O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 22 de Março de 2015

A. Viver é (também) aprender a deixar

  1. Nesta vida, andamos todos à procura de ter, de possuir, de ganhar, de conquistar. Até à igreja costumamos vir — legitimamente aliás — com o desejo de, junto de Deus, obter alguma coisa. É um facto que Jesus nos mandou pedir, garantindo que receberíamos o que pedíssemos (cf. Mt 7, 7). O problema é que, não raramente, esquecemos que o segredo da felicidade não está no que se recebe, mas no que se dá.

Um dia, um monge respondeu ao noviço: «Vieste aqui não para adquirir algo, mas para te libertares de muita coisa». A liberdade não está só no que se consegue, começa por estar no que se deixa. Viver também é aprender a deixar. Como bem notou Tomas Halik, muitas vezes, temos de deixar ambições, fantasias, planos e até ideias. A Quaresma é um tempo propício para percebermos que há muita coisa para deixar. Há que deixar o pecado, o egoísmo e a superficialidade.

 

 

  1. Não há dúvida de que é preciso ter muita coragem — e enorme humildade — para deixar o que temos e para largar o que gostaríamos de ter. Mas não percamos de vista que ser discípulo de Jesus começa por um acto de deixar. Ser discípulo implica deixar o trabalho (cf. Mt 4, 20). Ser discípulo pode implicar — coisa nada fácil — deixar a família (cf. Lc 9, 61). Ser discípulo implica deixar a vida que se tem (cf. Mt 10, 37) e — no limite — pode ir ao ponto de oferecer a própria vida (cf. Lc 14, 26).

Tal é, aliás, o exemplo do Mestre e, como Ele mesmo avisou, o discípulo não é superior ao Mestre (cf. Lc 6, 40). Nós somos discípulos do Mestre que dá a vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Jesus prefere sempre o verbo «dar» ao verbo «receber». E, na Sua coerência ilimitada, Ele dá inteiramente e dá-Se totalmente. Não espanta, por isso, que, para Jesus, haja maior felicidade em dar do que em receber (cf. Act 20, 35).

 

B. Deixar tudo para não perder ninguém

 

3. Jesus, no pedaço de Evangelho que escutámos, anuncia que está próxima a hora de ser glorificado (cf. Jo 12, 23). A glorificação de Jesus está precisamente no que Ele deixa. A Sua vida é como o «grão de trigo» lançado à terra para morrer (cf. Jo 12, 24). Por muito desconcertante que pareça a linguagem, é mesmo como diz Jesus: «Se o grão de trigo não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto»(Jo 12, 24).

Jesus sujeita-Se a perder tudo para não perder ninguém. Ele oferece a Sua morte pela nossa vida (cf. Jo 10, 10). E nós, discípulos de Jesus, que estamos dispostos a perder, que estamos dispostos a deixar? Para ficar com Jesus ressuscitado, é indispensável estar com Jesus crucificado. Para acompanhar Jesus no Seu regresso da terra, é imperioso acompanhar Jesus na Sua descida à terra. Afinal, quem quiser segui-Lo, tem de pegar na Cruz todos os dias (cf. Mt 16, 24). Na Cruz de Jesus está já a nossa cruz e na nossa cruz está sempre a Cruz de Jesus. Pode ser doloroso sentir que não há Ressurreição sem Cruz, mas é reconfortante saber que também não há Cruz sem Ressurreição.

 

  1. Que fique bem claro: o importante na fé não é o que esperamos conquistar, mas o que estamos dispostos a deixar. A penitência quaresmal é maximamente libertadora porque nos ajuda a deixar. A Quaresma vale não apenas pelo imenso que recebemos, mas também pelo muito que deixamos. Quando deixamos, apercebemo-nos de que, afinal, já estamos a receber. E damos conta de que aquilo que recebemos é muito melhor do que aquilo que deixamos.

Especialmente na Quaresma, somos convidados a deixar tudo quanto, em nós, obscurece a luz que Deus acende na nossa vida desde o Baptismo. Há tanta coisa para deixar. Há tanta coisa que (nos) pesa e que nos impede de acompanhar devidamente Jesus Cristo pelos caminhos do mundo.

 

C. A «dieta» que urge fazer

 

5. É preciso fazer dieta, deixando de lado o peso do egoísmo e da superficialidade. A penitência torna-nos mais leves, mais habilitados a sair de nós e a caminhar com Cristo. Por conseguinte, não pensemos apenas no que vamos receber na Quaresma. Pensemos também — e antes de mais — no que estamos dispostos a deixar a partir da Quaresma.

O que acumulamos nem sempre nos enriquece. Muitas vezes, o que acumulamos cá dentro só nos sobrecarrega, só dificulta os nossos passos. A Quaresma pode ser vista, portanto, como uma dieta que nos liberta de tanta adiposidade acidental e prejudicial, levando-nos a centrar o nosso apetite somente no essencial. E o essencial é Deus, é o amor de Deus, é o amor que vem de Deus para contagiar a humanidade e transformar a nossa vida.

 

  1. Através do Sacramento da Reconciliação, libertemo-nos do que nos traz aprisionados. Ao chegarmos à Casa de Deus, não comecemos logo a pedir. Comecemos, antes de mais, por deixar. Deixemos a nossa vida velha, a nossa vida antiga. Revistamo-nos de uma vida nova, de uma vida renovada. Essa vida nova — e continuamente renovada — tem o nome de Jesus. Ele é a novidade total e constante.

Mas, tal como Abraão deixou a sua terra (cf. Gén 12, 1), também nós temos de deixar a nossa vida antiga, a nossa vida rotineira, a nossa vida acomodada. Não é possível aderir a Jesus e, ao mesmo tempo, manter uma vida contrária ao estilo de Jesus.

 

D. Afinal, que estamos dispostos a deixar?

 

7. Há tanto para mudar em nós! Há tanta coisa para deixar e para largar! É essa (tanta) coisa que ergue muros — e cria obstáculos — à nossa adesão a Jesus e ao Seu Evangelho. É preciso aterrar no Evangelho. Jesus não Se limita a pairar. Em Jesus, Deus aterra na nossa história e enterra-Se completamente na nossa vida.

Como estes gregos, procuremos nós também ver Jesus (cf. Jo, 12, 21). E, como Filipe e André, procuremos também nós deixar ver Jesus (cf. Jo 12, 22). Procuremos ver Jesus no nosso mundo e procuremos deixar ver Jesus na nossa vida. Como Jesus foi a transparência do Pai — «quem Me vê, vê o Pai»(Jo 14, 6) —, que cada um de nós procure ser a transparência de Jesus. Que, pelo menos, nenhum de nós impeça alguém de se aproximar de Jesus.

 

  1. Como há dois mil anos, também hoje é preciso estar atento à «hora» de Jesus. É urgente acertar as nossas horas pela «hora» de Jesus. Jesus diz que «chegou a hora»(Jo 12, 23) e afirma que foi para «esta hora» que veio ao mundo (cf. Jo 12, 27). Conviver com Jesus passa por conviver longamente com a Cruz e com a Ressurreição do que dá a vida na Cruz. A «hora» de que fala Jesus é a «hora» da Cruz, a «hora» da Cruz gloriosa. Tal como Jesus Se preparou para a Sua «hora», também nos prepara para que não desfaleçamos na nossa «hora», na «hora» de dar testemunho de Jesus.

O tema da «hora» foi uma espécie de guião para Jesus. Logo nas bodas de Caná, Ele diz que ainda não tinha chegado a Sua «hora» (cf. Jo 2,4). E, em Jerusalém, na Festa das Tendas, o evangelista regista, por duas vezes, que os judeus queriam prendê-Lo, mas não o fizeram «porque ainda não tinha chegado a Sua hora»(Jo 7,30; 8,20).

 

E. Qual a «temperatura» do nosso amor?

 

9. Nós já estamos na «hora» de Jesus, que é a hora nova do tempo novo. A «hora» de Jesus é a hora do testemunho, a hora da missão, a hora da evangelização. O Pai está em sintonia com esta «hora», como se nota pela voz que se ouve do Céu: «Glorifiquei-O e tornarei a glorificá-Lo»(Jo 12, 28). Esta voz ouve-se por causa de nós. A glorificação de Jesus elevado na Cruz é o maior traço de união.

A Cruz liga-nos a Deus e liga-nos uns aos outros em Deus. Jesus elevado na Cruz atrai (cf. Jo 12, 32). Uma nova humanidade começa através da aliança nova prometida em Jeremias (cf. Jer 31,31-34. Trata-se da aliança nova anunciada para os últimos tempos e concretizada pelo Crucificado que Deus ressus­cita. Nessa aliança, Deus perdoa todos os pecados e vai ao ponto de não recordar mais as nossas faltas (cf. Jer 31,33-34).

 

  1. É uma humanidade totalmente nova, aquela que se inaugura em Jesus. A Carta aos Hebreus assegura que a Sua entrega na Cruz oferece-nos a «salvação eterna»(Heb 5, 9). Jesus não Se poupa a nada para que nós possamos obter tudo, tudo o que verdadeiramente importa: a salvação, a felicidade. Não foi fácil. Foi até tremendamente difícil. De facto, Jesus consumou a Sua entrega na Cruz no meio de «grandes clamores e lágrimas»(Heb 5, 7). Também para Jesus, o que vale custa e o que custa vale. Até Jesus, apesar de Filho de Deus, treme e estremece diante da morte. Mesmo assim, não vacilou. Jesus deixa tudo para nos dar tudo. Esta é a vivência suprema da Lei do Amor, que Ele pregou a todos e testemunhou como ninguém. O amor não se avalia pelo que se consegue obter, mas pelo que somos capazes de dar.

Qual a «temperatura» do nosso amor? Que estamos dispostos a deixar? Talvez ainda estejamos muito presos a muitas coisas. Escutemos, por isso, o imenso «grito» que nos vem da Cruz. Deixemos os ódios, as mentiras e as vaidades. E deixemos também as vinganças, os ressentimentos e as mágoas. Aquilo que iremos receber é infinitamente mais do que aquilo que possamos deixar!

publicado por Theosfera às 08:29

mais sobre mim
pesquisar
 
Março 2015
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9





Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
online
Number of online users in last 3 minutes
vacation rentals
citação do dia
citações variáveis
visitantes
hora
Relogio com Javascript
relógio
pela vida


petição

blogs SAPO


Universidade de Aveiro