O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 02 de Setembro de 2018

A. Há muito bem no mundo

 1. Tenho uma notícia muito boa para vós, neste Domingo. É que, ao contrário do que se diz, existe muito bem neste mundo. Eu sei que não parece. O bem é continuamente silenciado, mas isso não significa que esteja inactivo. O bem vai fazendo o seu caminho no interior das pessoas. O Apóstolo aponta-nos o caminho a seguir. Trata-se de acolher docilmente a Palavra de Deus (cf. Tgo 1, 21). É esta Palavra que fecunda a nossa vida como fecundou a vida fiel de Maria Santíssima. É preciso, pois, ouvir — e cumprir — a Palavra. Não basta escutá-la (cf. Tgo 1, 22). A Palavra não se dirige apenas aos nossos ouvidos. A Palavra quer invadir toda a nossa vida.

 

2. É São Tiago quem no-lo garante na Segunda Leitura da Eucaristia deste Domingo: «Tudo o que de bom nos é dado […] desce do Pai» (Tgo 1, 17). Assim sendo, salta à vista que o nosso problema é andarmos longe de Deus. Quem está com Deus está com o bem.

Faço-me, pois, portador desta bela notícia, em contracorrente com a publicidade que muitos fazem ao mal e à maldade. O mal existe e a maldade alastra. Mas nada podem contra o bem. É que — e esta é a segunda parte da notícia que hoje vos trago — o bem vem de Deus.

 

B. O que mais agrada a Deus

 

3.  Palavra não pode entrar por um ouvido para sair pelo outro. A Palavra que entra pelos ouvidos almeja transformar a nossa existência. É a isto que se chama conversão, mudança. Esta conversão e esta mudança traduzem-se em gestos concretos nos quais São Tiago tipifica a «religião pura e sem mancha» (Tgo 1, 17). De facto, o que mais agrada a Deus é «visitar os órfãos e as viúvas» e «conservar-se limpo de toda a corrupção do mundo» (Tgo 1, 27).

A vontade de Deus consiste, portanto, em fazer o bem ao nosso semelhante e em não cedermos à maldade que nos ameaça. É preciso perceber que nenhum bem vem do mal. Só o bem faz bem.

 

  1. No fundo, é esta a lei maior, a que todas as leis devem estar sujeitas. Jesus debate-Se com alguns dos Seus contemporâneos que eram muito ciosos das leis até nas suas minudências mais pormenorizadas. Jesus não é obviamente contra as leis. O que Jesus quer é que o cuidado com estas leis não impeça a atenção que é devida à lei maior: a lei do amor.

De facto, há leis que asfixiam a liberdade das pessoas e há leis que promovem a liberdade das pessoas. Há leis que sufocam e há leis que libertam. A fé não é uma asfixia da liberdade, mas um transbordamento de liberdade.

 

C. Quando o exterior distorce o interior

 

5. As leis são necessárias, mas a fé tem ir mais além da lei. Temos de ter em conta, sobretudo, os três m's em que Ele insistiu: no m da mensagem (Reino de Deus), no m do mandamento (amor a Deus e ao próximo) e no m da missão (levar o Evangelho a todo o mundo).

Os judeus estavam muito apegados às leis, mas pouco atentos à vida. O principal, para eles, eram os rituais exteriores. A aparência contava mais que a essência. Jesus não Se revê nesta conduta e lamenta: «Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim» (Mc 7, 6).

 

  1. Estamos numa época em que o aparato exterior quase não deixa ver o que se passa no interior. É claro que a vida é feita de interior e exterior. Mas o importante é que o exterior seja o espelho do interior. Infelizmente, nem sempre isso acontece. Muitas vezes, o exterior é uma negação do que ocorre no interior.

Cuidamos muito do exterior e parece que descuidamos completamente o interior. No tempo de Jesus, a preocupação parecia ser «a lavagem dos copos, dos jarros e das vasilhas de cobre» (Mc 7, 4). No nosso tempo, a prioridade parecem ser os foguetes, as músicas, as marchas e as diversões. Nada disto, em si mesmo, é mal. Mas tudo isto é pouco. Acresce que tudo isto é supostamente realizado em honra da Virgem Maria e dos Santos. Mas que preocupação existe em aprender efectivamente com o exemplo deixado pela Virgem Maria e pelos Santos?

 

Que lugar para Cristo nas festas cristãs?

 

7. Os nossos lábios não parecem andar muito longe de Deus. Mas será que o nosso coração está possuído por Deus? Que lugar há para Cristo em tantas festas que se dizem cristãs? Que lugar há para Maria e para os Santos nas romarias que lhes são dedicadas?

Às vezes, dá a impressão de que a Virgem Maria e os Santos são meros pretextos para a festa. Se eles fossem o verdadeiro motivo da festa, o centro da festa seria a Eucaristia. Foi, na verdade, a Eucaristia que fermentou no seio de Maria e transformou a vida dos Santos. Uma festa genuinamente cristã pensaria mais nos pobres e nos que sofrem. Uma festa genuinamente cristã seria, por isso, menos gastadora e mais solidária. Ainda temos muito a aprender, muito a crescer.

 

  1. Os antigos procuraram cristianizar algumas festas pagãs. Não deixemos que, hoje, se repaganizem as festas cristãs. Grande deve ser a festa de alguns dias. Maior há-de ser a festa de todos os dias. É certo que, por natureza, a festa pertence ao excepcional, ao que foge à rotina do quotidiano. Mas não seria apaixonante tornar excepcional o quotidiano?

Não façamos da festa uma ocasião para degradar a natureza humana, obra de Deus. Não afoguemos o nosso corpo em álcool. Não nos embriaguemos com vinho; embriaguemo-nos, sim, mas de fé, de esperança e de amor.

 

E. Abandonamos o interior do país e, ainda mais, o interior das pessoas

 

9. A festa não é para esquecer a vida, mas para nos reabastecer para a vida. A essência da festa está no encontro, no sorriso, no abraço. A festa será tanto mais bela, quanto mais nela nos abrirmos ao Deus da festa. Bela é a festa da conversão. Habitualmente, queixamo-nos ao ver o interior abandonado. Mas só lamentamos o abandono do interior do território. E que achamos do abandono do interior da pessoa? Não será que abandonamos, tantas vezes, o nosso interior e o interior dos outros?

Maria é, toda Ela, um acontecimento de interioridade. Foi no Seu interior que encarnou o Filho de Deus. O interior de Maria é o primeiro sacrário da história. É por isso que importa olhar para Maria e sobretudo olhar com Maria. O olhar de Maria não prende. Pelo contrário, com o olhar de Maria aprende-se: aprende-se a seguir Jesus.

 

  1. Jesus quer que nos transformemos a partir do fundo, a partir de dentro, a partir do nosso interior. Jesus também vem do interior de Deus até ao interior de cada um de nós. É por isso que Ele nos ensina a não nos preocuparmos prioritariamente com o nosso exterior: «Não há nada fora do homem que, ao entrar nele, o possa tornar impuro» (Mc 7, 18). Do interior do homem é que «saem os pensamentos perversos, as imoralidades, os roubos, os assassínios, os adultérios, a cobiça, as más acções, a má-fé, a devassidão, o orgulho e a loucura» (Mc 7, 21-22). Por conseguinte, é pelo interior que temos de começar a conversão. Que adianta um exterior bem apresentado se o interior permanece descuidado?

Jesus não quer só um culto externo. Jesus quer que a oração dos nossos lábios seja a expressão da oração da nossa vida. Rezemos com os lábios, sim. Mas nunca nos esqueçamos de rezar também com a nossa vida: com a nossa vida inteira, com a nossa vida lisa, com a nossa vida (sempre) limpa!

publicado por Theosfera às 04:27

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