O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 21 de Junho de 2015

 A. Uma constante tempestade é a nossa vida

  1. E eis que, no Domingo em que começa o Verão, a Liturgia nos aparece a falar de tempestades. Sabemos que, como ouvimos na Primeira Leitura, Deus é capaz de nos falar até na tempestade (Job 38, 1). Só que, como insinua o Evangelho, nas «tempestades» que enfrentamos na vida parece que Deus, por vezes, adormece.

A nossa vida assemelha-se uma constante tempestade, em que ondas de toda a espécie arremetem contra as «embarcações» em que navegamos (cf. Mc 4, 37). Sentimo-nos inseguros perante tudo e diante de todos. São os problemas do presente e as incertezas do futuro. É a necessidade de ter trabalho e a ansiedade de perder o trabalho. É a violência na rua e a violência em casa. O mal não cessa de crescer e a maldade não desiste de nos ameaçar. Enfim, tudo parece tumultuar à nossa volta e dentro de nós.

 

  1. Como reconhece Bruno Forte, «nunca avaliaremos suficientemente o sofrimento do mundo, pois parece que a história avança através da dor, nos conflitos de interesses, de classes, de raças, de indivíduos e de povos». De uma forma ou de outra, todos somos marcados pelo sofrimento. Sejam as tragédias dos outros ou os dramas nossos, todos estamos envolvidos por esta «cartografia do sofrimento». Doenças, acidentes, catástrofes, assassínios ou injustiças, tudo isto nos acompanha, tudo isto nos desperta — a duras penas — para o mistério da vida.

Quase se poderá dizer: «Sofro, logo existo». De facto, dá a impressão de que não sofremos porque existimos, mas existimos porque sofremos. Só damos conta verdadeiramente de que existimos quando sofremos, isto é, quando o sofrimento nos põe em causa. É no sofrimento que nos sentimos mais vulneráveis e, portanto, mais questionados. Que sentido tem, afinal, a nossa vida?

 

B. Tantas perguntas sem (aparente) resposta

 

3. Ao longo das tempestades da vida, quase todos se voltam para Deus e não poucos vão ao ponto de se voltar contra Deus.

As perguntas podem não vir aos lábios, mas não param de saltitar na alma: «Porque é que Deus não age? Porque é que Deus não nos protege? Porque é que uns rezam pouco e parecem ser logo atendidos e outros rezam tanto e parecem nunca ser escutados? Que mal fiz eu a Deus? Se Deus existe, porque é que tenho de sofrer tanto? Porque é que tudo parece correr bem a quem faz o mal e porque é que tudo parece correr mal a quem faz o bem? Como entender o sofrimento dos justos e dos inocentes? Como perceber que uma criança, que não faz sofrer ninguém, tenha de sofrer tanto? Como compreender que uma criança contraia uma leucemia ou um cancro? Ou como explicar que um velhinho, impossibilitado de andar, tenha de passar tantos anos sozinho numa cama?»

 

  1. Também Job, duramente provado pelo sofrimento, pretendia compreender. Alguns dos amigos de Job procuram responder às suas inquietações, desfiando as explicações habituais: o sofrimento é o resultado do pecado do homem; pelo que, se Job está a sofrer, é porque pecou.

Inconformado, Job recusa uma conclusão tão simplista. Por conseguinte, vai desmontando algumas ideias feitas em Israel. Recusa que Deus Se limite a registar as acções boas e más do homem pagando em conformidade. Deus não pode ser isso. Então, Job dirige-se directamente a Deus. No seu discurso, cruzam-se, entretanto, a animosidade, o queixume, o inconformismo, a dúvida e a revolta com a esperança, a fé e a confiança.

 

C. Quando o desânimo espreita

 

5. Quando, finalmente, Deus enfrenta Job, como que o coloca no «seu lugar». Recorda-lhe a sua condição de criatura, limitada e finita. Mostra-lhe como só Ele conhece as leis que regem o universo e a vida. Demonstra-lhe a Sua preocupação e o Seu amor por cada criatura. Exorta-o a não pôr em causa os desígnios de Deus para o mundo, já que esses desígnios ultrapassam infinitamente a capacidade de compreensão e de entendimento de qualquer criatura.

Deus tem uma lógica que parece «alógica» ou até «ilógica», já que ultrapassa e desmonta infinitamente aquilo que cada homem é capaz de entender. Finalmente, Job percebe o seu lugar, reconhecendo a transcendência de Deus e o carácter insondável dos Seus projectos. Entrega-se nas mãos de Deus com humildade e confiança.

 

  1. Também os discípulos não entendem o comportamento de Jesus. Aquela tempestade que se desencadeou no mar da Galileia como que prenuncia as perseguições que os futuros discípulos iriam enfrentar ao longo dos tempos.

Num caso e noutro, escuta-se o chamamento para o trabalho, mas parece que, depois, prevalece o silêncio na hora da provação. Num caso e noutro, o desânimo é grande e a desconfiança é geral. O desnorte parece contaminar o espírito de todos. Pouco falta para o desespero se apoderar de cada um. Que fazer? Que rumo tomar? Que caminhos seguir?

 

D. É Jesus que não está connosco ou somos nós que não damos conta d’Ele?

 

7. Enquadremos, brevemente, o episódio que o Evangelho nos propõe. O Lago de Tiberíades, designado frequentemente por «Mar da Galileia», é um lago de água doce, alimentado sobretudo pelas águas do rio Jordão, com 12 quilómetros de largura e 21 quilómetros de comprimento. As tempestades que se levantavam neste «mar» podiam aparecer rapidamente e ser especialmente violentas.

Neste contexto, colocar o barco «no mar» significa colocá-lo num ambiente hostil, adverso e perigoso. Acresce que tudo acontece «ao cair da tarde»(Mc 4, 35). Trata-se, portanto, de uma altura em que a luz começa a faltar. É por isso que os riscos são sérios.

 

  1. No barco vai Jesus com os discípulos (cf. Mc 4, 36). O barco é, na catequese cristã, o símbolo da Igreja de Jesus que navega pela história. É Jesus que conduz o barco, mas Ele confia aos discípulos a navegação. É aos discípulos que é confiada a tarefa de, em nome de Jesus, orientar os caminhos da Igreja pelo mar alterado da vida. Note-se que o barco vai «para a outra margem» (Mc 4, 35), ou seja, ao encontro dos outros povos, dos povos de toda a terra.

O «sono» de Jesus durante a viagem refere-se, possivelmente, à sensação que os cristãos têm de que Deus, frequentemente, está em silêncio ao longo da história. Ocupados em orientar o «barco», os cristãos sentem, por vezes, que estão sós, abandonados à sua sorte e que Jesus não está com eles para enfrentar tormentas da viagem. Mas será que é Jesus que não está connosco ou seremos nós que não nos apercebemos da Sua presença? Na verdade, Jesus está connosco no «barco. Como poderia ser de outro modo se Ele prometeu ficar com connosco «todos os dias, até ao fim do mundo»(Mt 28, 20)?

 

E. A «barca» que vacila, mas não cai

 

9. Jesus quer que nos entreguemos como se tudo dependesse de nós e que confiemos como se tudo dependesse d’Ele. E, de facto, tudo depende de Jesus. É nas horas de tempestade que mais precisamos de sentir a Sua presença. Os cristãos antigos diziam que a Igreja é, com efeito, uma barca que vacila, mas não cai. Porquê? Porque o seu «piloto» é Cristo e o seu «mastro» é a Cruz. É por isso que, na Liturgia das Horas, cada um de nós pode rezar: «Se me colhe a tempestade e Jesus vai a dormir na minha barca, nada temo porque a Paz está comigo». Esta paz é, obviamente, o próprio Jesus (cf. Ef 2, 14).

É Jesus que acalma a fúria do mar e do vento, com a sua Palavra imperiosa e eficaz. (Mc 4, 39). A Palavra de Jesus é mais forte que a mais forte das tempestades. No fundo, não é Jesus que adormece; nós é que parecemos sonolentos em relação à Sua presença no meio de nós. Jesus nunca deixa de acompanhar os Seus discípulos: de ontem, de hoje e de sempre.

 

  1. Jesus repreende a falta de fé dos discípulos. É essa falta de fé que os traz assustados (cf. Mc 4, 40). No fundo, ainda não se tinham colocado inteiramente nas mãos de Deus. Falta perceber, hoje como ontem, que o trabalho é nosso, mas a obra é d’Ele, de Jesus.

Não desfaleçamos, pois. Jesus vai sempre connosco. Connosco atravessa as tempestades da vida. E, às vezes, é quando parece mais ausente que Ele está mais presente. Ele está presente para serenar as tempestades. Com Ele, todas as tempestades se acalmam. Não tenhamos medo dos vendavais que possam sobrevir e não recuemos quando os problemas começarem a vir. É no meio dos problemas que o testemunho tem de ser mais insistente e fiel. É bom saber — e importante sentir — que, nas tempestades da vida, há sempre um Cristo que vem, um Cristo que chama, um Cristo que serena os temporais, um Cristo que nos acalma no meio dos temporais!

publicado por Theosfera às 08:04

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