O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 25 de Março de 2018

A. Jesus fala tão pouco num texto tão longo

 

  1. Acabamos de escutar um texto longo, que faz parte do Evangelho mais breve. O Evangelho de São Marcos tem 16 capítulos e 677 versículos. Dois desses 16 capítulos e 119 desses 677 versículos são proclamados neste dia.

E o que, sem dúvida, mais nos impressiona é que, num texto tão longo, Jesus fale tão pouco. Mas o silêncio de Jesus é bastante sonoro. É um silêncio que faz falar os gestos, que faz falar as atitudes, que faz falar o próprio sangue.

 

  1. Para nós, falar tornou-se sinónimo de produzir sons. Deixamos de ter sensibilidade para lidar com a palavra fora do som. Pelo que dificilmente nos habituaremos a comunicar em silêncio.

Acontece que, se repararmos bem palavra e silêncio não são incompatíveis. A palavra pode vir não apenas pelo som, mas também pelo silêncio. Daí que o silêncio seja necessário não somente para escutar, mas também para comunicar.


 

B. Porque é que Jesus grita?

 

  1. Acresce que comunicar em silêncio é (por assim dizer) a especialidade de Deus. São João da Cruz — com a argúcia que só os poetas e os místicos conseguem ter — assinalou que Deus proferiu uma única palavra e proferiu-a em silêncio.

A palavra que Deus proferiu — e continua a proferir — em silêncio é o Seu Filho (vf. Jo 1, 1). Foi esta Palavra que Se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14). Foi esta Palavra que, de Belém a Jerusalém — que da manjedoura até à Cruz — nos mostrou quem é Deus. É por isso que, já no século I, Santo Inácio de Antioquia nos exortava a que estivéssemos atentos ao que Deus faz — e diz — em silêncio.

 

  1. A esta luz, é espantoso — diria mesmo provocador — que algumas das poucas palavras de Jesus na Paixão saiam em forma de grito.

Diferentemente de São Lucas e São João, que apresentam a morte de Jesus como a serena consumação da Sua entrega ao Pai (cf. Lc 23, 46; Jo 19, 30), em São Marcos (como em São Mateus) Jesus morre de uma forma dramática: no meio de «grandes clamores e lágrimas», segundo a conhecida expressão da Epístola aos Hebreus (cf. 5, 7).


 

C. Jesus grita perante o silêncio de Deus

 

  1. É sabido que, não obstante a Sua condição divina (cf. Fil 2, 6), não foi fácil a Jesus aceitar a morte. No Getsémani, pediu ao Pai para que, se fosse possível, O afastasse daquela hora. No entanto, ressalvou de imediato que se fizesse a vontade do Pai; não a Sua (cf. Mc 14, 36).

Ou seja, Jesus não fugiu da Cruz, mas sofreu intensamente o que aconteceu na Cruz. São Marcos diz-nos que, antes de morrer, Jesus soltou dois grandes gritos (cf. Mc 15, 34. 37): um imediatamente antes e outro um pouco antes.

 

  1. Por tudo isto, se quisermos olhar para a Paixão de um modo global, temos de prestar atenção quer aos silêncios, quer aos gritos. Daí que uma «teologia do grito» seja tão necessária como uma «teologia do silêncio».

Sintomaticamente, o primeiro dos dois gritos de Jesus na Cruz é para questionar o silêncio: o silêncio de Deus. É voltado para Deus que Jesus grita: «Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste» (Mc 15, 34)? É aqui que tudo pára: param sobretudo as explicações. Se já é difícil perceber que o Filho de Deus possa sofrer, parece completamente incompreensível que Deus possa ter abandonado o Seu Filho.


 

D. O «porta-voz» de todos os abandonados

 

  1. Este grito de abandono utiliza palavras do Antigo Testamento, mais propriamente do Salmo 22. Aliás, é a única vez que Jesus chama Deus a Deus. O hábito de Jesus é tratar Deus por Pai e até por Paizinho («Abba»). É claro que, apesar de citar palavras do Antigo Testamento, Jesus está a sentir o que diz. Jesus sente-Se efectivamente abandonado. Neste sentido, Ele é o porta-voz de todos os abandonados — e oprimidos — do mundo.

Mas será que se quebrou mesmo a íntima união entre Jesus e Deus? Qual o significado, então, deste grito de abandono?

 

  1. É importante que olhemos para cada parte do Evangelho à luz da totalidade dos Evangelhos. Assim sendo, verificaremos que o mesmo Jesus que Se confessa abandonado por Deus é também aquele que, segundo São Lucas, morre a entregar-Se nas mãos de Deus: «Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu Espirito» (Lc 23, 46).

Isto significa que Jesus mantém — até ao fim — a consciência de que é Filho e de que Deus é Seu Pai. Ele, que sempre vivera como Filho, morre como Filho.

 

E. No Filho, Deus sofre com todos os Seus filhos

 

  1. Daí que o abandono não traduza uma ausência, mas uma presença silenciosa. O que Deus nos quer dizer é que nós não estamos abandonados porque nos entregou o Seu próprio Filho (cf. Jo 3, 16). Se quem vê o Filho, vê o Pai (cf. Jo 14, 6) e se o Filho e o Pai são um só (cf. Jo 10, 30), então o Pai sofre o sofrimento do Seu Filho. A Sua presença é silenciosa, mas não é passiva. Trata-se, acima de tudo, de uma presença compassiva.

Como bem percebeu São Bernardo, «Deus é impassível, mas não é incompassível». Dizer que Deus é impassível significa afirmar que Deus não está sujeito a padecer. Dizer que Deus não é incompassível implica reconhecer que Deus não é incapaz de Se compadecer (cf. Heb 4, 15).

 

  1. No Filho, Deus sofre com todos nós, Seus filhos. Hans Urs von Balthasar nota que Deus até «sofre bem mais do que nós e não deixará de sofrer enquanto houver sofrimento no mundo». Deus pode tudo que até pode sofrer por nós.

Eis o que de mais comovente nos chega da Cruz: o amor apaixonado de Deus pelo homem. Eis o que nós mais devemos aprender na Cruz: se Deus ama assim a humanidade, como é que nós não havemos de amar cada ser humano? Arrumemos, pois, a nossa «casa». Se for caso disso, deitemos tudo fora. Fiquemos apenas — e sempre — com o amor. É o amor que nos há-de salvar!

publicado por Theosfera às 05:01

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