O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 20 de Junho de 2019

A. O maior dos milagres



    1. Apesar de ter voltado para o Pai, Jesus Cristo continua presente no mundo. É uma presença real — da realidade de Cristo na realidade do mundo — que atinge o seu ápice na Eucaristia. Porque é sobretudo na Eucaristia que se faz o que Ele mandou fazer em Sua memória: comer o pão (cf. 1Cor 11, 23-24; Lc 22, 19) e beber do cálice (cf. 1Cor 11, 25; Mc 14, 23; Mt 26, 27).

    Sucede que este pão já não é pão; é o Corpo de Jesus Cristo. Do mesmo modo, este cálice já não é cálice; é o Sangue de Jesus Cristo. Jesus está realmente presente naquele pão e naquele cálice. Há, pois, uma mudança de substância em tal pão e em tal cálice. Nestes, como reparou São Paulo VI, «já não há o que havia anteriormente, mas outra coisa completamente diferente».



    1. Esta mudança de substância (transubstanciação) configura, «o maior dos milagres». São Cirilo de Jerusalém verbalizou com suprema precisão o que se passa: «Aquilo que parece pão não é pão, apesar do sabor que tem, mas sim o Corpo de Cristo; e o que parece vinho não é vinho, apesar de assim parecer ao gosto, mas sim o Sangue de Cristo».

    O que passamos a ter, como notou Santo Ambrósio de Milão, «já não é o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou». Na Eucaristia, Cristo vem até nós e nós vamos até Cristo; nós recebemos o Corpo e o Sangue de Cristo e Cristo recebe o nosso corpo e o nosso sangue. Cristo assume a carne de quem comunga a Sua.


    B. Pão que já não é pão, mas Cristo



    1. A transubstanciação é muito mais do que uma mudança de significado (transignificação) ou de finalidade (transfinalização) das espécies eucarísticas. No fundo, a transubstanciação consiste numa conversão. A substância do pão e do vinho converte-se na substância do Corpo e do Sangue de Jesus.

    Estamos perante a maior conversão que pode ocorrer. No pão e no vinho, a realidade do mundo converte-se na realidade de Cristo. É, sem dúvida e como lhe chamou São Paulo VI, uma «conversão admirável e sem paralelo».



    1. Ao mandar comer o pão e beber do cálice em Sua memória (cf. 1Cor 11, 24-25), Jesus está a admitir que a Ceia não termina naquela noite. A conversão do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor são possíveis porque — sublinha Karl Rahner — «a Ceia não acabou». O que então se verificou nunca deixa de se verificar pois «insere-se no espaço e no tempo que são nossos».

    Tentando conceptualizar este mistério, Xavier Zubiri apercebe-se de que, na Eucaristia, somos visitados pela «actualidade do pão feita actualidade de Cristo». Pelo que «o pão eucarístico é o Corpo de Cristo; é Cristo mesmo».


    C. Meta e fonte da missão



    1. A presença real de Cristo não é um exclusivo da Eucaristia (como se as outras presenças fossem irreais), mas acontece por excelência na Eucaristia. A presença real de Cristo na Eucaristia não é a única, mas — avisa o Catecismo — «o modo de presença de Cristo na Eucaristia é único». Trata-se de uma presença substancial dado que, por ela, Se torna presente Cristo completo, Deus e homem.

    É, pois, na Eucaristia que a presença real de Cristo — ou seja, a Sua presença total, divina e humana — se exprime plenamente, «com uma intensidade sem par». Tendo em conta que, pelas palavras da consagração, a substância do pão e do vinho se converte na substância do Corpo e do Sangue do Senhor, então é a realidade de Cristo que se torna presente na realidade do mundo.



    1. Daí a centralidade deste sacramento na vida da Igreja. Como São João Paulo II teve oportunidade de recordar, a Eucaristia está no centro e no vértice da vida da Igreja: ela «contém o próprio núcleo do mistério da Igreja».

    Compreende-se, deste modo, que o objectivo do trabalho pastoral seja que todos os baptizados participem na Eucaristia. Ela é meta e, ao mesmo tempo, fonte da missão, despontando como alimento — e alento — para quantos andam envolvidos na evangelização.


    D. Viver tem de ser cristoviver



    1. A Igreja «vive da Eucaristia» porque vive de Cristo nela realmente presente. Para a Igreja, viver terá de ser sempre cristoviver. É em Cristo que se estabelece um estreitíssimo vínculo entre a Igreja e a Eucaristia. Podem, por isso, predicar-se à Eucaristia os mesmos atributos da Igreja. Também a Eucaristia é una, santa, católica e apostólica.

    Em linha com uma convicção muito antiga, dir-se-ia que «a Igreja faz a Eucaristia» e que «a Eucaristia faz a Igreja». A Igreja, ao celebrar a Eucaristia, celebra a presença real daquele que deu a vida por ela: o próprio Cristo (cf. Ef 5, 25). Dizer, por conseguinte, que «a Eucaristia faz a Igreja» é, no fundo, dizer que quem faz a Igreja é Cristo.



    1. Se Cristo faz a Igreja entregando-Se por ela (cf. Ef 5, 25), então, ao fazer memória de Cristo, a Igreja faz memória dessa entrega. Isto significa que a Eucaristia actualiza a Cruz, onde Jesus consumou a entrega do Seu Corpo e o derramamento do Seu Sangue. Na Cruz, Jesus entrega-Se ephapax, isto é, «de uma vez para sempre» (cf. Rom 6,10; Heb 7,27; 9,12;10,10). E esta entrega não está destinada a cessar, durando até ao fim dos tempos.

    É assim que o sacrifício do Calvário se torna presente na celebração eucarística, como presente se torna a Ressurreição que se seguiu a tal sacrifício. Como notou São João Paulo II, no momento em que «actualiza o único e definitivo sacrifício de Cristo na Cruz», a Eucaristia «torna presente o mistério da Sua Ressurreição».

     

    E. Para celebrar, para adorar e para viver

    1. A Eucaristia não é só para celebrar; é também para adorar, para testemunhar e para viver. Pela sua centralidade, ela há-de ter um antes, um durante e um depois. Este, a bem dizer, nem sequer é um depois; é uma renovada vivenciação do mesmo mistério. Estar no exterior não significa estar fora. Não pode voltar para fora da Eucaristia quem, alguma vez, esteve dentro da Eucaristia. Pelo que a celebração sacramental da Eucaristia tem de ser sempre acompanhada pela respectiva celebração existencial.

    Nunca deixamos de estar em Eucaristia: o que celebramos no templo é para transportar para o tempo. As escadas que nos levam da rua para o altar são as mesmas que nos trazem do altar para a rua. No pobre e no faminto, visitamos o mesmo Cristo que encontramos no pão e no vinho. É neste sentido que São João Crisóstomo recomenda para irmos do «altar da Eucaristia» ao «altar dos pobres». No «altar da Eucaristia», recebemos tudo; no «altar dos pobres», somos impelidos a dar tudo.



    1. Eis a nova Cruzada que se perfila à nossa frente. Trata-se da Cruzada para libertar os templos de Cristo que são os milhões de pessoas que morrem à fome. Esta é uma Cruzada digna desse nome, ou seja, digna da Cruz de Cristo. É nos pobres que continuamos a ouvir dentro de nós, «com os ouvidos da fé, a voz de Jesus que nos repete: “Este é o Meu Corpo”».

    Quanto mais nos alimentarmos com o Pão da Eucaristia, tanto melhor alimentaremos os pobres com o pão de cada dia. É por tal motivo que a Missa não tem fim. Termina a Missa, começa a Missão. E a Missão consiste, basicamente, na distribuição do Pão: do Pão que vem de Deus e do pão que brota da terra dos filhos Seus! No Pão da Eucaristia e no pão da nossa mesa, é o mesmo Jesus que Se nos dá, em gesto de incomparável beleza. Que o Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus encha o mundo inteiro de paz e luz!

publicado por Theosfera às 05:53

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