O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 24 de Fevereiro de 2019

A. O Evangelho também nos lê



  1. Nós lemos o Evangelho, mas o Evangelho também nos lê. Nós vemos o Evangelho, mas o Evangelho também nos vê. Nós interpretamos o Evangelho, mas o Evangelho também nos interpreta. Nós lançamos palavras acerca do Evangelho, mas o Evangelho também lança palavras para nós.

O Evangelho já está adequado a nós. O importante, agora, é que nós nos adequemos ao Evangelho. Em Cristo, Deus faz-Se o que nós somos. Estaremos nós dispostos — no mesmo Cristo — a fazermo-nos o que Deus é? Teremos vontade de viver à maneira do Evangelho?



  1. As palavras do Evangelho são mais do que palavras de demonstração. Elas são, acima de tudo, palavras de mostração. A principal preocupação do Evangelho é mostrar Deus. E, nessa medida, é mostrar como deve ser a nossa vida a partir de Deus.

Há, desde já, que perguntar. Nós, que tanto procuramos demonstrar Deus, que fazemos para mostrar Deus? Em relação a Deus, a razão tenta demonstrá-Lo, mas só o amor consegue mostrá-Lo. É por isso que a razão pode convencer, mas é o amor que nos faz viver. Tendo em conta que Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8.16), será sempre pela via do amor que aproximaremos Deus das pessoas e as pessoas de Deus.


B. Amor para sempre, amor para todos



  1. É por isso que o Evangelho preceitua o amor: o amor para sempre e o amor para todos. Para o cristão, o amor nunca pode ser limitado nem selectivo. Para o cristão, o amor jamais pode deixar alguém de fora. Os que o merecem estão à espera dele. E os que o não merecem são os que mais precisam dele.

Daí que Jesus ordene para não amarmos apenas os que nos amam (cf. Lc 6, 32). Isso é o trivial, o humano. Desumano seria odiar quem nos ama. Só que o cristão deve ir mais longe. O seu amor há-de incluir os amigos, mas sem excluir os inimigos. É esta a suprema provocação de Jesus: «Amai os vossos inimigos» (cf. Lc 6, 27. 35).



  1. Eles podem não querer, mas nós não podemos deixar de oferecer. Dir-se-ia que o amor é ainda mais necessário junto daqueles que vivem ao contrário. É certo que não é fácil conquistar para o amor quem chafurda nas lamacentas passadeiras do ódio. Há mesmo quem pense que as duas coisas mais difíceis são converter a água em vinho e transformar o inimigo em amigo.

Mas há que tentar. Há, pelo menos, que não desistir de tentar. No mínimo, não sejamos inimigos dos nossos inimigos. É que, se respondemos com ódio ao ódio, acabamos por contribuir para semear mais ódio.


C. Deixemos o juízo para Deus



  1. Se os «profissionais do ódio» vão ao ponto de odiar aqueles que amam que os «profissionais do amor» não desistam de amar, mesmo aqueles que odeiam. O amor não vence quando se vinga; o amor só triunfa quando perdoa. Assim sendo, o bem deve ser feito até àqueles que odeiam (cf. Lc 6, 27).

É preciso bendizer até aqueles que maldizem (cf. Lc 6, 28), sabendo que a nossa tendência é para maldizer até aqueles que bendizem. É claro que tudo isto requer uma dose sobre-humana de autodomínio, de contenção e de paciência. A quem bater numa face, o caminho não é bater na face do outro, mas dar a face ao outro para que, eventualmente, ele continue a bater (cf. Lc 6, 29). Mas quem está disposto a isso?



  1. A vingança será humana, mas só o perdão é cristão. Daí a insistência de Jesus: «Perdoai» (Lc 6, 37). Não «vingai», mas «perdoai». O primeiro passo é não julgar e não condenar: «Não julgueis» e «Não condeneis» (Lc 6, 37).

Infelizmente, estamos num mundo — e vivemos num tempo — que banaliza os julgamentos severos e as condenações impiedosas. Deixemos o juízo para Deus (cf. Deut 1, 17). Só Ele está em condições de julgar. E evitemos todas as condenações. Habituemo-nos a dar novas oportunidades. Os que erram uma vez podem acertar noutra vez. E, afinal, quem não erra, quem não cai? Será curial negar aos outros o que reclamamos para nós?


D. Que seria do homem sem a misericórdia de Deus?



  1. Como se julgar — e condenar — já não fosse censurável, temos uma assustadora inclinação para julgar — e condenar — com base em meras suspeitas e preconceitos. Quantas vezes culpamos quem está inocente, acabando por inocentar quem está verdadeiramente culpado! Mas mesmo para quem está culpado estendamos as mãos, em vez de virar as costas. Quem furta uma vez não é necessariamente um ladrão. É alguém que certamente falhou e que, por tal motivo, precisa de ser ajudado para não voltar a cair.

É urgente instaurar no mundo uma cultura da tolerância, da clemência e da compaixão. Estamos cansados de tanto radicalismo implacável, que condena sem julgar e que julga sem dar oportunidade de defesa. No fundo, precisamos de dar mais guarida aos sentimentos do que aos ressentimentos. É o amor que tem de imperar se o mundo quisermos mudar. Não há outra via. Nada mais devolverá ao mundo o sentido e a alegria. Só o amor fará despontar um novo caminho para trilhar.



  1. Nós, cristãos, temos sem dúvida muito para ensinar; mas temos muito mais para aprender. Também nós temos falhas no amor. Também entre nós há muitas suspeições, difamações e calúnias. O amor está perto de nós, mas nós nem sempre estamos perto do amor. Não foi em vão que o teólogo Hans Urs von Balthasar reconheceu que «só o amor é digno de fé». Ou seja, só o amor oferece credibilidade à fé. À semelhança de Jesus, deixemos transparecer o amor na nossa vida e no nosso testemunho. Se Deus é misericordioso (cf. Lc 6, 36), sejamos misericordiosos.

Como verbalizou São Tomás, «a misericórdia é o que de melhor podemos dizer acerca de Deus». Que seria de nós sem a misericórdia de Deus? Sem misericórdia, não teríamos solução. Sem misericórdia, não haveria salvação («extra misericordiam, nulla salus»).


E. Onde a misericórdia marcar presença, a felicidade fará a diferença



  1. Num mundo tortuosamente imisericordioso, é estimulante saber — e reconfortante sentir — que Deus é imoderadamente misericordioso. Deus é poderoso porque é misericordioso. É na Sua misericórdia que reside o Seu poder. Não espanta, pois, que ela figure na galeria das saudações entre os primeiros cristãos. «Misericórdia, paz e amor» era, por exemplo, o que São Judas desejava aos destinatários da sua epístola (cf. Jd 1, 2). Porque Deus é «rico em misericórdia» (Ef 2, 4), ninguém, na Igreja de Deus, pode ser avaro na misericórdia. A misericórdia nunca pode ser poupada. A misericórdia tem de ser saudavelmente esbanjada. Se Deus é misericordioso e se cada um de nós é imagem de Deus (cf. Gén 1, 26), então é pela misericórdia que realizaremos a nossa semelhança com Deus.

A história parece estar a degolar constantemente a misericórdia. Sob o pretexto da justiça, a misericórdia parece estar sempre a ser encolhida — e engolida — pela vingança. Um dos nossos pecados originais tem sido a separação destas duas irmãs siamesas: a misericórdia e a justiça. Dessa separação resulta uma entorse para cada uma. Sem misericórdia, a justiça altera-se. Sem justiça, a misericórdia adultera-se.



  1. É neste sentido que Deus nunca troca a misericórdia pela justiça nem abandona a justiça pela misericórdia. As suas abastecem-se mutuamente: Deus nunca julga sem misericórdia e, quando perdoa, a justiça nunca é prejudicada. É, pois, nosso dever reagregar o que Deus não aceita separar. Chegou a hora de perceber que a justiça tem de ser misericordiosa e que a misericórdia tem de ser justa. Quando uma falta, as duas falham.

A justiça divina não é uma justiça punitiva, mas uma justiça misericordiosa. Como oportunamente lembrou São João Paulo II, da justiça de Deus faz parte a misericórdia. A justiça e a misericórdia não litigam entre elas, requerem-se entre si. Se formos verdadeiramente justos, a misericórdia não ficará de lado. E se formos autenticamente misericordiosos, a justiça não ficará de fora. Onde a misericórdia entrar, a paz nunca há-de sair. Onde a misericórdia marcar presença, a felicidade fará a diferença!

publicado por Theosfera às 05:01

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