O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 17 de Junho de 2018

 

A. Deus aprecia o que é pequeno e não deprecia o que parece lento

  1. Deus responde sempre às nossas necessidades, ainda que nem sempre satisfaça os nossos desejos. Deus, que tudo sabe, sabe perfeitamente que aquilo que desejamos nem sempre corresponde àquilo de que necessitamos e aquilo de que necessitamos nem sempre corresponde àquilo que desejamos.

Por hábito, gostamos do que é grande e do que é rápido. Regra geral, desprezamos o que é pequeno e exasperamo-nos diante do que é lento. Só que, coisa estranha, nem reparamos que andamos cada vez mais depressa e chegamos cada vez mais atrasados. Causa? Queremos fazer tudo, queremos fazer tudo ao mesmo tempo. Enfim, falta-nos um pouco de pausa, um pouco de lentidão. Falta-nos perceber que talvez chegássemos mais depressa se não andássemos tão apressados. E tão penosamente «stressados».

 

  1. Uma vez mais, Deus mostra, para nosso espanto, o quanto se revê no que é pequeno e no que (nos) parece lento. Nas Suas contínuas instruções, Deus passa o tempo a engrandecer o que é pequeno e a valorizar o que se nos afigura lento. Aliás, a própria vida encarrega-se de demonstrar que há tanta pequenez no que aparenta ser grande e tanta grandeza no que aparenta ser pequeno. Não foi certamente por acaso que Emmanuel Levinas proclamou que «mais alta que a grandeza é a humildade».

Do mesmo modo, aquilo que aparenta caminhar lentamente é, quase sempre, mais seguro do que tantos passos rápidos, mas sem noção do caminho que se segue. O mais importante raramente se compadece com pressas. O mais apressado nem sempre caminha melhor e pode não chegar primeiro. Até pode nem chegar. Deus não nos aconselha obviamente a optar pela indecisão, mas quer alertar-nos para o valor da paciência. Muito pertinente foi, por isso, Bento XVI, que brilhantemente percebeu que «o mundo é redimido pela paciência de Deus e pode ser destruído pela impaciência do homem». Breve já é a vida. Se a abreviamos, ainda mais, pela nossa impaciência, corremos o risco de lhe perder o rasto e de não lhe aspirar o sabor. A impaciência leva-nos a uma espiral de ansiedade diante daquilo que nos falta, não chegando a saborear a riqueza de cada dom que nos vai sendo oferecido.

 

B. É na terra que (também) está Deus

 

3. O Evangelho deste Domingo diz-nos, com recurso a parábolas, que o Reino de Deus é pequeno, lento, surpreendente e fecundo. É pequeno nos seus começos. É lento no seu crescimento. É surpreendente aos nossos olhos, germinando sem sabermos como (cf. Mc 4, 27). E é fecundo nos seus frutos.

Importa, desde logo, notar como Jesus acentua a proximidade: «O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra» (Mc 4, 26). Ou seja, devemos olhar ao mesmo tempo para o alto (cf. Col 3, 1) e para o baixo: aquele que está nas alturas encontra-se também metido nas profundezas. Jesus trouxe o Céu para a Terra, a Eternidade para o Tempo.

 

  1. Não foi por acaso que Arnold Toynbee olhava para o mundo como «uma província do Reino de Deus». Não é saindo do mundo que encontramos Deus. Encontramos Deus, trabalhando no mundo. O encontro com o mundo conduzir-nos-á ao encontro com Deus no mundo.

Razão tinha, pois, Edward Schillebeeckx quando escreveu que «fora do mundo, não há salvação». A história da salvação, como percebeu Karl Rahner, acontece na história do mundo. Deus não está só no Céu, à nossa espera. Deus vem também à terra, ao nosso encontro. Em Jesus Cristo, Deus como que «aterra» no mundo e como que Se «enterra» na vida de cada pessoa que há no mundo.

 

C. Sejamos os «microfones» de Deus

5. Será, entretanto, que estamos atentos aos sinais da vinda de Deus? Precisamos de atenção para ver Deus no que é pequeno e precisamos de paciência para acompanhar o crescimento do Seu Reino, que é lento.

Nestas duas parábolas, Jesus compara o Reino de Deus à semente e ao grão de mostarda. Neste caso, diz mesmo que é a mais pequena de todas as sementes (cf. Mc 4, 31). A semente da mostarda tem um diâmetro aproximado de 1,6 milímetros. Jesus tem o cuidado de ressalvar que, depois de lançada à terra, a semente «começa a crescer» (Mc 4, 32). Isto é, dá a entender que não se trata de um crescimento repentino ou apressado. É um crescimento pausado e, por isso, consolidado. Daí que se torne a «maior de todas as plantas da horta» (Mc 4, 32). A árvore que resulta desta pequena semente chegava a ter uma altura de 2 a 4 metros.

 

  1. Por conseguinte, não tenhamos medo dos pequenos começos nem dos pequenos sinais. Tudo o que é grande começou por ser pequeno. E, em Jesus Cristo, Deus faz questão de Se identificar preferencialmente com os mais pequenos (cf. Mt 25, 40).

Também não desanimemos diante do crescimento aparentemente lento. Aliás, não é a nós que cabe definir o ritmo do crescimento nem o tempo da colheita. A nós cabe cuidar da semente, sabendo que ela cresce sem sabermos como (cf. Mc 4, 27). Deus gosta de surpreender e, como observou São Paulo, é Deus quem faz crescer (cf. 1Cor 3, 6). Ele quer agir através de nós, mas a iniciativa é sempre Sua. Estejamos, portanto, disponíveis e nunca deixemos de estar confiantes. O Reino de Deus vai crescer, o Reino de Deus está a crescer. Às vezes, é quando parece mais escondido que ele está mais manifesto. Como dizia D. Óscar Romero, é bom que nos disponhamos a ser os «microfones de Deus». Porque a Sua voz nunca deixará de se fazer ouvir.

 

D. Deus quer «precisar» de nós

7. A terra está grávida de céu. O tempo arde com saudades da eternidade. Será que nos vamos recusar a ser morada de Deus? Ele, o Senhor que tudo pode, quer actuar humanamente. Ele quer chegar ao homem fazendo-Se homem em cada homem. Como Jesus é a transparência do Pai — «quem Me vê, vê o Pai» (Jo 14, 6) —, cada um de nós é chamado a ser a transparência de Jesus.

Essa transparência é ontológica e há-de procurar ser testemunhal. Ou seja, nós, que pelo Baptismo já somos habitação de Deus, estamos chamados a ser o eco da Sua presença através do nosso testemunho: concretamente, através das nossas palavras, dos nossos gestos e sobretudo do nosso amor.

 

  1. Não tenhamos medo das dificuldades. As dificuldades podem ser fortes, mas não são mais fortes que a força de Deus. Tal como a semente enfrenta muitos obstáculos no seu crescimento, também o Reino de Deus depara com muitas adversidades. Mas Deus está presente e (poderosamente) actuante.

Não entremos em euforia com os êxitos, mas também não desfaleçamos perante os problemas. Os problemas existem, mas não existem para nos vencerem. Os problemas existem para serem vencidos com a ajuda de Deus. O Evangelho deste Domingo garante-nos que Deus tem para nós um projecto de vida e salvação. Pode parecer que a nossa história caminha entregue ao acaso ou às flutuações dos acontecimentos. Só que o acaso é aquilo de que não sabemos as causas. Mas, mesmo naquilo que não sabemos, sempre podemos saber que Deus está e caminha connosco.

 

E. Todos os motivos para ter cuidado, nenhuma razão para ter medo

9. Num tempo marcado por tantas sombras e perturbações, é reconfortante saber que não estamos abandonados. Há todos os motivos para ter cuidado, mas não há nenhuma razão para ter medo. Jesus propõe um caminho novo: lança na vida a semente de transformação dos nossos corações e das nossas vontades. A semente não é lançada no vazio: ela cresce por acção de Deus. Cabe-nos acolher tal semente e deixar que Deus intervenha.

Confiemos, por isso, na força da Palavra anunciada. E habituemo-nos a respeitar a forma de resposta de cada um. A resposta não será igual em todos: uns serão mais prontos, outros serão mais lentos. Não desistamos da missão nem desistamos das pessoas. Insistamos sempre com a proposta e confiemos no surgimento, cedo ou tarde, de uma resposta. Há que respeitar a consciência e o ritmo de caminhada de cada pessoa, como Deus sempre faz.

 

  1. E nunca nos esqueçamos de dar valor ao que é pequeno. Há um grande significado em cada significante e um surpreendente significado no que nos parece insignificante. Não fiquemos prisioneiros do número. Tenhamos presente que o Cristianismo começou com pouco mais de 12 pessoas. Esses poucos conseguiram muito porque deram tudo: deram tudo por Cristo, deram tudo pelo Evangelho de Cristo.

Neste momento, somos muito mais de doze. Mesmo que nos sintamos pequenos diante do tamanho da missão, basta que nos entreguemos a Deus, basta que nos deixemos guiar por Deus. Façamos o que Ele fez. Façamos como Ele faz. Ele fará muito. Através de nós e connosco!

publicado por Theosfera às 05:10

De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
pesquisar
 
Junho 2018
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9





Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
online
Number of online users in last 3 minutes
vacation rentals
citação do dia
citações variáveis
visitantes
hora
Relogio com Javascript
relógio
pela vida


petição

blogs SAPO


Universidade de Aveiro