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Domingo, 22 de Setembro de 2019

A. Quem tem ética passa fome?

  1. Neste mundo, não falta competência nem eficácia. Mas falta honestidade, falta seriedade, falta decência. Há muita gente que se tornou perita na arte do engano e da astúcia. Porquê?

Generalizou-se a ideia de que quem é decente fica sempre prejudicado. A decência é apreciada, mas pouco cultivada. É quase conectada com a ingenuidade. A pessoa decente é vista como uma pessoa boa, mas também ingénua.

 

  1. Em tempos, uma afamada apresentadora televisiva sentenciou que «quem tem ética passa fome». Descontando o óbvio exagero, a experiência ensina que a decência não facilita muito o acesso ao êxito. Mas antes a decência sem êxito do que o êxito sem decência.

Wladyslaw Bartoszeski recomendava: «Vale a pena ser decente, mesmo que muitas vezes não sejamos recompensados; não vale a pena ser indecente, ainda que muitas vezes possamos ser recompensados».

B. A esperteza dos desonestos

3. Em que consiste a decência? Para Vergílio Ferreira, uma conduta decente «consiste em manter cada um a sua dignidade sem prejudicar a liberdade alheia». Aliás, não é possível manter a dignidade quando se litiga com a liberdade dos outros. Ser digno é, precisamente, respeitar os outros.

É o que nós, muitas vezes, não fazemos. Foi o que este administrador não fez. Já tinha pecado por indolência, desperdiçando os bens do seu senhor (cf. Lc 16, 16). Mas, reincidente, peca mais gravemente pela desonestidade e pelo despeito, convidando os devedores do seu senhor a declarar que deviam menos do que efectivamente deviam (cf. Lc 16, 5-7).

 

  1. Este administrador preferiu uma vida funesta a uma vida honesta, embora modesta: não queria procurar trabalho nem mendigar (cf. Lc 16, 3). Queria uma vida baseada na corrupção, no engano, na simulação. Nada a que, infelizmente, não estejamos habituados. E o certo é que os «mestres na arte do engano» costumam ser persuasivos e convincentes.

O próprio Jesus reconhece a mestria dos desonestos: «Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz» (Lc 16, 8). Só que não há «crime perfeito» e, como avisa o mesmo Jesus, «não há nada oculto que não venha a descobrir-se» (Lc 12, 2). E quando o encoberto fica descoberto, o resultado não é bom. O que se ganhou com esperteza perde-se sem qualquer dignidade.

C. A gula pelo dinheiro

5. Não existe gula apenas em relação aos alimentos. Também existe gula em relação ao dinheiro. Há quem nunca esteja saciado com ele. E há quem não olhe a meios para o fazer crescer. Assim sendo, nós, discípulos de Jesus, devemos evitar que a ganância ou o desejo imoderado do dinheiro manipulem a nossa vida e condicionem as nossas opções.

Na Primeira Leitura, o profeta Amós denuncia os comerciantes sem escrúpulos. Acontece que Amós adverte: Deus não está do lado de quem, por causa da obsessão do lucro, escraviza os irmãos. A exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus. Deus está atento e não esquece os actos daqueles que compram os pobres por dinheiro e os indigentes por um par de sandálias (cf. Am 8, 6).

 

  1. Há muita coisa que o dinheiro não compra. Não é o dinheiro que compra a honra e a dignidade. Pelo contrário, só com a honra e a dignidade é que conseguimos colocar o dinheiro ao serviço da pessoa. Sem honra e dignidade, o dinheiro espezinha, oprime e corrompe.

Jesus demonstra como os bens deste mundo são caducos e precários quando os afastamos do bem comum. Os bens materiais devem servir para garantir outros bens, mais duradouros, mais perenes, mais humanos.

D. É preciso ser hábil na missão

7. A primeira parte deste texto (cf. Lc 16, 1-9) apresenta a parábola do administrador astuto e desonesto. Ela conta-nos a história de um homem que é acusado de administrar mal os bens do seu senhor. Chamado a contas para ser despedido, este homem procura assegurar o seu futuro de qualquer maneira. O expediente é a corrupção. Chama os devedores do patrão e reduz-lhes consideravelmente as quantias em dívida. Dessa forma, esperava que os devedores o não esquecessem e retribuíssem acolhendo-o em sua casa.

É um comportamento inqualificável, mas infelizmente muito frequente. Olhando para as leis e costumes da Palestina no tempo de Jesus, era habitual os administradores não receberem remuneração. Então, eles «pagavam-se» na relação com os devedores.
Ou seja, quando os administradores forneciam um determinado número de bens, debitava um número muito maior. A diferença era a «comissão» do administrador.

 

  1. Como este administrador foi despedido, chama os devedores e diz-lhes que renuncia às tais «comissões» para assim ser compensado no futuro, talvez com um emprego melhor. O plano era astucioso. Das cem medidas de azeite, uns 3.700 litros (cf. Lc 16, 6), só umas cinquenta haviam sido, efectivamente, emprestadas. As outras cinquenta constituíam a exorbitante «comissão» que lhe devia ser paga pela operação.

Jesus conclui a história convidando os discípulos a serem tão hábeis como este administrador (cf. Lc 16, 9): não em relação ao dinheiro, mas em relação ao anúncio do Evangelho. Relativamente aos bens deste mundo, os discípulos devem usá-los não como um fim em si mesmo, mas para conseguir algo mais importante e mais duradouro.

E. Nem toda a riqueza é honesta, mas toda a honestidade é rica

9. Na segunda parte do texto (cf. Lc 16, 10-13), São Lucas apresenta-nos uma série de «sentenças» de Jesus sobre o uso do dinheiro. No geral, essas «sentenças» alertam os discípulos para o recto uso dos bens materiais. Se os usarmos segundo os critérios do Evangelho, seremos dignos de receber o verdadeiro bem, quando nos encontrarmos definitivamente com o Senhor Jesus. O texto termina com um aviso de Jesus acerca da idolatria do dinheiro (cf. Lc 16, 13). Jesus dá a entender que Deus e o dinheiro representam mundos contraditórios e procurar conjugá-los é coisa impossível

É preciso ser fiel a Deus em tudo, inclusive na relação com o dinheiro. «Quem é fiel no pouco também é fiel no muito» (Lc 16, 10). A fidelidade a Deus tece-se nas atitudes concretas. Deus não pode estar subordinado ao dinheiro; o dinheiro é que tem de estar subordinado a Deus. É segundo os critérios de Deus — sobretudo segundo os critérios do amor ao próximo — que havemos de gerir a relação com o dinheiro.

 

  1. Também pelo dinheiro passa a nossa fidelidade a Deus. O dinheiro não pode ser obtido de qualquer maneira nem pode ser aumentado a qualquer preço. É essencial ser honesto em tudo. Não podemos reduzir a honestidade às palavras e aos discursos. É preciso ser honesto com a vida inteira.

Não é fácil ser honesto. É muito difícil e bastante dificultado. No século XVII, já dizia William Shakespeare dizia que «ser honesto, tal como o mundo está, é ser um homem escolhido entre dez mil». Há muitas pressões para violar a honestidade. Nem toda a riqueza é honesta. Mas toda a honestidade é rica, sumamente rica!

publicado por Theosfera às 05:00

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