O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 16 de Outubro de 2016

A. Também na fé é preciso «acertar na baliza»

  1. Muitas vezes, nós, cristãos, parecemos aqueles jogadores de futebol que rematam muito, mas quase sempre ao lado. Acontece que, como é sabido, com remates ao lado não se marcam golos nem se ganham jogos. Também na fé é preciso «acertar na baliza», ou seja, é preciso apontar sempre ao que é essencial, ao que está no centro, ao que é decisivo.

Note-se que «rematar ao lado» não é destituído de mérito. «Rematar ao lado» é sinal de esforço e de insistência. Mas é claramente insuficiente. Não basta, pois, «rematar ao lado».

 

  1. Nós, cristãos, «rematamos ao lado» quando nos ficamos por generalidades e pelo limiar. Esquecemo-nos de ir ao concreto e ao central. Em tudo, é necessário ouvir as lições e tirar as (devidas) ilações. Se repararmos, estes excertos da segunda Epístola de São Paulo a Timóteo (que temos escutado nestes domingos) estão recheados de preciosas recomendações. Trata-se de recomendações muito concretas e bastantes precisas.

Ficamos, assim, a perceber que ser cristão não é algo vago, mas muito concreto. Pegando em expressões deste texto, verificamos que, para ser cristão, é vital «permanecer firme na doutrina» (2Tim 3, 14) que recebemos. O que é, afinal, a doutrina? A doutrina é a revelação de Deus apresentada de forma sistemática. Isto significa que, entre a Sagrada Escritura e a Doutrina, não há diferença de conteúdo. O que aprendemos na Doutrina é o que está na Bíblia. No fundo, doutrinar tem de ser — só pode ser — evangelizar.

 

B. É preciso ser concreto na vivência da fé

 

3. Não basta, por isso, que promovamos encontros. Os encontros, obviamente, fazem bem. Mas para fazer encontro não é preciso ser cristão. Para serem cristãos, é fundamental que os nossos encontros se centrem em Jesus Cristo. Não são as guitarras que nos juntam; quem nos junta é Jesus Cristo. Por conseguinte, os nossos encontros não podem ser lúdicos; os nossos encontros têm de ser verdadeiramente espirituais. Têm de ser encontros que nos levem a ir mais além de nós.

Por outro lado, não basta que nos fiquemos pelos valores da verdade e da bondade. É claro que a verdade e a bondade são sinónimos de Deus. Mas ficar só pela verdade e pela bondade é resignar-se a ficar no plano meramente conceptual. Ora, Deus é muito mais que um conceito. Deus é pessoa ou, melhor, é uma família de três pessoas. Não são os conceitos que iluminam Deus; Deus é que há-de iluminar os conceitos e a própria vida.

 

  1. Daí a contínua insistência do Apóstolo no concreto, neste caso, na relação com a Sagrada Escritura. Que tempo damos à Palavra de Deus? Já São Jerónimo proclamava que «ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo». Será que lemos a Bíblia? Será que meditamos a Bíblia? Será que mastigamos a Bíblia? Será que saboreamos a Bíblia?

Como podemos viver a fé se não procuramos ir ao encontro da grande fonte da fé: a Palavra de Deus? É da Palavra de Deus, veiculada pela Escritura Santa, que nos vem «a sabedoria que leva à salvação» (2Tim 3, 15).

 

C. A vida — e não apenas a palavra — há-de ser inspirada por Deus

 

5. Tenhamos sempre presente que a Palavra transmitida na Escritura é «inspirada por Deus» (2Tim 3, 16). Mas não é só a Escritura que é inspirada por Deus; a vida que se alimenta na Escritura também é inspirada por Deus. O Deus que inspira a Palavra também inspira a vida que se alimenta da Palavra. É na Palavra da Escritura que a nossa vida recebe ensinamentos. É a partir da Palavra da Escritura que a nossa vida se transforma e converte.

De facto, São Paulo esclarece que a Sagrada Escritura serve para quatro coisas: ensinar, convencer, corrigir e formar (cf. 2Tim 3, 16). Estes verbos, muito fortes, devem estar presentes sempre que nos aproximamos da Sagrada Escritura. Pela Sagrada Escritura devemos deixar-nos ensinar, convencer, corrigir e formar. No fundo, fica bem claro que a Bíblia é fonte de formação e de vivência da fé. A Bíblia é a melhor «escola da fé».

 

  1. Não espanta, neste sentido, que o Apóstolo exorte a que cada um de nós proclame a Palavra de Deus sempre. E que nela insistamos «a propósito e a despropósito» (2Tim 4, 2). É uma expressão curiosa e enfática, esta. É que, por vezes, nós tendemos a silenciar a Palavra de Deus sob o pretexto de que não vem muito a propósito. Num tempo em que não temos vergonha de nada, dá a impressão de que só temos vergonha de evangelizar.

No fundo, o que São Paulo quer dizer é que a Palavra de Deus deve ser proclamada mesmo quando a ocasião não parece muito propícia, A Palavra de Deus deve ser proclamada sem medo e sem pausas. Nós que mostramos ter tantos «respeitos humanos», devíamos ter mais «respeito divino», mais respeito por Deus e pela Sua vontade. Não tenhamos, pois, medo de proclamar, com os lábios e com a vida, a Palavra de Deus. Usemos de «paciência e doutrina» (2Tim 4, 2), como diz o Apóstolo. Ou seja, não desistamos de evangelizar a partir do que nos foi entregue: a mensagem de Cristo Jesus.

 

D. Orar é, acima de tudo, confiar

 

7. Neste Domingo, Jesus aparece-nos precisamente a propor a confiança em Deus. Na nossa acção, Deus conta mais, infinitamente mais, que a nossa capacidade. Orar é, acima de tudo, confiar. É por isso que Ele não chama os mais capazes; capacita os que chama. A oração é, assim, o combustível para a missão. É na oração que vamos tomando consciência da prioridade de Deus, de que é Deus quem comanda a nossa vida e inspira os nossos passos.

O Evangelho ilustra a força e a eficácia da oração com a insistência de uma pobre viúva, que não parava de importunar um poderoso — e pelos vistos, pouco escrupuloso — juiz.

 

  1. Esta viúva passava o tempo a queixar-se do seu adversário exigindo justiça. Só que o juiz, que não temia Deus nem respeitava os homens», (Lc 18, 2), não lhe prestava qualquer atenção. Acontece que a viúva não desistiu e continuou a incomodar o juiz, pois sabia que só ele podia resolver a situação.

E o certo é que, apesar da sua dureza e insensibilidade, acabou por fazer justiça à pobre viúva (cf. Lc 18, 5). A grande lição — e a maior ilação — é que precisamos de rezar sempre e sem desanimar (cf. Lc 18, 1). A nossa oração, com efeito, enferma deste duplo défice: de quantidade e de qualidade. Rezamos pouco e desistimos com frequência. Nunca desistamos da oração. Levemos a vida à oração e não deixemos de transportar a oração até à vida. Uma vida orada é uma vida sempre inspirada.

 

E. Prece sem pressa

 

9. Deus escuta. Deus atende. Deus está sempre presente. A oração prepara-nos — e como que nos habilita — para a presença de Deus na nossa vida. Deus vem, Deus está sempre a vir e há-de fazer justiça em breve (cf. Lc 18, 8).

Deus nunca nos abandona nem é insensível aos nossos pedidos. Deus não é apático, mas simpático, isto é, sofre connosco e sofre por nós. Basta olhar para a Cruz de Seu Filho. Ele está sempre a oferecer-Se por nós.

 

  1. Confiar em Deus não pode, porém, levar-nos a pressionar Deus. O tempo da espera não pode transformar-se em desesperança ou numa sucessão de gestos de ansiedade. A pergunta com que finaliza o texto é um convite à perseverança. «Quando o Filho do Homem voltar encontrará fé sobre a terra?» (Lc 18, 8).

Não devemos exigir que Deus faça agora. Devemo-nos habituar a esperar e a nunca desesperar. A oração é sobretudo um alimento da esperança. A oração capacita-nos para a acção de Deus, decidida por Ele, não por nós. Nunca deixemos de suplicar. E nunca paremos de acreditar. Deus ouve a nossa prece. Façamos, pois, a nossa prece sem pressa. O importante é que permaneçamos vigilantes e persistentes. Em Deus, há tanta surpresa repleta de beleza!

publicado por Theosfera às 06:18

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