O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 23 de Novembro de 2014

A. Atenção à presença soterrada de Jesus

  1. Jesus é rei: rei de cada um de nós, rei da humanidade e rei do universo. Mas, ao mesmo tempo, é um rei que tem fome. É um rei que tem sede. É um rei sem casa. É um rei a quem falta roupa. É um rei que adoece. É um rei que está preso (cf. Mt 25, Onde é que já se viu um rei assim? Um rei despido ainda é possível encontrar na literatura, como no célebre conto de Hans Christian Andersen. Quanto ao resto, só mesmo no Evangelho, que, neste caso, mais parecerá um disangelho, isto é, uma notícia não muito agradável.

Com efeito, o Evangelho descreve Jesus como um rei atípico: indigente, aparentemente impoderoso, com uma conduta nada condizente com a realeza. Não está num palácio, está na rua. Não dá leis, dá a vida. E a Sua imagem não está em quadros ou em galerias, mas nas pessoas. Ele está onde estão os que têm fome e sede. Ele está onde estão os sem-abrigo. Ele está onde estão os despidos e despojados. Ele está onde estão os doentes e os encarcerados. Tudo o que é feito a estes, é feito a Ele (cf. Mt 25, 40). É com eles que Jesus Se identifica. O Seu poder, debaixo da aparência de não-poder, consiste em ficar ao lado dos sem-poder.

 

  1. Neste dia, celebramos a presença majestosa de Jesus e fazemos bem. Mas, em tantos dias, parece que subestimamos a presença soterrada de Jesus e fazemos mal, muito mal. Porque é aqui que encontramos a pauta para o juízo final. Tudo se jogará na nossa capacidade — ou incapacidade — de ver Jesus nos mais pequenos. É sabido que não gostamos muito de ouvir. Gostamos (muito) mais de ver. Mas será que vemos bem? Vemos tanta coisa, mas corremos o sério risco de não passar da superfície de todas as coisas. Quem está atento a esta presença soterrada de Jesus, a esta presença esquecida de Jesus?

Quando perceberemos que divino não é o grande caber no grande? Divino é o infinitamente grande caber no infinitamente pequeno. Holderlin sintetizou tudo numa conhecida máxima: «Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é que é divino». Em Jesus, Deus como que inverte o máximo e o mínimo, o maior e o menor, o grande e o pequeno. O máximo é o que parece mínimo. O maior é o que se apresenta como menor. O verdadeiramente grande é o que nos surge como exteriormente pequeno. Muitas vezes, achamos que Deus só está no alto. Ora, Jesus ensina-nos que, para encontrar Deus, o primeiro passo não é olhar para cima. O primeiro passo é olhar para baixo, para o fundo.

 

B. A grandeza dos mais pequenos

 

3. A grandeza não é um exclusivo dos grandes. E, de facto, nada é tão grande como a presença de Jesus nos mais pequenos. Nos mais pequenos, está o Cristo faminto e esfomeado. Nos mais pequenos, está o Cristo sedento, o Cristo sem casa e sem roupa. Nos mais pequenos, está o Cristo doente e o Cristo encarcerado. E nós que fazemos? Nós que aqui O louvamos e Lhe cantamos, estaremos dispostos a saciá-Lo, a cobri-Lo, a visitá-Lo e a acolhê-Lo?

Afinal, será que conhecemos verdadeiramente Jesus? Mas, atenção, não basta conhecer Jesus. Não iremos ser julgados pelo conhecimento, mas pelo comportamento. Jesus não nos perguntará pelo saber, mas pelo fazer. Para Ele, não importa o que sabemos, mas o que fizermos.

 

  1. O amor da ciência só é importante se ajudar a crescer a ciência do amor. Foi por isso que S. João da Cruz não se esqueceu de avisar que, «na tarde da nossa vida, seremos julgados pelo amor». O que decide o nosso destino não é o mero saber. É sobretudo o saber fazer e, mais concretamente, o saber amar.

O amor tem certamente muitas linguagens, mas a melhor tradução é, inquestionavelmente, a misericórdia. Ter misericórdia é ter o coração voltado para os outros, para a situação dos outros, para as dificuldades dos outros, para as misérias dos outros. A esta luz e como advertiu Sto. Agostinho, não é difícil antecipar o resultado do juízo final. Aprovados serão os que usarem de misericórdia; reprovados serão os que não usarem de misericórdia.

 

C. Os preteridos do mundo são os preferidos de Jesus

 

5. Acontece que, se repararmos bem, a misericórdia, sendo um exercício de amor, é igualmente um acto de lucidez. Ela faz-nos perceber que aquilo que repartimos não é nosso; é de Deus. Se tudo é dom, então nós damos do que (nos) foi dado. Aliás, é neste sentido que o referido Sto. Agostinho nos dirige a pergunta: «De quem é o que dás senão d'Ele? Se desses do que era teu, seria liberalidade, mas porque dás do que é d'Ele, é uma restituição». Toda a dádiva é uma restituição. Uma vez que Deus está no homem, especialmente nos mais pequenos, então tudo o que lhes for entregue, será devolvido ao próprio Deus (cf. Mt 25, 40).

Entretanto, Cristo não tem apenas fome de pão. Ele tem fome sobretudo de nós. Cristo tem fome de nós para, connosco, vencer a fome de pão. Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, faminto e pão para os famintos.

 

  1. Eis, em suma, o lado provocador — e sumamente interpelante — do reino de Jesus. O reino de Jesus não é uma magnitude territorial; é a humanidade, especialmente a humanidade sofredora. É sobre a humanidade que Jesus reina: não pela servidão, mas pelo serviço. É como rei que Ele serve ao ponto de dar a vida (cf. Mt 20, 28). É um rei que ama o mundo, embora muitos, no mundo que Ele ama, não O amem.

É um rei justo, que trata por igual o que é igual e que trata como diferente o que é diferente. É um rei que não esconde de que lado está. Ele está do lado dos que costumam ser rejeitados. Os preteridos do mundo são os preferidos de Jesus. Pelo que os preferidos de Jesus terão de ser os preferidos da Igreja de Jesus.

 

D. Os pobres que comiam à mesa do Papa

 

7. Foi em conformidade com este espírito que o Papa S. Gregório Magno revelou, no século VI, uma preocupação social que atingia o escrúpulo. Fazia questão de ter uma lista dos pobres de Roma, enviando-lhes alimento e outras provisões. Mas o mais tocante é, sem dúvida, saber que, todos os dias, doze pobres da cidade comiam à sua mesa, à mesa do Papa!

Um século mais tarde, S. João Esmoler também espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada a Alexandria: «Quantos são aqui os meus senhores?» Como ninguém percebera o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino».

 

  1. Terminamos o Ano Litúrgico com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, para nunca nos esquecermos de que, tal como Ele está no centro do mundo, também tem de estar no centro da nossa vida. Se Ele é rei do universo, também há-de ser rei para cada um de nós.

Curiosamente, esta é uma festa relativamente recente, instituída em 1925, pelo Papa Pio XI através da encíclica «Quas primas». O Santo Padre achou que era tempo de vincar que, apesar de todas as resistências, é Jesus quem efectivamente reina sobre toda a humanidade.

No número 33 daquele documento, Pio XI expressava o desejo de que «os fiéis retomassem coragem e força e renovassem a sua adesão a Nosso Senhor, fazendo com que Ele reine nos seus corações, nas suas mentes, nas suas vontades e nos seus corpos». Ou seja, em toda a sua vida. Naquela altura, a Festa de Cristo Rei era celebrada no último Domingo de Outubro. Depois do Concílio Vaticano II, passou para o último Domingo do Ano Litúrgico.

 

E. Deus também está na rua

 

9. Dizer que Jesus reina é dizer que Jesus salva. Para Jesus, reinar é salvar, é libertar, é trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade. Tudo já está preparado desde o princípio, como se diz no convite: «Vinde, benditos de Meu Pai, recebei como herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo»(Mt 25, 34). Todos nós estamos convidados para pertencermos ao número destes benditos.

Benditos seremos nós se benditas forem as nossas palavras e as nossas acções. Benditos seremos nós se benditos forem os nossos gestos. Benditos seremos nós se bendito for o nosso amor. Benditos seremos nós se bendita for a nossa bondade. Benditos seremos nós se contribuirmos para tornar bendita a vida dos outros. Benditos seremos quando formos capazes de sair: não tanto para ir de casa em casa, mas de coração a coração, de vida a vida.

 

  1. De onde o amor tiver entrado, Deus nunca sairá. Ele é o Pastor, que jamais nos faltará (cf. Sal 22, 1). Quem semeia amor nos outros deposita Deus na vida dos outros. Levemos a todos o amor deste Deus e ofereçamos sempre este Deus de amor. Não fiquemos paralisados. Apressemo-nos a descer as escadas. Alguém pode negar que Deus também está na rua?

Deus emerge dos escombros desta sociedade que clama por justiça. É aí que, como observou Fernando Urbina, podemos acolher «a grande voz silenciosa de Deus». Escutemos essa voz. E nunca Lhe fechemos as portas do nosso coração (cf. Sal 94, 8)!

 

publicado por Theosfera às 06:55

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