O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 04 de Setembro de 2018
  1. Pela sexta vez este ano, continuamos a «novenar» para, com Maria, o nosso bom Deus louvar. E com Maria queremos aprender a procurar o Evangelho viver. Junto de Maria estamos mais perto de Jesus e, nessa medida, não estamos longe da Cruz. Maria ensina que não se pode seguir Jesus sem pegar na Cruz. Por isso, se alguém O quiser seguir, pelo caminho da Cruz não pode deixar de ir. Todos os dias na Cruz tem de pegar quem perto de Jesus quiser estar (cf. Mt 16, 24).

Quem um Cristo sem Cruz quiser encontrar uma Cruz sem Cristo pode achar. O Cristianismo, ao ser a religião de Cristo Jesus, é também a religião da Cruz. Para à Ressurreição chegar, pela Cruz é preciso passar. Mas também é verdade que quem a Cruz abraçar à plenitude da vida acabará sempre por chegar.

 

  1. Assim sendo, em cada dia, fiquemos junto à Cruz como Maria. Quando quase todos se afastaram, Maria foi das poucas pessoas que não se retiraram. Estar perto de Jesus é também estar perto da Cruz. No Evangelho segundo São João, Maria sobressai como aquela que «está». Ela «está» quando Jesus realiza o primeiro dos Seus milagres, em Caná (cf. Jo 2, 1). E «está» quando consuma a entrega da Sua vida, na Cruz (cf. Jo 19, 25).

Hoje em dia, faz falta disponibilidade para «estar». Hoje em dia, andamos muito e corremos bastante, mas raramente «estamos». Curiosamente, queixamo-nos quando procuramos os outros e os outros não «estão». Mas será que nós também temos preocupação de «estar»?

 

  1. Hoje em dia, passamos muito pelas pessoas e trabalhamos bastante para as pessoas. Mas será que procuramos «estar» com as pessoas? Hoje em dia, corremos até o risco de passar muito pelo próprio Deus e de «estar» muito pouco com Deus. Quando passamos pelo Santuário, que tempo «estamos» com Jesus no Sacrário? Por vezes, até a romaria parece uma correria. Precisamos, então, de reaprender a «arte» de parar, para não desaprendermos a «arte» de escutar e a (nobilíssima) «arte» de estar.

Dizia o teofilósofo Xavier Zubiri que «estar é ser em sentido forte». É talvez por isso que, em algumas línguas, o mesmo verbo significa «ser» e «estar». Só quando estamos, sentimos que somos verdadeiramente, autenticamente, fundamente. Só quando estamos com os outros, sabemos quem são os outros. E só quando estamos em nós, conseguimos saber quem somos nós. Será que sabemos quem somos? Será que nos conhecemos a nós mesmos? Talvez precisemos de «estar» mais em nós, na certeza de que, quanto mais estivermos nos outros e em Deus, tanto mais estaremos em nós.

 

  1. Por muito que o nosso coração lamente, a Cruz na nossa vida está presente. A Cruz não ficou em Jerusalém, ela permanece em nós também. Mas não está connosco como um adorno para no peito trazer. A Cruz permanece em nós para nos ensinar a viver. A Cruz nunca é ornamento; para nós, ela é uma escola de despojamento.

Na Cruz, aprendemos a sair do nosso «eu» e a oferecer aos outros o que Deus nos deu. A Cruz é a maior «vacina» contra o egoísmo que, tantas vezes, nos atrai para o abismo.

 

  1. O Crucificado continua ao nosso lado. Ele está à nossa beira, acompanhando-nos a vida inteira. O Crucificado está no Altar, onde nunca cessa de por nós Se entregar. O Crucificado está no hospital, compartilhando a nossa condição sofredora e mortal. O Crucificado também está na prisão, esperando tantas vezes um aperto de mão. O Crucificado espera-nos igualmente na rua, tentando abanar a nossa indiferença crua. Mas Ele também pode estar em casa, completamente abandonado, sem que ninguém cuide de saber como tem passado.

Há muitos Crucificados de quem ninguém se abeira. São tantos que têm a solidão como única companheira. Acompanhemos a Cruz dos que estão sós. Levemos-lhes os nossos ouvidos para acolher a sua voz. Perto dos que estão sós, fazemos companhia a quem deu a vida por nós. Jesus está aqui dentro, mas também está lá fora, em tanto coração que na solidão chora.

 

  1. É curioso — e profundamente sintomático — que a presença de Maria junto à Cruz na literatura e na música tem despertado incomparáveis momentos de luz. Tão belas são as composições que comovem os nossos corações. «Stabat mater»! Quem não se sente tocado pela forma como Palestrina, Pergolesi, Scarlatti, Vivaldi, Haydn, Rossini, Schubert, Liszt, Verdi e tantos outros pegaram neste tema?

Até um acontecimento tão triste consegue inspirar o que de mais belo existe. Junto à Cruz do Seu Filho, a Mãe não perde nenhum do Seu brilho. Mesmo com o coração despedaçado, Ela faz-nos haurir o que de mais belo pode surgir. Como bem percebeu o «nosso» Antero de Quental, em Maria nem a tristeza Lhe retira beleza. Nem à Sua beleza triste o nosso coração resiste.

 

  1. Os artistas têm mostrado perceber que a Cruz de Jesus Maria fez doer. A «espada de dor», anunciada por Simeão (cf. Lc 2, 35), entrou em cheio no Seu coração. Também hoje, Maria está junto à Cruz. Ela mantém-Se junto à Cruz de Jesus que está em cada irmão, em cada sofredor, em cada injustiçado, em cada oprimido pela dor.

Em cada dia, façamos como Maria. Tornemo-nos visitadores de quantos carregam tantas dores. Jesus está aí, como está aqui. E esteja Jesus onde estiver, a Sua Mãe convida-nos a que façamos o que Ele disser (cf. Jo 2, 5).

 

  1. Acompanhemos, então, Maria na hora da provação. E não abandonemos nenhum nosso irmão. Não esqueçamos que, no pobre e no doente, é o próprio Jesus que está à nossa frente (cf. Mt 25, 40). Não apareçamos só nas horas de alegria. Nas horas de dor, façamos também companhia. Não provoquemos feridas em ninguém; limpemos todas as feridas que surgirem em alguém.

Não precisamos de muito falar; importante é aprender a estar. Falar com a vida é mais eloquente que falar (apenas) com os lábios. Um sorriso e um abraço, em determinados momentos, podem valer mais do que muitos medicamentos.

 

  1. Maria junto à Cruz ensina-nos a vivermos descentrados de nós. Ela abre o que, muitas vezes, está mais fechado: as portas do nosso coração, as portas da nossa alma, as portas da nossa vida. Estejamos na vida com o coração aberto; não com calculismos, interesses e ambições desmedidas.

Nossa Senhora dos Remédios, que tendes a porta da Vossa casa aberta, mantende a nossa fé desperta. Não deixeis adormecer o amor por quem está a sofrer. Ajudai-nos a com amor olhar para quem, perto ou longe, a dor não consegue suportar.

 

  1. Foi junto à Cruz que recebemos Maria como Mãe. É na nossa Cruz que mais sentimos Maria como Mãe (cf. Jo 19, 27). Quanto a nossa voz erguer-se possa, não nos cansemos de louvar a Mãe nossa. Esta Mãe, nunca A perdemos. Esta Mãe, sempre A teremos. Sorvamos o amor que escorre do Seu peito e levemo-lo a quem, enfermo, jaz no leito.

Perto ou longe, não deixemos ninguém sozinho. A todos levemos uma palavra de carinho. A festa mais bela que se pode fazer é visitar quem está a sofrer. Não só nesta altura — mas também nesta altura — espalhemos esperança no meio desta vida dura. Nossa Senhora dos Remédios, a Ti fazemos chegar a nossa voz. Ajudai-nos a tornar menos pesada a Cruz de tantos que estão sós!

publicado por Theosfera às 08:00

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