O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 29 de Outubro de 2017

A. O que queriam os «profissionais da rasteira»?

 

  1. Armadilhas não são coisa de agora. Jesus pisou, frequentemente, terrenos armadilhados. Sucede que Ele desembaraçou-Se sempre dos «profissionais da rasteira», daqueles que gostam de fazer cair os outros nas suas armadilhas. Tendo feito calar os saduceus (cf. Mt 22, 34), é compreensível que os fariseus também quisessem experimentar Jesus, para ver se conseguiria fazer-lhes o mesmo. Sendo especialistas em leis, achavam que não lhes custaria muito arrastar Jesus para alguma resposta equívoca ou, pelo menos, imprecisa.

No entanto, a pergunta não parecia ser das mais difíceis: «Qual é o maior mandamento que há na Lei?» (Mt 22, 36). O Decálogo é muito claro e conciso. Sucede que a Lei (Thora) compreendia não só os Dez Mandamentos, mas tudo quanto está nos cinco primeiros livros da Bíblia: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Foi a partir deles que os doutores da Lei chegaram a contabilizar 613 preceitos: 365 negativos, que estipulavam o que não se podia fazer, e 248 positivos, que apontavam o que se devia realizar. Uma coisa é escolher o maior entre dez e outra coisa (bem diferente e bem mais difícil) é seleccionar o mais importante no meio de 613.

 

  1. Suspeito, porém, que pode ter havido um outro motivo para esta rasteira. Além da óbvia dificuldade em seleccionar o preceito mais importante no meio de 613 preceitos (todos eles) importantes, é possível que alguém achasse que, para Jesus, o amor ao próximo estava acima do próprio amor a Deus. Apesar de Jesus tratar Deus por Pai — o que muito irritava os «profissionais da rasteira» —, Ele amava tanto as pessoas que alguns poderiam ter dúvidas acerca da Sua ortodoxia.

Será que Jesus iria ser apanhado em falso? É muito fácil ver onde estava a rasteira. Se Jesus dissesse que o mandamento mais importante era o amor ao próximo, imediatamente O acusariam de heresia. Nada pode estar antes — nem acima — de Deus.

 

B. Dois mandamentos em «pacote»

 

  1. Só que Jesus desmontou, com genial mestria, toda esta armadilha. Ou seja, não foi arrastado pelos «profissionais da rasteira». Jesus não deixou subsistir qualquer dúvida de que o amor a Deus está acima de tudo. Mas Jesus fez mais: colocou o amor ao próximo em estreitíssima ligação com o amor a Deus. Foi como se dissesse que é impossível amar a Deus não amando o próximo.

É assim que Jesus desarma, completa e brilhantemente, quem se preparava para lhe montar uma armadilha, à partida complicada. Na verdade, Jesus surpreende de tal modo o auditório que não somente indica com destreza o primeiro mandamento («o amor a Deus») como aponta, logo a seguir, o segundo («o amor ao próximo»). É como se os dois mandamentos só pudessem ser apresentados — e vividos — em «pacote». Isto é, só consegue amar a Deus quem se dispuser a amar o próximo.

 

  1. É espantoso verificar como a acção contida neste duplo mandamento é o amor. Ou seja, o que Jesus espera de nós — para com Deus e para com o próximo — é o mesmo, é o amor. Não é o conhecimento, não é sequer o trabalho; é o amor. No fundo, o amor é a lei; no fundo, a lei é o amor. Que temos feito nós desta lei? Que estamos nós dispostos a fazer desta lei?

Se repararmos, o amor foi a lei que Jesus nos deixou pois foi a lei que Jesus sempre viveu. Trata-se de uma lei que se encontra esculpida no Mandamento Novo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 13, 34). Só que a lentidão com que nós, cristãos, vivemos essa lei é exasperante. Nos começos, notava-se um grande entusiasmo à volta desta lei. Tertuliano dá-nos conta de que os outros, olhando para os cristãos, exclamavam: «Vede como eles se amam!» Ou seja, «vede como eles fazem o que dizem»; «vede como eles cumprem a sua lei».

 

C. A lei do amor consegue mais que o amor da lei

 

  1. Se a lei do amor fosse mais observada, as outras leis quase poderiam ser dispensadas. Já dizia Disraeli: «Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis». Com efeito, um homem honesto não precisa da lei. Já um homem desonesto nem com a lei melhora.

Tudo isto mostra que obtemos mais com a lei do amor do que com o amor da lei. O mero amor da lei esquece, quase sempre, que a lei é um instrumento, não uma finalidade. A lei existe para proteger as pessoas, nunca podendo servir de pretexto para destruir pessoas. Importa ter presente que, como lembrou Luther King, «tudo o que Hitler fez na Alemanha foi legal». Arrepia, mas é verdade: há sempre vidas que vão sendo degoladas à luz da lei, na escuridão de certas leis.

 

  1. Jesus não veio revogar as leis, mas aperfeiçoar a Lei (cf. Mt 5, 17). E o critério de Jesus para aperfeiçoar a Lei foi sempre o amor. O amor deve ser vivido junto dos que pensam como nós e não deve esquecido junto dos que pensam diferente de nós.

Parafraseando Pedro Laín Entralgo, diria que é preciso ser «consensuante» mesmo com quem se mostra «discrepante». Assim, o crente amará os que merecem ser amados e não deixará de amar os que, não merecendo, também precisam de ser amados.

 

D. É impossível amar a Deus não amando o próximo

 

  1. É sob este pano de fundo que Jesus faz sabiamente rebentar a armadilha que Lhe prepararam: «Qual é o maior mandamento que há na Lei?» (Mt 22, 36). Jesus começa por responder citando a própria Lei, mais concretamente o Livro do Deuteronómio 6, 5: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças».

Acontece que Jesus vai mais longe. Diz não apenas qual é o primeiro mandamento, mas aponta logo o segundo, qualificando-o como semelhante ao primeiro: «Amarás o próximo como a ti mesmo». Aqui, cita uma outra passagem da Lei, consignada no Livro do Levítico 19, 18.

 

  1. Se este segundo mandamento é semelhante ao primeiro, podemos concluir que ele não é apenas segundo, pois faz parte do primeiro. Sendo assim, o amor a Deus é realizado no amor ao próximo. É impossível amar a Deus não amando o próximo. Só amando o próximo mostraremos que amamos a Deus.

Aliás, já São João perguntava: «Quem não ama o irmão que vê, como pode amar a Deus que não vê?» (1Jo 4, 20). Por isso — prossegue o mesmo apóstolo — «quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1Jo 4, 21).

 

E. Sem amor, não há nada; nem sequer há fé

 

  1. A ligação entre o amor a Deus e o amor ao próximo é tão estreita que São Gregório Magno entreviu aqui uma razão simbólica para Jesus mandar os discípulos em missão dois a dois. Mandou-os dois a dois porque «dois são os mandamentos, a saber, o amor a Deus e o amor ao próximo». No amor está tudo: está a Lei e estão os Profetas (cf. Mt 22, 40), isto é, está toda a Sagrada Escritura.

Por aqui se vê como Jesus, na resposta que dá, vai muito mais além da pergunta que Lhe tinha sido feita. Ele deixa bem claro que é toda a Bíblia que está perfumada pelo amor: pelo amor a Deus e pelo amor ao próximo. A qualidade do nosso amor a Deus mede-se pela intensidade do nosso amor ao próximo. Se não há amor, não há nada, nem sequer há fé.

 

  1. É por isso que quem mais sabe a Lei não é quem mais a conhece, mas quem melhor a vive. É preciso viver o amor a partir da nascente, a partir de Deus. E Deus, como nos diz a Primeira Leitura, tem um amor de predilecção pelos mais necessitados: os pobres, os órfãos, as viúvas, os estrangeiros, isto é, todos os que passam privações (cf. Ex 22, 20-26). Também São Paulo dá testemunho do amor divino ao pôr à frente dos seus interesses os interesses dos outros (cf. 1Tes 1, 5).

Afinal e como garante Jesus, «há mais alegria em dar do que em receber» (Act 20, 35). Até porque quando damos, somos presenteados com a alegria de quem recebe. Nunca recebemos tanto como quando damos tudo. Nunca recebemos tanto como quando nos damos totalmente!

publicado por Theosfera às 05:53

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