugar, Ela conduz os Seus filhos para o corpo de Seu Filho.

 

  1. Já agora, é curioso notar que este dia 4 de Setembro também está carregado de tons de festa na história do Santuário. Foi, de facto, a 4 de Setembro de 1778 (completam-se hoje 238 anos), que se procedeu à segunda bênção do Santuário, já recheado com os retábulos e os altares. E foi a 4 de Setembro de 1904 (completam-se hoje 112 anos) que aqui entrou a imagem que, nas procissões, acompanha a fé das multidões. É ela que, na Sacristia, está à nossa espera em cada dia.

Tinha chegado a Lamego dois dias antes, a 2 de Setembro de 1904. Os sinos repicaram os sinos e os foguetes estouraram. Ficou dois dias na Sé até vir para a Sua casa, o Santuário. Extasiada perante esta «obra de arte», a imprensa da época não hesitou em qualificar logo esta imagem como «formosíssima».

 

  1. Houve quem lhe chamasse a «Senhora Nova» e não tem faltado quem a trate por «Imagem Peregrina». É esta, de facto, a imagem que costuma sair e que nos vê chegar. É esta a imagem que nos visita e que, desde há muito, passou a ser a imagem mais visitada, mais olhada, mais contemplada. Sem desdouro para as outras imagens, esta passou a ser «a» imagem de Nossa Senhora dos Remédios.

Quando se fala de Nossa Senhora dos Remédios, é nesta imagem que muitos pensam, é para esta imagem que muitos se voltam. Ela é a Senhora das Procissões, a Senhora de Todos os Corações. Ela tornou-Se, pois, o «rosto de Lamego». É Ela que traz tanta gente do mundo até Lamego. É Ela que leva o nome de Lamego até ao mundo.

 

  1. Permiti que vos convide a olhar para que aquele olhar, para o olhar desta imagem da nossa Mãe dos Remédios. Se a imagem que está no trono tem as feições de Senhora do Leite, a imagem da Sacristia cativa-nos plenamente como Senhora do…Deleite. Se repararmos bem, verificaremos que, nesta imagem, Nossa Senhora não está só a oferecer o leite ao Menino. Ela está a olhar, totalmente deleitada, para o Menino que sorve o leite. O realce não está apenas na maneira como aleita; está sobretudo na forma como olha enquanto aleita.

Tudo, naquela imagem, sabe a leite puro e a puro deleite. O deleite não flui menos que o leite. Dir-se-ia até que, nesta imagem de Nossa Senhora dos Remédios, acima do leite sobressai o deleite.

 

  1. Esta é uma Mãe que ama enquanto amamenta. Esta é uma Mãe que amamenta e não só com o peito. Esta é uma Mãe que amamenta com a alma, com o coração, com o olhar. O olhar profundamente intimista que a Mãe aleitante deposita no Filho aleitado é o que torna esta imagem única e irresistível como, porventura, nenhuma outra.

Parece que não existe mais ninguém. O olhar da Mãe está todo voltado para o Filho. Mais do que Nossa Senhora do Leite, Nossa Senhora dos Remédios será, por isso e para sempre, Nossa Senhora do Deleite, Nossa Senhora inteiramente deleitada.

 

  1. Acontece que, nós, que olhamos com emoção, esquecemos, muitas vezes, a lição. Olhamos para a Mãe deste Filho, mas parece que esquecemos o Filho desta Mãe. Esta imagem de Nossa Senhora dos Remédios apresenta-nos Maria totalmente absorvida por Jesus. O peito da Senhora nos lábios do Menino certifica que aquelas duas vidas nunca se separam. Tal como o leite da Mãe foi sorvido pelo Filho, também o cálice do Filho será integralmente bebido pela Mãe (cf. Mc 10, 39; Jo 19, 25).

Por conseguinte, não estamos em presença de um mero acto de aleitação. Verdadeiramente, estamos em presença de um acto de adoração. E se adorar («proskineo») é, muitas vezes, entendido como «encostar os lábios», aqui pode ser visceralmente visto como «encostar o peito aos lábios». Maria, nesta imagem, convida-nos a fazer como Ela, isto é, a inclinarmo-nos diante de Jesus, a olhar fixamente para Jesus, a nunca retirar os olhos de Jesus.

 

  1. Acontece que, frequentemente, os nossos olhos fixam-se n’Ela, mas raramente acompanham o olhar d’Ela. O nosso olhar facilmente é atraído por aquele olhar, mas nem sempre os nossos olhos se deixam conduzir por aqueles olhos. Não notamos que os olhos de Maria só param em Jesus. Maria adora enquanto aleita e aleita enquanto adora.

Nossa Senhora dos Remédios aparece à nossa frente como Nossa Senhora da Aleitação e, acima de tudo, como Nossa Senhora da Adoração. Ela não quer ser adorada. Ela sempre quis ser adorante e, nessa medida, quer ajudar-nos a adorar.

 

  1. Assim sendo, o fundamental, não é olhar para a Mãe; é olhar com a Mãe. Nossa Senhora dos Remédios não quer que nos ajoelhemos diante d’Ela, mas que nos ajoelhemos sempre com Ela, diante de Jesus. Nunca esqueçamos que o lugar mais importante do Santuário é o Altar com o Sacrário.

Muitas vezes, os nossos passos apressados despedem-se da Senhora daquele Menino sem repararem, um pouco que seja, no Menino daquela Senhora. Tantos se ajoelham diante da Mãe daquele Filho e não esboçam a mais leve inclinação quando passam diante do Filho daquela Mãe. Afinal, quando compreenderemos que o acontecimento mais importante na Casa de Maria é — e será sempre — a Eucaristia? Aprendamos com Maria a olhar para Jesus. Olhemos para Maria que nos oferece Jesus, sem nunca deixar de adorar o Jesus oferecido por Maria!

publicado por Theosfera às 08:00

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