O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 05 de Novembro de 2017

A. Tudo é novo em Cristo

 

  1. Andamos tão afanosamente à procura de novidades e nem sequer reparamos na novidade perene que nos foi entregue. Jesus é o portador dessa novidade. N’Ele nada é velho. N’Ele nada envelhece. Com Ele tudo rejuvenesce. Com Ele tudo é novo. Com Jesus, é nova a vida e são novos os comportamentos. Em Jesus, há uma atmosfera de leveza, de beleza, de simplicidade, de autenticidade. É tudo tão diferente no caminho de toda a gente.

Jesus é o anunciador desta vida nova e o pregoeiro deste mundo verdadeiramente novo. Mas não deixa de denunciar as velharias, verberando aquilo que está gasto e nos desgasta.

 

  1. É por isso que Jesus censura fortemente os que mandam e não cumprem, os que impõem e não vivem, os que dizem e não fazem e, às vezes, nem sequer dizem. De facto, estamos num tempo de «sobre-ruído» e «sub-comunicação». Falamos muito, mas chegamos a dizer alguma coisa? Afinal, que comunicamos quando falamos? De facto, neste mundo, há os que, a cada passo, demonstram nada ter para dizer. Mesmo quando dizem. Sobretudo quando dizem, quando não param de dizer!

Tudo isto faz-me pensar num episódio em que alguém, não entendendo a língua de pessoas que falavam com muito entusiasmo, perguntou acerca do que estariam elas a dizer. Resposta pronta: «Não estão a dizer nada, estão só a falar». Este é um retrato fiel, embora um pouco caricatural, do que acontece nos tempos que correm: falamos muito, mas (no fundo) não dizemos nada.

 

B. Não ao «dizer sem fazer»

 

  1. O problema dos escribas e dos fariseus nem era bem este. Eles falavam e sabiam o que diziam. Eram doutos, mas não eram coerentes. É por isso que Jesus diz para fazerem o que eles dizem, mas não fazem (cf. Mt 23, 3). Não basta dizer. O importante é fazer. É preciso fazer o que se diz. Não chega dizer o que se faz. Aliás, nem é preciso dizer o que se faz. O melhor discurso é o nosso percurso. É a nossa acção (e a nossa inacção) que fala por nós.

É por isso que, como bem notou Paulo VI, o mundo escuta mais as testemunhas que os mestres. O mundo escutará os mestres se também forem testemunhas. A nossa missão não consiste em impor com palavras, mas em testemunhar com a vida. Mais do que falar «ex-cathedra», o apóstolo deve falar «ex-vita», a partir da vida.

 

  1. É neste sentido que a liturgia deste Domingo nos convida à seriedade, à verdade e à coerência do nosso compromisso com Deus e com o Evangelho. Na Primeira Leitura, os sacerdotes de Israel são interpelados. Convocados para serem «mensageiros do Senhor do universo», eles deixaram-se dominar por interesses egoístas, negligenciando os seus deveres.

A Segunda Leitura, em contraste com a primeira, apresenta-nos o exemplo de Paulo, Silvano e Timóteo, enquanto evangelizadores de Tessalónica. Do esforço feito com amor, humildade e simplicidade nasceu uma comunidade que acolheu o Evangelho como dom de Deus.

 

C. O que Jesus censura no comportamento dos fariseus

 

  1. O texto do Evangelho divide-se em duas partes. Na primeira, Jesus faz um retrato psico-teológico dos fariseus (cf. Mt 23, 1-7). Na segunda, oferece alguns conselhos aos discípulos para que não os imitem (cf. Mt, 23, 8-12).

Dos fariseus Jesus diz, em primeiro lugar, que eles se sentavam na «cadeira de Moisés» (cf. Mt 23, 2). Esta expressão refere-se à pretensão desmedida e à vaidade insaciável que os dominava. Com efeito, os fariseus atribuíam a si próprios a autoridade máxima (e exclusiva) para interpretar a Lei de Moisés. Em vez de servirem a Palavra de Deus, apropriam-se da Palavra de Deus, distorcendo-a. Desvirtuam-na com regras pesadas e imposições impraticáveis, que não favoreciam (longe disso) o encontro com Deus.

 

  1. Em segundo lugar, Jesus acusa os fariseus de serem incoerentes (cf. Mt 23, 3). O que mais impressiona é que eles «dizem e não fazem» (Mt 23, 3). As suas palavras não condizem com as suas obras. Os seus comportamentos não se conformam com os seus ensinamentos. Os seus ensinamentos devem ser escutados, mas o seu exemplo não deve ser seguido.

Mas o que Jesus mais critica nos fariseus é o peso dos fardos com que sobrecarregam os outros (cf. Mt 23, 4). Na verdade, as exigências dos fariseus tornavam a vida impossível, tantas eram as obrigações, as proibições e o controlo que eles faziam derivar da Lei. No fundo, era inviável conhecer todos os preceitos, quanto mais praticá-los. Acresce que (outra incoerência) o peso que colocavam sobre os outros não era carregado por eles. Coisas difíceis não eram para eles; eram só para os outros.

 

D. No meio de tantas diferenças, em que somos iguais?

 

  1. Finalmente, Jesus não deixa de denunciar o exibicionismo dos fariseus. Estes, na verdade, eram peritos em fazer da fé um espectáculo à procura de aplauso. Faziam as coisas para que todos vissem e aplaudissem. Por vaidade, alargavam as «filactérias» e ampliavam as «borlas» (cf. Mt 23, 5).

Já agora, «filactérias» eram caixinhas de couro com trechos da Lei, que os israelitas usavam, a partir dos 13 anos, durante as orações matinais. Quanto às «borlas», tratava-se de franjas colocadas nas quatro extremidades do manto – o «tallît» – que o judeu piedoso punha aos ombros durante a oração. Ou seja, os fariseus eram especialistas em trabalhar para a imagem, apenas para a imagem. Não será que esta tentação ainda nos afecta? Não andamos nós, muitas vezes, preocupados com as aparências, com cargos e com honrarias?

 

  1. Perante isto, como devem viver os cristãos? Qual é o projecto alternativo que lhes é dado testemunhar? O que, acima de tudo, Jesus quer é que formemos uma fraternidade, é que nos sintamos como irmãos. É tão fácil de dizer e tão belo de sentir. Porque é, então, tão difícil de viver?

Jesus pretende vincar uma igualdade por cima de tantas diferenças. Mais do que salientar as relações de pais e filhos, de mestres e discípulos, de doutores e aprendizes (cf. Mt 23, 7-10), Jesus faz sobressair a comum (e primordial) condição de irmãos. Na fraternidade inaugurada por Jesus, até os pais são «irmãos» dos filhos e até os filhos são «irmãos» dos pais. Deus é Pai de todos: é Pai dos que são pais e Pai dos que são filhos. «Um só é o vosso Pai, aquele que está no Céu» (Mt 23, 9).

 

E. Não sejamos humildes (só) diante dos grandes

 

  1. Do mesmo modo, se os mestres e os doutores ensinam os discípulos, também podem aprender com os discípulos. Na vida, os mestres também aprendem e os discípulos também ensinam. E, em conjunto, mestres e discípulos estão sempre a aprender com o único Doutor, o Messias (cf. Mt 23, 10). Só Ele é verdadeiramente Mestre. Só Ele é portador da verdade definitiva, que salva e liberta.

É por isso que, na Igreja de Jesus, não pode haver quem esteja em cima e quem esteja em baixo. Nem, muito menos, pode haver quem esteja por cima dos que estão em baixo. Se alguns preferidos existem que sejam os habitualmente preteridos. Que não andemos, pois, a replicar o tratamento diferenciado e estratificado que estamos habituados a ver no mundo. Não sejamos bajuladores dos grandes e espezinhadores dos pequenos. Não sejamos só humildes diante dos grandes nem nos armemos em grandes diante dos humildes. Deus não gosta disso. Deus não gosta que façamos isso. Sejamos correctos com todos prestando uma especial atenção aos mais esquecidos e marginalizados.

 

  1. Na Igreja de Jesus, se alguém quer ser primeiro entre todos, que seja o servidor de todos. É este o preceito do Mestre: servir: «O maior entre vós será o vosso servo» (Mt 23, 11). Deus não eleva os (que se julgam) grandes. Deus prefere elevar os humildes: «Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado» (Mt 23, 12).

Deus inverte tudo. Deus vê as coisas ao contrário de nós. Porque é que havemos de teimar nós em ver as coisas ao contrário de Deus? Para caminhar para o alto, acostumemo-nos a olhar para baixo. Os humildes merecem a nossa atenção. Deus está no seu coração. Façamos, pois, como Deus e nunca desprezemos nenhum dos filhos Seus. Sirvamos os humildes e vivamos na humildade. Só na humildade alcançaremos (e ajudaremos a alcançar) a desejada felicidade!

publicado por Theosfera às 05:17

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