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Domingo, 16 de Setembro de 2018

A. Fechar os lábios para abrir os ouvidos

  1. Diz o profeta que o Senhor Deus lhe abriu os ouvidos (cf. Is 50, 5). Deixemos nós também que o Senhor Deus nos abra os ouvidos. Nenhum coração se abre quando os ouvidos estão fechados. O certo é que, para nosso mal, os ouvidos do nosso coração permanecem teimosamente fechados.

Acontece que nem nos apercebemos de que, para ter os ouvidos abertos, temos de dar algum descanso à nossa língua. Há momentos em que a boca tem de estar fechada para que os ouvidos se mantenham abertos. De facto, como consegue escutar quem não pára de falar? A rotina é tão envolvente que, por vezes, nem na Casa de Deus mostramos disponibilidade para ouvir Deus. Até na Casa de Deus a boca continua aberta. Até na Casa de Deus os ouvidos parecem continuar fechados!

 

  1. Se os nossos ouvidos se deixarem abrir, escutaremos que, para Deus, não basta a fé. No fundo, o que Deus nos diz, pela boca de São Tiago, é que a fé não é fé se for apenas fé. A fé sem obras é morta (cf. Tgo 2, 17). Algum de nós quer deixar morrer a fé? A fé, como notou São Paulo, entra pelos ouvidos (cf. Rom 10, 17), expressa-se pelos lábios e é alimentada pela vida.

Uma fé que não chegue ao chão da vida desfalece. Uma fé que não aterre na terra da existência desmorona-se. A fé, por natureza, é invasiva, é saudavelmente intrometida.

 

B. A fé será eloquente se não for apenas loquaz

 

3. Os lábios manifestam a fé. Mas o que expressa a fé é a vida, são as acções que praticamos na vida. O acto de fé constitui, por isso, o maior certificado da linguagem da fé. Se a fé não se expressa em actos, então é porque falsamente se expressa nos lábios. Daí que já Santo António tenha avisado: «Cessem as palavras e falem as obras. De palavras estamos cheios, de obras vazios».

As palavras só têm sentido quando são sufragadas pelas obras. As palavras de fé só merecem aceitação quando são apoiadas por obras que nascem da fé.

 

  1. A palavra da vida é muito mais eloquente do que a palavra dos lábios. Não precisamos de uma fé palavrosa nem basta uma fé loquaz. Do que necessitamos é de uma fé eloquente. E a fé só será eloquente quando a vida mostrar o que os lábios indicam. Não chega alegar que temos fé. Poderá haver quem apresente obras, ainda que não alardeie vistosas proclamações de fé. É possível que alguém nos diga: «Mostra-me a tua fé sem obras que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé» (Tgo 2, 18).

As obras são o melhor discurso da fé. As obras são o mais belo ornamento da fé. Não nos esqueçamos: Deus, um dia, não nos perguntará pela fé que dissemos, mas pela fé que vivemos.

 

C. A fé tem de ser amorosa

 

5. A vivência da fé tem o nome de amor e o sobrenome de caridade. A caridade é o ápice do amor. A caridade é o amor maior, o amor sem limites, nem fronteiras, nem condições. A caridade é o amor para todos, é o amor para sempre.

É por isso que Hans Urs von Balthasar entendia que «só o amor é digno de fé». E se o amor é digno de fé, a fé tem de ser sempre digna do amor. O amor é fidedigno e a fé tem de ser sempre amorosa. Se falta a fé, o amor não cresce. Se falta o amor, a fé desaparece.

 

  1. São Paulo foi muito claro quando proclamou que a fé actua pela caridade (cf. Gál 5, 6). E São Tiago oferece um exemplo muito concreto. Se a alguém faltar roupa ou alimento, não basta dizer: «Vai em paz, aquece-te e alimenta-te» (Tgo 2, 15-16). Mas aquecer com quê e comer o quê? Se não partilharmos o necessário, de que servem as nossas palavras? (cf. Tgo 2, 16).

O mundo não cresce com os que (apenas) falam; só cresce com os que agem. O bem agir é mais importante que o bem falar. Mas, graças a Deus, ainda há tanta gente que sabe agir, há tanta gente que sabe falar, agindo. Ouçamos os que falam, mas habituemo-nos a imitar os que agem, os que bem agem. Por conseguinte, bem-haja a quem bem age!

 

D. Crismados por Cristo

 

7. Jesus é aquele que age, é aquele que sempre age, é aquele que bem age. Jesus é aquele que andou de lugar em lugar a fazer o bem (cf. Act 10, 38). É por isso que crer em Jesus implica procurar agir como Jesus. A profissão de fé não pode esgotar-se nos lábios. A profissão de fé tem de escorrer sempre pela vida, por cada momento da nossa vida.

A descoberta do Messias vem até nós pelos lábios de Pedro: «Tu és o Messias» (Mc 8, 29). Sobre Jesus, não basta repetir o que os outros dizem. Já naquele tempo, havia quem dissesse que Jesus era uma espécie de reencarnação de João Baptista, de Elias ou de algum profeta (cf. Mc 8, 28). Mas Jesus não é a mera continuidade do passado. Jesus é a transformação de toda a nossa vida. O futuro não é só o que vem depois. Há-de ser o que vem de novo.

 

  1. É preciso que cada um faça a experiência de Jesus. Como Jesus é o ungido do Pai, é necessário que cada um de nós seja ungido por Cristo. Cristo significa precisamente «ungido» O mesmo acontece, aliás, com a palavra «crisma». Deste modo, ser crismado é ser cristificado, é tornar-se um com Cristo. E crismados somos, desde logo, no Baptismo. Pelo que crismados nos devemos mostrar em cada dia da nossa vida, em cada gesto do nosso existir.

Para que não subsistam dúvidas, Jesus esclarece Pedro sobre o que implica ser Messias, ser ungido, ser Cristo. A missão de Jesus só pode ser entendida à luz da Cruz, isto é, como dom da vida aos homens, por amor. Dizer que Jesus é o Messias — ou Cristo — significa dizer que Ele é o libertador esperado, para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.

 

E. A Cruz não traz facilidade, mas conduz à felicidade

 

9. A resposta de Pedro está certa. No entanto, podiam subsistir alguns equívocos, dado que o título de Messias estava conotado com expectativas políticas. Por isso, os discípulos são impedidos de falar d’Ele. Antes de falar, era preciso aprender a conhecer bem Jesus.

Jesus não é semeador de ilusões. Ele alimenta a esperança, não alimenta dúvidas. A missão de Jesus passa pela Cruz e a missão de quem O quiser seguir também terá de passar pela Cruz. «Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo; pegue na sua cruz e siga-Me» (Mc 8, 34).

 

  1. Não se pode seguir Jesus em «part-time». Seguir Jesus tem de ser sempre em «full-time», a tempo inteiro. É preciso, portanto, que cada um deixe tudo, a começar por si mesmo. Não tenhamos medo de dizer «não» a nós mesmos. E não tenhamos receio de dizer «sim» a Cristo em nós mesmos. O egoísmo não é compatível com o seguimento de Cristo. Jesus é muito claro: «Quem quiser salvar a própria vida, há-de perdê-la; mas quem perder a vida por causa de Mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc 8, 35).

Fugir da Cruz seria fugir de Cristo. A Cruz não traz facilidade, mas conduz-nos até à felicidade. Não caiamos na tentação de Pedro, que gostaria de ter um Cristo sem Cruz. Façamos, antes, como, mais tarde, fez Pedro, que abraçou a Cruz de Cristo. A Cruz não foge de nós, mesmo que nós queiramos fugir da Cruz. Quem abraça a Cruz com amor tem sempre encontro marcado com o Senhor!

publicado por Theosfera às 05:40

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