O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 21 de Setembro de 2014

A. Tanto se clama por justiça e tanto se atenta contra a justiça

1. Muito se clama neste mundo por justiça. E tantos atentados se comentem neste mundo contra a justiça. A justiça desponta sempre como uma urgência e acaba por surgir sempre como uma tremenda carência.

Ficamos com a sensação de que, entre a promessa de justiça e o contínuo avanço da injustiça, se interpõe um misto de fraqueza e incúria. Às vezes, acabamos por não saber se a injustiça cresce por causa da nossa debilidade ou por causa do nosso desleixo. Será que não podemos promover a justiça ou será que não queremos promover a justiça? Seja como for, o certo é que a injustiça não dá sinais de abrandar.

Até a justiça parece ser injusta. Para grande parte das pessoas, a justiça é cada vez mais rara, cada vez mais cara, cada vez mais lenta e cada vez mais distante.

 

2. Nem sempre as leis parecem amigas da justiça. Ou porque não existem. Ou porque não são boas. Ou porque, existindo e sendo boas, não são aplicadas. E se a justiça não funciona, há muitas pessoas que oscilam entre a resignação e a revolta. Ou não fazem nada, ou então decidem fazer a chamada «justiça pelas próprias mãos». E assim se confunde justiça com mera vingança. Só que a vingança não repõe o bem perdido, apenas devolve a maldade cometida.

Na hora que passa, o mundo parece um infindável pasto de injustiça. E o pior é que só acordamos quando os injustiçados se revoltam. Parecemos adormecidos quando as injustiças estão a ser semeadas, alimentadas e, como tumores, difundidas. A indiferença perante a injustiça não é menos grave que a prática da injustiça. Vivemos no mesmo mundo, mas não nos sentimos membros da mesma humanidade. O «eu» continua a aprisionar-nos: a aprisionar os nossos passos e a enevoar os nossos olhos. Ainda estamos muito «egocentrados», muito «ego-sentados».

B. A injustiça vive da acção e muitos e da inacção de tantos

3. Que justiça há num mundo onde poucos têm muito e onde muitos têm pouco ou quase nada? Que justiça há num mundo onde existe mais dinheiro para matar a vida do que para matar a fome? Neste momento, há 805 milhões de pessoas com fome! E que justiça existe num país, o nosso, com tantas assimetrias e tão flagrantes desigualdades? Que justiça existe num país, o nosso, onde os sacrifícios parecem cair sempre em cima dos mesmos: os desempregados, os trabalhadores precários e os idosos? Que justiça existe num país, o nosso, onde uns estão próximos de tudo e outros estão perto de nada?

Vão-se os tribunais. Vão-se as esquadras. Vão-se os hospitais. E vão-se as escolas. Sem justiça, sem segurança, sem saúde e sem educação, que estímulos para continuar no interior? Não se entende que o interior também faz parte do país e que os habitantes do interior também são cidadãos, também são pessoas.

 

4. Sem justiça, não é possível viver. Já Aristóteles reconhecia que «a base da sociedade é a justiça». No entanto, que estamos dispostos a fazer para terminar com a injustiça? Ou, pelo menos, para que ela não alastre? Tenhamos presente que a injustiça não resulta apenas da acção de muitos, resulta também da inacção de tantos. Quem não age em prol da justiça ou não reage diante da injustiça, acaba por interagir com quem age injustamente.

Para vencer a injustiça, é preciso vencer o medo, sobretudo o medo de perder. É preciso vencer o medo de perder o lugar, o medo de perder o prestígio, o medo de perder o aplauso. Para vencer a injustiça, é preciso perder o medo de falar, o medo de sofrer, o medo de ser criticado. Em suma, é preciso fazer muito para que a injustiça termine. Já para que a injustiça continue, basta uma coisa: não fazer nada.

C. A justiça segundo Deus

5. Habitualmente, o nosso problema com a justiça é duplo. Reside na indiferença e no equívoco. Ou não nos preocupamos com a justiça ou nos erigimos a nós mesmos em fonte de justiça. Acontece que não somos nós a fonte de justiça para os outros. Deus é que é a fonte de justiça para todos.

Segundo Deus, a justiça não consiste em fazer o mal a quem fez o mal. Segundo Deus, a justiça consiste em fazer o bem até àquele que faz o mal. Por conseguinte, justo é aquele que até é capaz de ir mais além da justiça. A justiça segundo Deus não dá só o que é merecido. A justiça segundo Deus é capaz de ir mais longe, até é capaz de dar o que é imerecido. Trata-se, pois, de uma justiça que pode chegar ao ponto de parecer injusta. A justiça divina, ao contrário do que pensamos, não é meramente proporcional. Ele não dá muito a quem faz muito e não dá pouco a quem faz pouco. Deus dá tudo a todos. Deus dá-Se todo a todos.

 

6. É possível ser cristão esquecendo os preceitos da justiça? Sem justiça não é possível ser cristão nem é possível sequer ser humano. Até um não-cristão como André Comte-Sponville defende que «a justiça é a única virtude que é boa em sentido absoluto». Ela não é só uma virtude. Ela é «o horizonte de todas as virtudes e como que a lei para a sua coexistência. Todos os valores a supõem e toda a humanidade a requer. A justiça não substitui a felicidade, mas nenhuma felicidade a dispensa».

A pessoa injusta não pode ser feliz e é por isso que vai semeando infelicidade pelos outros. A pessoa injusta não tem descanso. Mas a pessoa justa também não pode descansar pois há sempre quem esteja a atentar contra a justiça. Daí que o mesmo André Comte-Sponville proclame «bem-aventurados os que têm fome de justiça e que nunca se sintam saciados». Que nunca se sintam saciados enquanto a injustiça não for extinta, enquanto a justiça não for erguida e consolidada.

D. Não se pode procurar Deus sem procurar a Sua justiça

7. Na catequese, aprendemos que a justiça — juntamente com a prudência, a fortaleza e a temperança — é uma das quatro virtudes cardeais. Ou seja, é uma das virtudes fundamentais, centrais, estruturais e orientadoras da nossa existência. E, no entanto, parece que passamos o tempo a esquecer a justiça, a pisar a justiça. Só nos lembramos da justiça quando a justiça nos foge ou quando a injustiça se aproxima. Não temos presente que Jesus ligou — indelevelmente! — o Reino de Deus e a Justiça: «Procurai, antes de mais, o Reino de Deus e a Sua justiça, e o resto virá por acréscimo»(Mt 6, 33).

Procurar Deus implica procurar a Sua justiça. É por isso que o profeta exorta à conversão, à mudança. Como ouvimos na primeira leitura, os pensamentos e os caminhos de Deus são muito diferentes dos nossos (cf. Is 55, 8). Daí que, para trilharmos os justos caminhos de Deus, tenhamos de deixar os nossos injustos caminhos (cf. Is 55, 7).

 

8. A justiça, além de ser conquistada como um direito, tem de ser pedida como um dom. Temos de pedir a Deus que nos dê um pensamento justo e um justo coração. Mas esse não é o problema. Deus está sempre pronto para todas as dádivas, assim nós estejamos disponíveis para as receber. É para isso que o profeta nos quer despertar: «Procurai o Senhor»(Is 55, 6). Nunca deixemos, então, de procurar o Senhor. Como afirma o salmista, «o Senhor está próximo de quantos O invocam»(Sal 144, 18). Ele está sempre perto e está sempre perto com a Sua justiça já que «o Senhor é justo em todos os Seus caminhos»(Sal 144, 17). Em suma, o Senhor é justo em tudo, o Senhor é justo sempre.

Os primeiros cristãos tinham bem presente a justiça de Deus, sufragada com o sangue de Cristo na Cruz. Trata-se não de uma justiça punitiva, mas de uma justiça misericordiosa. Como oportunamente lembrou S. João Paulo II, na sua segunda encíclica, da justiça de Deus faz parte a misericórdia. A justiça e a misericórdia não litigam entre elas, requerem-se entre si. A verdadeira justiça não é punição. A verdadeira justiça é misericordiosa e a verdadeira misericórdia é justa.

E. Deus dá «o que é justo», ou seja, dá-Se a Ele mesmo

9. Os primeiros cristãos não ambicionavam obter lucro para cada um, mas satisfazer as necessidades de todos. Importante não era que alguns acumulassem muito, mas que todos dispusessem do essencial. Num tempo em que muitos chamam seu ao que é comum, seria bom que cada um se dispusesse a considerar comum o que é seu. Trata-se daquele «comunalismo» desenhado nos Actos dos Apóstolos e que tanto impressionava os contemporâneos dos cristãos da primeira hora (cf. Act 4, 32). Eles punham tudo em comum (cf. Act 2, 44-45) e partilhavam o que tinham (cf. Act 4, 32) pelo que «não havia pessoas necessitadas entre eles» (Act 4, 34).

O que nos pertence não nos pertence só a nós, pertence também aos outros. Se o conseguimos com o nosso trabalho, saibamos reparti-lo com o nosso amor. Afinal, Jesus sentenciou que «há mais felicidade em dar do que em receber»(Act 20, 35). A felicidade está mais na dádiva do que na posse. Somos felizes quando multiplicamos o que nos foi dado, dividindo-o pelos outros.

 

10. No Reino dos Céus, não há contratos nem salários. No Reino dos Céus, há uma proposta que aguarda por uma resposta. Se a resposta for «sim», a recompensa está garantida. A recompensa não depende de nós, depende de Deus. Não depende do nosso trabalho, mas da generosidade de Deus.

Deus começa a vir desde muito cedo ao nosso encontro. Neste relato do Evangelho, vemo-Lo vir por cinco vezes. Os vários momentos do dia simbolizam as várias etapas da vida. Em cada instante, Ele vem convidar-nos para a Sua vinha (cf. Mt 20, 7). Deus nunca começa a desistir e nunca desiste de começar.

A todos Ele promete o que for justo (cf. Mt 20, 7). Não há maior justiça do que dar o justo. Sucede que o justo é Ele, o próprio Deus. O doador é também o dom. É Deus que Se dá a quem se dá. E dá-Se por igual porque Deus não pode dar-Se menos que todo. Deus não Se parte quando Se reparte. Deus não encolhe quando escolhe dar-Se. Ele dá-Se todo a todos, a começar pelos últimos. Os últimos são sempre os primeiros (cf. Mt 16), certamente porque são os mais carenciados. A hora do pagamento, afinal, é para todos uma hora de graça, uma hora de dom.

Há, no entanto, quem reaja, quem seja contaminado pela inveja e pelo ciúme. No fundo, não falta quem pretenda um Deus à sua imagem em vez de procurar agir à imagem de Deus. Há quem se sinta mal diante da bondade. Há quem se sinta mal por Deus ser bom. Há, simplesmente, quem não perdoe a bondade. Costa Freitas, antes de morrer, dizia para perplexidade de quem o ouvia: «As pessoas perdoam mais facilmente o mal que se faz do que o bem que se pratica». O Evangelho faz-se eco deste aturdimento: «Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»(Mt 20, 15). Como recordava Agostinho da Silva, «o supremo entender é a bondade».

Só pela bondade viveremos de uma «maneira digna do Evangelho de Cristo», como nos pede S. Paulo na Segunda Leitura (cf. Fil 1, 27). E um cristão deve saber que, para ele, «viver é Cristo»(Fil 1, 21). Não é ele que vive; é Cristo que vive nele (cf. Gál 2, 20). Cristo vive em nós quando tornamos transparentes a Sua mensagem e a Sua vida, a Sua justiça e a Sua bondade. Só atrai para Cristo quem procura viver em Cristo, de Cristo e como Cristo!

publicado por Theosfera às 20:43

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