O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 16 de Agosto de 2015

A. Dar a carne é dar a vida

  1. O Pão de Deus — Pão vivo e Pão da Vida — é muito superior à nossa compreensão, mas não é inacessível à nossa disponibilidade. Neste sentido, o importante não é que compreendamos o seu significado. O importante é que estejamos disponíveis para nos alimentarmos com ele, e para nos deixamos transformar por ele.

Na Sua catequese eucarística, Jesus aparece uma vez mais a usar a fórmula de revelação «Eu sou», antes de concretizar que o «Seu Pão» é a «Sua carne», que Ele dará pela vida do mundo (cf. Jo 6, 51).

 

  1. Recordemos que a palavra «carne» designa a realidade física do homem, na sua estrutural debilidade. A fragilidade é o que mais corresponde à experiência que fazemos e à percepção que temos. Tony Blair reconheceu que «ser humano é ser frágil». Ao assumir que vai oferecer a «Sua carne» por nós, Jesus mostra que partilha da nossa fragilidade. Não paira à distância. Faz Seu o que é nosso.

Contudo, isto não é fácil de entender. Os judeus não entendem as palavras de Jesus (cf. Jo 6, 51). Quando Jesus Se apresenta como «Pão vivo descido do céu para dar a vida ao mundo», eles entenderam que Jesus pretendia ser uma espécie de «mestre de sabedoria» que trazia aos homens notícias de Deus. Só que, agora, Jesus usa o verbo «comer». Jesus convida a «comer» a Sua carne. O que significam as Suas palavras? Terão alguma conotação antropofágica? São, sem dúvida, palavras difíceis de entender sob qualquer ponto de vista.

 

B. A Eucaristia ajuda a compreender o incompreensível

 

3. A única perspectiva que nos faz compreender o que Jesus diz é uma perspectiva eucarística. A Eucaristia é a chave de toda a Teologia e de toda a vida cristã. É sobretudo na Eucaristia que sabemos o que se deve saber e o que importa fazer. Só que os judeus não podem — nem querem — entender.

Mas nem assim Jesus desiste. Jesus reitera a Sua afirmação e vai até mais longe. Ele não só vai dar a «comer» a Sua carne, mas vai também dar a beber o Seu sangue. Quem os aceitar recebe a vida definitiva, a vida eterna (cf. Jo 6, 53-54).

 

  1. Esta referência ao «sangue» coloca-nos no contexto da paixão e da morte. Pelo que dizer que Jesus é «carne» significa que Ele Se tornou pessoa como nós, assumindo a nossa condição de fraqueza, a que não falta sequer a própria morte. Concretizando, dizer que o pão que Ele há-de dar é a Sua «carne para a vida do mundo» significa que Jesus fez da Sua vida um dom, uma oferta, uma dádiva, uma entrega de amor por toda a humanidade. O ponto momento alto da entrega dessa vida é a morte na Cruz.

Aquela morte surge, assim, como a expressão máxima daquela vida. Na Cruz, manifesta-se, através da «carne» de Jesus, isto é, através da Sua realidade física, o Seu amor, o Seu dom, a Sua entrega.

 

C. Que significa «comer» e «beber»?

 

5. Por conseguinte, quem quiser seguir Jesus tem de «comer» e «beber». Ou seja, tem de «aderir», «acolher» e «assimilar» Jesus. O discípulo não tem de ser outro Jesus, porque não há outro Jesus. O cristão tem de procurar ser sempre Jesus.

O que Jesus está a pedir é que os Seus discípulos acolham e assimilem essa vida de amor, de dom, de entrega, que Ele mostrou na Sua pessoa, na Sua vida e na Sua morte. A Sua pessoa, a Sua vida e a Sua morte foram momentos de uma doação total, até à última gota de sangue. Quem se der assim, terá acesso à vida eterna, a uma vida plena, a uma vida feliz. Quem está com Jesus no tempo com Jesus estará por toda a eternidade.

 

  1. A Eucaristia celebra e actualiza esta doação na comunidade cristã e na vida dos crentes. O mesmo Jesus, que se doou até ao fim para lá de todos os limites, continua a oferecer-Se como alimento. Por isso, o discípulo que «come» e «bebe» a Sua «carne» e o Seu «sangue» compromete-se a dar a vida como Ele deu, como Ele sempre dá.

É por isso que as Eucaristias não se somam, mas integram-se. Muito pertinente era o saudoso D. António de Castro Xavier Monteiro quando perguntava aos cristãos: «Quantas vezes comungastes o Corpo de Cristo e quantas vezes vos transformastes no Corpo de Cristo?». Comungar Cristo tem de equivaler a transformarmo-nos em Cristo.

 

D. Transformemo-nos em Cristo

 

7. A Eucaristia tem uma celebração sacramental e há-de ter sempre uma celebração existencial. Quando termina a Missa, tem de começar a Missão. Somos chamados a transformarmo-nos em Cristo neste mundo para ajudarmos a transformar o mundo em Cristo.

Um dos efeitos do «comer a carne» e «beber o sangue» de Jesus é ficar em comunhão íntima com Jesus. O discípulo que adere a Jesus identifica-se com Ele e torna-se um com Ele (cf. Jo 6, 56). Outro efeito de «comer a carne» e «beber o sangue» de Jesus é o compromisso. Quem «come a carne» e «bebe o sangue» de Jesus tem de se comprometer com o projecto de Jesus: dar vida ao mundo, dar a vida pelo mundo. É por este caminho que se chega a essa vida plena e definitiva que Jesus veio propor aos homens. Do «comer a carne» e do «beber o sangue» de Jesus nasce uma nova humanidade, que vence a morte e vive para sempre (cf. Jo 6, 58). A Eucaristia, onde se «come a carne» e «bebe o sangue» é, assim, uma forma singularíssima de tornar presente, na vida dos crentes, a vida e o amor de Jesus.

 

  1. É aqui que se encontra o «senso cristão», que tantas vezes desperdiçamos. Com efeito, o cristão não é chamado a viver segundo o senso comum. S. Paulo alerta-nos para a nossa maneira de proceder e diz para não vivermos como «insensatos»(cf. Ef 5, 15). Ao apelar para sermos pessoas de senso, ele está seguramente a exortar para que vivamos segundo o senso de Cristo.

Não basta, pois, qualquer senso nem sequer o consenso. O importante é crescermos todos no senso de Cristo. É no senso de Cristo que aproveitaremos bem estes dias maus (cf. Ef 5, 16). Os tempos não ajudam muito, mas Cristo ajuda-nos sempre e em tudo. E é sobretudo nos dias maus que temos de ter uma conduta boa. Não tenhamos uma conduta má nos dias maus.

 

E. Embriaguemo-nos, mas não com vinho

 

9. S. Paulo apela: «Não vos embriagueis com vinho, que leva à vida desregrada, mas deixai-vos encher do Espírito»(Ef 5, 18). Não nos embriaguemos com vinho. Embriaguemo-nos, antes, de Espírito, que nos infunde a vida de Deus. Trata-se de uma vida que recebemos no dia do Baptismo e que deve encher os nossos corações.

  1. Paulo faz um convite à oração, ao louvor e à acção de graças ao Senhor. Não tenhamos medo de pedir, mas não nos esqueçamos de agradecer. A oração é importante para tudo: para pedir e também para agradecer. Há tanto para pedir sem dúvida. Mas há muito mais para agradecer. Quando o louvor é feito em comunidade, torna-se partilha e projecto comum na descoberta da vontade de Deus para o homem e para o mundo (cf. Ef 19-20).

 

  1. Quando sabemos agradecer os dons de Deus estamos no caminho da sabedoria, de que nos fala a Primeira Leitura. Ela surge-nos hipostasiada sob a forma de uma dona de casa, que convida para o banquete. Não descura nada: constrói uma «casa» com «sete colunas»(Prov 9, 1), pois o número sete é o número da plenitude, da perfeição. Prepara comida e vinho em abundância e põe a mesa (cf. Prov 9, 2). Depois, envia criadas para que levem a toda a cidade o convite para participar na festa (cf. Prov 9, 3).

Quem são os destinatários do convite feito pela «senhora Sabedoria»? São os «simples», chamados «inexperientes» e «insensatos» (cf. Prov 4-6). Não é preciso, portanto, ser muito dotado para chegar a Deus. É o próprio Deus que nos dota. O importante é estar aberto. E os simples, porque estão vazios de si, costumam mostrar uma abertura maior. Sejamos sempre simples e estejamos sempre atentos. O convite de Jesus não demora a chegar!

publicado por Theosfera às 00:58

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